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Ao mesmo tempo em que o narrador questiona a conduta de um determinado personagem -“será que vale a pena ‘entrar na faca’?”- e a visão sobre as intervenções é extremamente moralizante, tem-se a cirurgia e as mazelas do pós-operatório transformadas em espetáculo e humor perverso. Há assim um ponto de vista explícito do programa, sensacionalista, porém não emotivo, que além da voz off e do julgamento dos personagens, ainda se utiliza de elementos gráficos para ilustrar os “casos”. Também é o único programa que, dentre as ironias com os candidatos a celebridade, embute uma questão social: o preço das cirurgias.

“Beleza Comprada”, primeira produção nacional do GNT no formato, assim como “I want a famous face”, não financia as intervenções cirúrgicas, apenas acompanha personagens em sua busca, como eles mesmos dizem, de auto-estima e aprovação dos outros. Ao evitar a espetacularização das cirurgias e sendo desprovido de um narrador que julga implacavelmente seus personagens, o programa coloca-se de maneira mais respeitosa e com algum distanciamento crítico. Aponta a câmera menos para os casos isolados e mais para uma produção de sintoma social. Quando elege um personagem, também privilegia seu entorno familiar e afetivo. Também incorporou, reelaborando para melhor, uma herança de “Zoológico Humano” (exibido pelo GNT), um time de intelectuais que funcionam como analistas dos “casos”.

Paulo Vaz, filósofo, professor da Escola de Comunicação da UFRJ e um dos participantes, diz -sobre a contribuição crítica do grupo- que o sentido seria “se esforçar para entender porque alguém recorre a uma cirurgia plástica e em que medida esse recurso revela alguma coisa sobre cada um de nós, articulando o específico e o genérico”.

O problema que se coloca quanto à participação do grupo é que a crítica acaba sendo neutralizada, quando não esvaziada, pela edição veloz, que transforma pensamento reflexivo em pensatas e frases desconexas, ao privilegiar apenas dois a três minutos de uma discussão de mais de trinta minutos. Um problema de formato e, sem dúvida, político. Os intelectuais também são, curiosamente, filmados em preto-e-branco. A justificativa técnica é que ausência de cor neutralizaria as roupas dos participantes, o que facilitaria a não-percepção de que três episódios são debatidos de uma só vez.

A conseqüência visual, e novamente política, é que o pensamento, além de desconexo, aparece como o lugar arcaico e desvitalizado por excelência. Porém, como contraponto à falta de vitalidade, “Beleza Comprada”, em seu melhor momento, parece ter se inspirado nas metanarrativas inauguradas por Jean Rouch e Edgar Morin em “Crônica de um Verão” (1960). Reunindo todos os participantes ao redor de uma mesa de restaurante e os colocando para assistir a trechos do programa, os personagens se puseram a conversar sobre suas opções de vida e estéticas. Como não poderia deixar de ser, o momento mais interessante foi aquele no qual os comentários sobre os intelectuais foram tecidos. É como se, com o conflito instaurado na comunicação, os intelectuais tivessem adquirido novamente a cor.

“Queer eye for the straight guy”, produzido pela norte-americana Scout e exibido pela Sony, acompanha cinco gays em suas tarefas de transformação de uma casa e de seu proprietário (um heterosexual). Os cinco estão sempre correndo, literalmente, como se estivessem participando de uma gincana. Entram nas casas apressados e ansiosos, colocando abaixo o que puderem -mobiliário, objetos pessoais, guarda-roupa-, enquanto fazem uso de seu repertório de comentários ferinos, por vezes cruéis. Cada um é responsável por um segmento: “aparência”, “gastronomia e vinhos”, “cultura”, “moda” e “decoração de interiores”.

Os “Fab 5”, como gostam de ser chamados, são os super-heróis da contemporaneidade. Sintonizados com um segmento da ficção audiovisual norte-americana, liderado por uma nova geração marcada pelo sarcasmo, manipulam seus personagens como marionetes, submetendo-os a constrangimentos variados e manifestando desprezo pela aparência e a mediocridade deles. Mas, é claro, para os “Fab 5”, não há desprezo que se sustente sem algum carinho (talvez para não romper com o consenso mínimo de um tratamento politicamente correto). Em retribuição, ao final das intervenções, os heteros dizem que amam os gays, que estão muito agradecidos, transformados.

Uma situação exemplar foi a de um personagem careca que, após a entrada em cena dos cinco, passou a se aceitar como tal e aposentou definitivamente a peruca. Mas, para se aceitar como era, careca, precisou mudar todo o seu visual, seus hábitos e a decoração de sua casa. Adotou o look moderninho imposto pelo grupo, para parecer “um advogado poderoso” e ser “capaz de tomar decisões”. Como ele era muito inseguro (assunto tematizado constantemente pelos gays), precisava, primeiro, criar o visual de vencedor para, depois, passar a agir como um. “Nada de errado em ser 100% você”, proclamava o responsável pelo segmento “aparência”. “Nós vamos te ensinar a gastar mais, a comer comidas caras”, enfatizada o responsável por “gastronomia e vinhos”.

Os “Fab 5”, assim como a modelo Fernanda Tavares, interventora de “Missão MTV”, não fazem nada que não seja a promoção de ajuste social, enquadramento de pessoas em categorias profissionais e produção de subjetividades seriadas. Não importa o que façam de fato, não importam seus méritos, muito menos suas singularidades, os transformados têm, acima de tudo, de parecer com rótulos já definidos a priori e “sair bem na fita”. Os transformados têm de ser iguais para serem consumíveis e ser diferentes para serem tornados consumidores.

O Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é o segundo país do mundo em número de operações realizadas, só perdendo para os Estados Unidos. Sem dúvida, destino certo para os shows que querem, conforme a chamada de “Extreme Makeover” (com aquela locução sensacionalista), “mostrar o interior das pessoas, desafiando a genética para a bem da nossa audiência”. A audiência do programa, sem ambigüidades.

Nos próximos meses, o canal E! Entertainment Television estreará uma série reality, estrelada por um médico brasileiro que é um dos maiores cirurgiões plásticos de Hollywood, cuja chamada, ainda mais sofisticada, diz: “Em Beverly Hills ser bonito é vantagem”. Também a FOX lançou recentemente a série “Nip/Tuck”, “ninguém é perfeito”, sobre dois cirurgiões plásticos bonitões, fundindo ficção e realidade, num modelo que aqui conhecemos através da novela “Metamorphoses” (Record).

A diferença é que a novela -talvez seja esse um dos motivos de seu fracasso- não exibia operações com ânus a mostra, nem possuía uma dramaturgia tão cheia de sobressaltos, na qual as cirurgias são mais excitantes que as cenas de sexo. Mas é bom sabermos que a exibição de vísceras, cirurgias plásticas, vômitos, consultas médicas, exames e o recurso de falar com a câmera antes de dormir não é exclusividade dos realities.

“Super size me” (EUA, 2004), o engajado documentário de Morgan Spurlock contra a maior cadeia de “fast food” do planeta, o McDonald’s, utiliza-se dos mesmos recursos em voga nos shows da TV, além de adotar um tratamento jocoso que trata os obesos, e/ou viciados em hambúrgueres e “super sizes”, como aberrações passíveis de serem ridicularizadas. O único são e salvo é ele, Morgan, e seu filme é curiosamente subtitulado como “a dieta do palhaço”.

Parece que essa dramaturgia contemporânea não conhece muitas opções em relação ao pior do espetáculo circense, espetáculo que através da “superexcitação fisicalista” faz da pornografia sua lógica de funcionamento, agregando o fluxo do capital ao fluido libidinal. Não por acaso, o inescrupuloso cirurgião de “Nip/Tuck” disse em um dos episódios: “A cirurgia plástica não está muito longe da indústria pornográfica. Nós também vendemos fantasias”. Fala surpreendentemente lúcida e que se articula com o que escreveu o filósofo argentino Christian Ferrer, no ensaio “La curva pornográfica - El sufrimiento sin sentido y la tecnologia” (2003): “A essência da pornografia não se encontra tanto no primeiro plano anatômico, mas em sua promessa de felicidade subjetiva perfeita”.


Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.



Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.



 
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