1
dossiê
HISTÓRIAS MUNICIPAIS

Sai da chuva, José!
Por Nelson de Oliveira

Ah, José, que é que você faz aí parado?

Sai da chuva, José!

Larga essa tainha e corre pra varanda.

Ah, José, a vida não é só ganhar ou perder. Você sabe disso, sempre soube. O mundo não é Las Vegas, São Paulo não é o Grande Cassino. Larga esse peixe e vem pra dentro, José.

Quê?!

Que foi que você disse?

O peixe falou com você? A tainha?

Ah, José, eu bem que te avisei, não avisei? Eu falei: "Zé, é melhor você não sair nessa chuva". Mas você não me deu ouvidos. Você nunca me escuta, José!

Desembucha! Que foi que a tainha te disse?

Quê?!

Ela disse isso?

Tem certeza? Você prestou bastante atenção?

Não, José. Não pode ser.

Nosso plano de governo é perfeito, redondo, sem falhas. Em todas as áreas. Agora não é hora de mudar nada.

O que foi prometido foi prometido. E o eleitorado? Que justificativa a gente ia dar?

A tainha? Deixa disso, José. A tainha?!

Sai da chuva, sai.

Deixa tudo aí, a vara, as iscas, devolve a tainha ao rio.

Ah, José, tudo era tão mais fácil quando você não pescava. Quando você apenas colecionava chaveiros.

Álbuns de figurinhas.

Miniaturas de carros da fórmula um.

Selos.

Como a vida era mais tranqüila.

Você não pescava nem tratava de política com os peixes.

Você não ficava a tarde toda na margem dos rios, nos barrancos, debaixo de chuva.

As tainhas não sugeriam mudanças na nossa estratégia.

Os robalos não opinavam sobre a nossa assessoria de imprensa.

Os pirarucus não metiam o bedelho nas nossas contas de campanha.

Ah, José, sai da chuva, sai, você está ensopado.

Solta a pobre da tainha, desfaz esse olhar de peixe morto e volta pra dentro.

A festa ainda não acabou. Olha só a alegria do povo.

A farra está só começando.

Eu já preparei o teu discurso. Já escolhi a tua melhor roupa. Deixa o peixe pra lá.

Não, José. Pára!

Que é que você tá fazendo?

Não tira a camisa.

Sai dessa chuva, não fica nesse vento. Assim você vai pegar uma pneumonia.

Não tira o sapato, não tira a calça.

Aonde você vai pelado? Volta aqui, José!

Ah, José, se eu soubesse que a vitória mexeria tanto assim com você…

Agora a vida não voltará a ser como antes? Nunca mais?

Volta aqui, José.

A água deve estar fria demais, isso não é bom pra tua saúde. Olha a bronquite.

Solta o peixe e volta pra casa.

Quê?

Que foi que ele disse?

A vida não tem segundo turno?

Eu sei, José, ele está certo, a vida não tem segundo turno. Então sai desse rio, não abandona a gente justo agora. A festa já vai começar.

Volta!

Que é que a gente vai dizer pra imprensa, pro partido, pro povo?

Como é que a gente vai justificar isso pra Justiça Eleitoral?

Não, José, não vou levar a tainha comigo.

Não vou mostrar o peixe na TV, não vou pedir a ele que explique tudo isso em rede nacional.

Eu sei, José, ele está certo, a vida não tem segundo turno.

Mas o rio não tem três margens, não adianta nadar até o horizonte.

Veste a roupa, volta pra casa, José.

Eu sei, eu sei, os fogos de artifício assustam. As bombas, os rojões, os buscapés.

Mas você queria o quê? Moema te adora, Pinheiros não pode viver sem você, Higienópolis em peso está te esperando com a nossa bandeira nas janelas, nos carros.

Ah, José, que é que você faz aí parado?

Sai da chuva, José!

Sai da água, larga essa tainha e corre pra varanda.

Quê?!

Que foi que você disse?

O peixe não quer que você saia do rio?

Por que você dá tanta atenção a essas criaturas, José? Que é que elas entendem de política, hein? Me diga?!

Por acaso foi um lambari que fez a tua popularidade subir nos bairros da periferia?

Foi uma truta que na hora agá convenceu os indecisos a votar em você?

Foi um peixe-boi que descobriu a amante do teu maior adversário?

Ah, José, tudo era tão mais fácil quando você não pescava. Quando você apenas colecionava revistas de fotonovelas.

Amuletos africanos.

Miniaturas de monumento famosos.

Estetoscópios.

Como a vida era mais tranqüila.

Você não pescava nem dividia com os peixes os detalhes da tua intimidade.

Vamos, homem! Coragem!

Não se deixe abater pelos fogos da vitória! A vida não é só ganhar ou perder. Você sabe disso, sempre soube.

Sai do rio, veste a tua roupa e volta pra varanda.

O verdadeiro oráculo são as urnas, não os peixes.

A favor, contra, nulos, em branco, os votos não mentem.

Melhor do que as bolas de cristal são as cédulas eleitorais.

É verdade ou não é?

É ou não é?! Pergunta ao teu amigo escamoso, pergunta!

Eu não disse!

Até ele concorda comigo.

Acorda desse sonho molhado, José. Abre os olhos e volta pra casa. Vencer não é vergonha.

Eu sei, agora você vai ter que dizer "não" pra todo mundo. Agora você vai ter que brigar, se esconder, fingir que não conhece ninguém.

Eu sei, os favores, as promessas, as dívidas…

Mas quem não deve não tem, José. Quem não deve não tem.

Viu só? Até a tainha concorda comigo!

Ah, José, tudo era tão mais fácil quando você não pescava. Quando você apenas colecionava camisas de jogadores.

Macaquinhos de pelúcia.

Miniaturas de estrelas do cinema.

Elepês.

Como a vida era mais tranqüila.

Você não pescava nem dividia com os peixes as tuas angústias mais profundas.


Nelson de Oliveira
É escritor e ensaísta, autor de "Pequeno dicionário de percevejos" (ed. Lamparina), "Naquela época tínhamos um gato" (Companhia das Letras), entre outros, e organizador de "Geração 90" (ed. Boitempo).

 
1