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dossiê
HISTÓRIAS MUNICIPAIS

Marta e o minhocão
Por Veronica Stigger

Quando Marta, seu marido, seu primogênito, seu caçula, a mulher do seu caçula, seu neto, seu ex-marido, a namorada do seu ex-marido, os quatro gatos e os dois cachorros da namorada do seu ex-marido chegaram à nova casa, o Minhocão já estava lá. Mas ninguém desconfiava.

Quem primeiro descobriu o Minhocão foi o netinho. Como passava os dias chafurdando na caixa de areia do pátio, não demorou muito para dar de cara com aquele anelídeo de grandes proporções, e demorou menos ainda para se encher de amores pelo bicho. Tão logo tomou posse do Minhocão, levou-o imediatamente para dentro de casa. Passou a tratá-lo como um pequeno Moisés encontrado flutuando no Nilo: nanava o Minhocão, fazia comidinha para o Minhocão, dava banho no Minhocão, beijava o Minhocão, conversava com o Minhocão e essas coisas que crianças costumam fazer com minhocas. Vó, olha só o Minhocão no meu popô, dizia ele, enquanto sacudia o pobre Minhocão entre as nádegas.

Tirando esse negócio desagradável de ser sacudido entre as nádegas, o Minhocão até que estava gostando da mordomia. Comidinha, colinho, cafuné... Folgado como ele só, não queria mais nada. Passava os dias na rede, sonhando em um dia ter uma pata para poder botá-la no nariz, extrair uma bela porção de ranho e depois comê-lo, como fazia tão prazerosamente seu amiguinho. Só achava que a casa era movimentada demais. Antes, era mais sossegado. Com Marta e sua família, ele não podia nem sestear direito. Tinha muito barulho, muita gente falando e andando, muita música alta, muito bicho, aquele cocker chato que não parava de latir, aquela cadela vira-lata que quase o esmagava toda vez que pulava sobre ele feito uma doente mental, aquele gato preto que queria porque queria comê-lo. Mas, tudo bem, a rede e a privilegiada vista das longas pernas da nora gostosa da Marta compensavam.

Bem alimentado e cuidado, o Minhocão começou a crescer e a ficar cada vez mais esparramado. Já não tinha mais paciência para fingir que dormia ou que gostava de banho quando o menino inventava de brincar. Tinha vontade de estrangular o cocker e quebrar as patas do gato preto. E não agüentava mais as implicâncias da Marta. É... A Dona Marta não era moleza e tinha detestado o Minhocão desde a primeira vez que o viu dependurado na bunda do netinho. Enquanto todos o paparicavam, ela o obrigava a beber água da bica. No início, ainda fazia se passar por boazinha: tirava-o da rede às seis da manhã e o forçava a fazer 100 apoios e 200 abdominais, porque isso iria deixá-lo muito bem de saúde. A mesma desculpa era dada quando trocava o pratinho de carne, bacon e ovo frito, preparado com tanto carinho pelo netinho, por outro, só com folhas e chuchu, sem azeite ou sal. Ela realmente não ia com as fuças dele. Para o seu gosto, ele era comprido demais, feio demais, marrom demais e ainda por cima ocupava muito espaço. Depois de um ano de convivência, quando o Minhocão estava do tamanho de um peso de porta, Marta fingia que cortava legumes e tentava, ardilosamente, tirar um naco do traseiro do animal. Marta sonhava aniquilar o Minhocão, liquidá-lo, fatiá-lo, desmontá-lo todinho e doar os pedaços a uma rede de fast food, pois lera na internet que os hambúrgueres eram feitos de minhoca.

O Minhocão, por seu turno, não era flor que se cheirasse. Divertia-se fazendo xixi nos escarpins de veludo alemão e escondendo os tubos de tinta loura com que Marta pintava os cabelos. Quando ela vinha lhe acordar, ele sempre dava-lhe um tremendo susto. E quando ela trocava o prato, ele arremessava aquele verde todo na cara dela. Várias vezes, Marta deu com o Minhocão tomando sol, todo besuntado com seu batom vermelho. E era indescritível de tão insuportável encontrá-lo nadando em seu banho de espuma.

Mas como eu vinha dizendo, o Minhocão andava de saco cheio não só da Marta, mas de toda a família. Para ele, a rede e a privilegiada vista das longas pernas da nora gostosa da Marta já não compensavam mais. Doutrinou as formigas para que tomassem a casa e convenceu os fede-fedes a morarem nos armários, no meio dos paletós do marido e do ex-marido da Marta. A última do Minhocão era se enfiar de supetão no cu de quem ousasse lhe dirigir uma palavra, um gesto ou mesmo um esboço de contrariedade. O gato preto se mudou para a vizinha. Os outros três fugiam do Minhocão como político de detector de mentiras. O cocker uivava fininho quando sentia aquele desconforto no reto. A vira-lata girava em torno de si revoltada, rosnando enlouquecidamente quando o maldito lhe penetrava por trás. E, assim, ele foi se intrometendo, repetidas vezes, no cu de Marta, de seu marido, de seu primogênito, de seu caçula, de sua nora, de seu ex-marido e da namorada de seu ex-marido (cujos sofrimentos anais faziam Marta gargalhar em segredo). O netinho parecia ser o único que não se importava. Mas, por pudor, ninguém comentava seu não-estar-nem-aí. Já não era mais possível comer à mesa porque os traseiros de todos estavam muito doloridos. Todas as refeições -café da manhã, almoço, chá da tarde, jantar e lanchinho da madrugada- se davam no chão, com todos deitados de lado em torno da toalha, como numa versão chinfrim de um banquete grego. O Minhocão tinha excedido todos os limites. Estava mais do que na hora de lhe dar um basta.

Foi a nora gostosa de pernas longas que se lembrou da Baleia-Sem-Cu. Só ela poderá nos libertar do Minhocão, disse. Como a Baleia-Sem-Cu morava do outro lado do mundo, onde não existia telefone e luz elétrica, e os carteiros eram mortos no caminho pela Baleia-Sem-Dente, Marta teve de ir atrás de um nhambiquara-sem-o-dedo-mindinho-do-pé-direito para que este pudesse enviar um sinal de fumaça à salvadora. Depois de um mês e de um encalhe na praia de um estado vizinho, a Baleia-Sem-Cu apareceu na casa de Marta. Todos festejaram sua chegada com acepipes variados e músicas compostas pelo primogênito especialmente para o evento. No dia seguinte, levaram-na até o Minhocão. Este, é claro, roncava na rede. A Baleia-Sem-Cu parou ao seu lado, se ergueu sobre o rabo e entoou um lindo canto que falava em arrancar a cabeça dos inimigos, despedaçar seus corpos e lançar as porções numa fogueira de quatro metros e meio de altura. O Minhocão, sono pesado, continuava pregado. A Baleia-Sem-Cu pegou então um bumbo e deu uma única batida fortíssima próximo ao Minhocão. Ele acordou assustado e atordoado e com muito, mas muito, mau humor. Emputecido da vida, se lançou contra a Baleia-Sem-Cu e tentou penetrá-la, mas em vão: aquela baleia não tinha cu (por isso se chamava Baleia-Sem-Cu). O Minhocão tentou entrar na Baleia-Sem-Cu uma, duas, três vezes. Na quarta, ela se jogou em cima dele, estremecendo todo o quarteirão.

O Minhocão sumiu. Acredita-se que, com o impacto, foi parar no centro da Terra. A Baleia-Sem-Cu retornou para o outro lado do mundo, e a família de Marta pôde voltar a se sentar à mesa. Porém, há quem conte (mas essa gente é muito fofoqueira, não dá para acreditar no que dizem) que Marta sai de casa, às escondidas, todas as madrugadas de terça-feira, levando consigo o baldinho e a pazinha que o neto usa quando vão à praia. Na manhã seguinte, não são poucos os buracos que se somam aos já existentes para atrapalhar ainda mais o trânsito daquela cidade. Mas Marta nunca confessará que sente saudades do Minhocão.


Veronica Stigger
É escritora, autora de "O trágico e outras comédias" (contos, ed. 7 Letras).

 
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