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cosmópolis
CAPITALISMO

Contra o economicismo
Por Ilana Goldstein

O MAUSS (Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais) luta contra a hegemonia do determinismo econômico

Criado por intelectuais franceses, em 1981, o MAUSS (Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais) propõe-se a discutir os fundamentos filosóficos e antropológicos da teoria econômica. Colaboradores do porte de Robert Castel, Cornelius Castoriadis, Mary Douglas e Claude Lefort participam de seus encontros anuais e publicam ensaios críticos, seja em sua revista, seja em sua coleção de livros.

Como o nome sugere, Marcel Mauss, um dos pais-fundadores da etnologia, é a grande fonte de inspiração. Vale lembrar que Mauss, partindo das observações de campo feitas por seu contemporâneo Malinovski, distinguiu dois tipos diferentes de troca entre os melanésios: o gimwali, simples aquisição de mercadorias úteis, e o kula, de caráter muito mais nobre, em que se presenteavam generosa e solenemente colares e braceletes.

Mauss percebeu que as sociedades "primitivas" não se organizam exclusivamente em função de príncipios semelhantes aos do mercado, abrindo caminho para uma analogia com nossa própria sociedade. Como se, também nas sociedades ocidentais, o papel das trocas não-utilitaristas -favores, elogios, saudações, presentes, convites etc.- fosse muito mais central do que admitimos. Não é difícil relacionar a investigação teórica de Mauss a sua posição política: o autor do seminal "Ensaio sobre o dom" (1924) foi adepto do socialismo e fundou uma cooperativa de crédito em Paris.

O Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais, encabeçado desde 1981 por Alain Caillé, apropria-se de algumas idéias e da postura de Marcel Mauss como uma espécie de antídoto ao determinismo econômico. Esses neomaussianos não sugerem ingenuamente a eliminação do capitalismo, lutando apenas pela desconstrução do ethos do mercado. Criticam a busca do lucro financeiro como fim principal, valorizando, em contrapartida, a cooperação e a doação.

Caillé é também professor de sociologia na Universidade Paris X - Nanterre e diretor no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica) de um laboratório voltado para o estudo e a observação da democracia. Além disso, faz parte do conselho científico da organização internacional Attac, que prega a taxação das transações financeiras, e é autor de diversas publicações, algumas já traduzidas no Brasil, como "Antropologia do dom: o terceiro paradigma" (Vozes, 2002) e, em co-autoria com Jacques Goudbout, "O Espírito da dádiva" (Editora FGV, 1999). Leia a seguir entrevista com o sociólogo.


Qualquer pessoa que tenha familiaridade com as ciências sociais percebe que só pode ser intencional o resultado da abreviação de "Movimento Antiutilitarista nas Ciências Sociais", que forma o nome de um dos grandes pioneiros da teoria antropológica. Quais as implicações desse trocadilho?

Alain Caillé: De fato, o “Ensaio sobre o dom”, de Marcel Mauss, constitui nosso principal referencial teórico. O paradigma do dom é o mínimo denominador comum que une todos os autores, estudantes e militantes ligados ao movimento. Em linhas gerais, permite desconstruir o mito de que os homens trocam para acumular bens ou capital. Segundo Mauss, nas sociedades primeiras, a regra fundamental não repousa sobre contratos, mas sobre três obrigações complementares: dar, receber e retribuir. Trocamos por muitas outras razões que ultrapassam os interesses materiais, inclusive por razões simbólicas.

Uma vez que você percebe a centralidade da questão, pode reler toda a história das ciências sociais como uma sucessão de tensões entre a doutrina utilitarista e a antiutilitarista. Já do ponto de vista político, o paradigma do dom tem muito a ver com a democracia, pois, ao invés de se conceber o indivíduo como alguém que busca apenas seu próprio benefício, almejam-se cidadãos que considerem justo e desejável aquilo que é bom para o maior número de pessoas. Na verdade, o mesmo espírito do dom fundante das sociedades arcaicas está na base das religiões e tem sua versão laica na democracia.


Continuando no nome, o movimento que o senhor dirige se auto-proclama antiutilitarista. O que exatamente se designa com utilitarismo?

Caillé: Lançamos mão desse termo levando em conta que Mauss e seu tio Durkheim se opunham a uma visão puramente economicista do mundo. Associamos antieconomicismo a antiutilitarismo. Ao longo desses 20 anos do MAUSS, a discussão foi, sem dúvida, enriquecida, mas continuamos sustentando que o triunfo do econômico nos domínios do pensamento e da prática é o triunfo de uma visão de mundo utilitarista.

Em outras palavras, enquanto para os teóricos do livre mercado as ações humanas são motivadas pelo desejo de maximizar prazeres, conforto e posses materiais, ou seja, são calculadas a partir de sua utilidade, para Marcel Mauss e para o MAUSS nossas ações consistem -ou deveriam consistir- em demonstrações de generosidade desinteressada, nas quais nos recusamos ao cálculo racional e em que importam mais as relações entre pessoas do que as relações quantificáveis entre coisas.


É esta a base da "outra economia", mencionada com freqüência no material de vocês?

Caillé: Serge Latouche, partidário da "teoria da diminuição" (théorie de la décroissance) e crítico do desenvolvimento ocidental, acha que o único caminho seria vivermos em pequenas comunidades. Latouche vem suscitando debates acalorados com sua afirmação de que o padrão de desenvolvimento ocidental atual não é aplicável a toda a humanidade, simplesmente porque seriam consumidos três planetas Terra para fornecer os recursos naturais necessários. Vivendo em pequenas comunidades, seria mais fácil garantir trocas justas em nível local. Porém, enquanto grupo, não temos nem uma fórmula pronta, nem consensual.

Escrevemos sobre temas concretos e variados, buscando soluções pontuais. O próximo número da “Revista do MAUSS”, por exemplo, será sobre o salário mínimo. Eu, particularmente, não creio que seja possível substituir a economia de mercado agora; antes, defendo a criação de mais mecanismos democráticos de controle e de proteção social. Enfim, somos, ao mesmo tempo, idealistas e pragmáticos. E estamos conscientes de que a "outra economia" é algo difícil de construir. Talvez vocês consigam primeiro no Brasil...


O que o leva a crer que isso poderia ocorrer no Brasil?

Caillé: Eu sempre depositei muita esperança no Brasil, cujo dinamismo e a vitalidade me impressionam. Esperança de ver renascer o ideal democrático moderno, num contexto diferente daquele onde surgiu: a velha Europa e os países de cultura anglo-saxônica. E não me consta que tenha havido, ultimamente, tamanha mobilização popular capaz de conquistar o poder em municípios importantes, de exercer as responsabilidades locais e, também, de triunfar democraticamente no plano nacional.

Essa mistura de tradição cristã com marxismo, presente no PT, somada à capacidade -inexistente no resto da América Latina- de combinar raças e cores, além da presença de um líder ao mesmo tempo carismático e realista, tudo isso me fez nutrir grandes esperanças em relação ao Brasil, embora eu não ignore as abomináveis desigualdades sociais e a violência que imperam na sociedade brasileira.


O senhor tem acompanhado o governo Lula e as reações críticas que vem sofrendo, inclusive da chamada esquerda?

Caillé: Que Lula não tenha adotado, desde sua eleição, medidas socioeconômicas destinadas ao fracasso -correndo o risco de frustrar sua base de esquerda- e que ele tenha sabido evitar a fuga de capitais, considero encorajador. Porém, foi se tornando progressivamente claro que, mesmo dentro da linha do realismo político, seria necessário ter anunciado objetivos e métodos um pouco mais radicais de luta contra as desigualdades, a miséria, a criminalidade e a corrupção, além de um processo de democratização mais profundo.

Essas seriam as condições para que Lula se consolidasse, nacional e internacionalmente, como emblema da renovação na crença democrática e para que servisse de modelo para um, digamos, reformismo radical. Não se vêem, atualmente, práticas e nem um discurso condizentes com isso e, então, o pessimismo e a desmobilização começam a triunfar. É lamentável, não apenas para o Brasil, mas também para o resto do mundo. Mesmo assim, talvez não devamos esperar pelo pior...

De todo modo, se houver fracasso, considero absurdo imputar responsabilidades exclusivamente a Lula. De um lado, vocês têm obstáculos concretos significativos demais -o FMI, a corrupção generalizada, a persistência do patrimonialismo etc. De outro lado, no plano ideológico, pode ser que a conjunção de catolicismo -ou, dito de outra forma, do ideal da caridade- e marxismo -ou em outras palavras, a espera pela grande revolução- revele-se insuficiente para produzir análises, resultados políticos e um programa de governo à altura do desafio.


Que outro mundo, menos injusto, seria efetivamente possível?

Caillé: A quase totalidade dos problemas que enfrentamos derivam da falta de limites, do exagero. Assim, nesse outro mundo deve haver um casamento entre ética e economia viabilizado pelo estabelecimento de limites. Isso é justamente o que pretendem os defensores de uma “alter-globalização”, ou de uma “alter-mundialização”, como preferimos dizer, para deixar claro que se trata de algo distinto do modelo capitalista atual.


Que tipo de limites?

Caillé: Como já escrevi num artigo, as ameaças que pesam sobre nós são de dois tipos. A primeira grande ameaça está ligada à sustentabilidade física e ecológica de nosso sistema econômico, à rarefação de recursos naturais. A segunda resume-se na incompatibilidade entre o sistema financeiro mundial e a garantia de justiça e igualdade tão cara à democracia. O segundo problema me parece prioritário sobre o primeiro, do ponto de vista lógico, já que nunca haverá desenvolvimento sustentável sem democracia durável.

Como pensar e pôr em prática projetos ambientais, enquanto o Pnud da ONU revela verdadeiras aberrações, como o fato de 1% da população ter renda superior a 57% do planeta? E não pense que a desigualdade vigora apenas em relação aos países pobres. Paul Krugman escreveu recentemente, no “New York Times”, que, na década de 70, a diferença de renda entre os 100 empresários mais ricos dos Estados Unidos e seus funcionários era de 39 vezes, ao passo que hoje o salário dos mais ricos chega a ser 1.000 vezes maior.

Tudo isso nos levou à formulação de dois princípios básicos que deveriam ser os pilares de sustentação de qualquer movimento social: 1) todo Estado deve assegurar a seus cidadãos uma renda que corresponda, pelo menos, à metade da renda de base local; 2) nenhum Estado deve tolerar que alguém tenha ganhos anuais superiores a 100 vezes o salário de base. Ou seja, contra o perigo da falta de limites, sugerimos a instauração simultânea de um salário mínimo e de um salário máximo.


Essa proposta não se enquadra, de alguma maneira, no que se costumava chamar de "esquerda"? Ou o senhor é daqueles que rejeita a oposição entre "esquerda" e "direita"?

Caillé: A oposição entre esquerda e direita continua operacional no nível empírico, para nomear as lutas políticas, as plataformas concretas dos candidatos e as forças centrais do jogo político, ao menos na França. No campo teórico, a grande questão é como ultrapassar o antagonismo e como criar novos modelos mais eficazes.

Aos que se reconhecem na esquerda, sempre recomendo que conheçam sua história, que sejam críticos quanto a idéias prontas e que não se sintam condenados à repetição. Temo por uma esquerda nostálgica dos tempos passados, mas confusa em relação ao presente.

Poderia falar um pouco sobre a “Revista do MAUSS”?

Caillé: É uma revista semestral e representa um espaço público de debate interdisciplinar. Procuramos oferecer novas perspectivas de análise dentro da economia, da antropologia, da sociologia e da filosofia política. Um dos eixos condutores da revista, ao longo do tempo, é o desejo de não negligenciar as implicações éticas e políticas da produção intelectual. Dois outros traços que permanecem do início até hoje são sua independência e a fraca presença dos anglo-saxões, que parecem ignorá-la. Embora agora seja respeitada, a revista começou como um boletim amador, feito entre amigos.

Hoje em dia, a tiragem varia entre 1.500 e 2.000 exemplares e o número de páginas gira em torno de 400. Quanto ao preço, não é barata porque se auto-financia, recebemos somente uma pequena subvenção pública. Você pode olhar a lista dos números já publicados em nosso site, assim como os livros que fazem parte da "Biblioteca do MAUSS". É possível encomendar pela internet e ler alguns textos on-line.


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