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Já há muito não vemos mais a hegemonia de discursos sociais que pregam a repressão ao gozo. Hoje, o verdadeiro discurso que sustenta os vínculos socioculturais da contemporaneidade é, digamos, mais maternal. Trata-se, por exemplo, do “cada um tem direito a sua forma de gozo” (ou ainda “cada um deve encontrar sua forma de gozo”) que podemos encontrar na liberação multicultural da multiplicidade das formas possíveis de sexualidade. Devemos pensar aqui na tese de que a incitação e a administração do gozo transformaram-se na verdadeira mola propulsora da economia pulsional da sociedade de consumo, isto no lugar da repressão ao gozo própria à sociedade da produção.

De fato, a Escola de Frankfurt já oferecia um aparato para pensar tal situação através do conceito de “dessublimação repressiva”, utilizado inicialmente para a compreensão de certas características das sociedades totalitárias. Sabemos como a noção de dessublimação repressiva aparece no edifício frankfurtiano, entre outras coisas, como possibilidade de instrumentalização social direta das monções pulsionais sem recalcamento, fruto de uma época na qual o eu não seria mais capaz de se impor como instância de mediação entre as exigências pulsionais do "isso" e o princípio de realidade. Adorno, por exemplo, chega a falar em “expropriação do inconsciente pelo controle social” que se imporia devido à fraqueza do eu.

Mas, no interior deste debate, devemos lembrar como Marcuse configura corretamente tal expropriação do inconsciente como neutralização social do conflito entre princípio de prazer e princípio de realidade através de uma satisfação administrada, ou seja, “uma liberalização controlada que realça a satisfação obtida com aquilo que a sociedade oferece”, pois, “com a integração da esfera da sexualidade ao campo dos negócios e dos divertimentos, a própria repressão é recalcada”.

No entanto, mesmo esta figura de uma liberalização controlada não parece mais dar conta dos processos disciplinares na sociedade contemporânea. Voltemos à idéia da ética do direito ao gozo. A princípio nada melhor do que uma injunção capaz de impulsionar exigências de gratificação do gozo e que marcaria todos os discursos repressivos com o selo da obsolescência. Ela seria a realização perfeita desta moralidade libidinal necessária à mutiplicidade plástica da sociedade de consumo. No entanto, Lacan insistirá que “tal ordem (Goza!) é impossível de ser satisfeita”, e devemos nos perguntar de onde vem tal impossbilidade estrutural.

Lacan sempre insistiu que esta lei funciona como um significante desprovido de significado. Tal caráter insensato indica, entre outras coisas, que o supereu não tem nenhum conteúdo normativo, ele nada diz sobre como gozar ou qual o objeto adequado ao gozo. Ele diz apenas um “Goza!” sem predicações, um puro “não ceda em seu desejo”. O caráter insensato deste puro gozo fica evidente se pensarmos que toda escolha empírica de objeto é inadequada a um gozo que procura afirmar-se em sua pureza de determinações, em sua independência em relação a toda e qualquer fixação privilegiada de objetos. Ele só pode se realizar no “infinito ruim” do consumo e da destruição incessante dos objetos, que nada mais faz do que atualizar um excedente de gozo. Ou seja, estamos diante de uma lei perfeita para uma sociedade marcada exatamente pela obsolescência programada de mercadorias. Sociedade que deve alimentar o fluxo contínuo de equivalências em campos sociais cada vez mais alargados.

Neste sentido, este supereu lacaniano representa um passo além de idéias como, por exemplo, as que animam a compreensão de Michel Foucault a respeito da mudança nas táticas dos processos disciplinares a partir sobretudo dos anos 60. Mudança retratada em afirmações do tipo: “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação: 'Fique nu... mas seja magro, bonito, bronzeado!'”. Ou seja, apresente sua sexualidade... mas no interior de formas socialmente fornecidas e codificadas pelo mercado.
 
No entanto, o que o conceito lacaniano de supereu nos indica é a desvinculação geral entre imperativo de gozo e conteúdos normativos privilegiados. Volto a insistir, a lei do supereu é vazia, sem determinações privilegiadas. Desta forma, ela pode nos ajudar a compreender porque, na sociedade contemporânea de consumo “magro, bonito e bronzeado” pode facilmente ser trocado, por exemplo, por “doente, anoréxico e mortífero” sem prejuízos para sua capacidade momentânea de mobilização de desejos.

Vale a pena insistirmos mais neste ponto. Como, em última instância, toda determinação se mostrará provisória e inadequada diante de um imperativo superegóico que exige o puro gozo, faz-se necessário que o sistema de mercadorias disponibilize determinações de maneira cada vez mais descartável e de maneira cada vez mais rápida, importando-se cada vez menos com o pretenso conteúdo de tais determinações. Em última instância, isto nos faz passar de uma sociedade da satisfação administrada para uma sociedade da insatisfação administrada, na qual ninguém realmente acredita nas promessas de gozo veiculadas pelo sistema de mercadorias (já que elas são postas para serem descartadas), a começar pelo próprio sistema, que as apresenta de maneira cada vez mais auto-irônica e “crítica”.
 
Auto-ironia que vemos, por exemplo, nas publicidades que ridicularizam o próprio discurso publicitário (Diesel, Calvin Klein). Ou seja, estamos diante de uma sociedade na qual os vínculos com os objetos (incluindo aqui os vínculos com a imagem do corpo próprio) são frágeis, mas que, ao mesmo tempo, é capaz de se alimentar desta fragilidade. Até porque não se trata de disponibilizar exatamente conteúdos determinados de representações sociais através do mercado. Trata-se de disponibilizar a forma vazia da reconfiguração incessante que passa por e anula todo conteúdo determinado. Podemos assim dizer que a transformação da imagem do corpo em mercadoria implica em reconfiguração incessante do corpo.

O segredo desta sociedade na qual os vínculos com os objetos são frágeis, mas que é capaz de alimentar-se desta fragilidade mesma, está naquilo que podemos chamar de “ironização absoluta dos modos de vida”. Em uma sociedade da insatisfação administrada, os sujeitos não são mais chamados a se identificarem com tipos ideais construídos a partir de identidades fixas e determinadas, o que exigiria engajamentos e uma certa ética da convicção.
 
Na verdade, eles são cada vez mais chamados a sustentarem identificações irônicas, ou seja, identificações nas quais, a todo momento, o sujeito afirma sua distância em relação àquilo que ele está representando ou, ainda, em relação a suas próprias ações. Pois uma exigência irrestrita de gozo que procura realizar-se através da anulação de toda determinidade “restritiva” encontra sua forma perfeita na ironia absoluta que reenvia todo vínculo com a determinidade ao campo do inefetivo. Assim, esta ironização absoluta dos modos de vida nada mais é do que a posição subjetiva que internalizou a desvinculação geral entre imperativo de gozo e conteúdos normativos privilegiados própria a esta nova figura social do supereu. Notemos ainda que tal lógica da ironização pode realizar-se, por exemplo, como a “flexibilidade” de uma subjetividade plástica que compreende identidades sociais como aparências postas como aparência e que, como isto, pode afirmar-se enquanto puro jogo de máscaras.

Tal configuração sociocultural talvez nos ajude a compreender porque os grandes sintomas da contemporaneidade não são mais o sentimento obsessivo de culpa ou a “conversão” histérica, que pressupunham, cada um à sua maneira, a crença em desejos recalcados em sua própria enunciação por instâncias repressoras. Desejos que habitariam a outra cena de um corpo erógeno que nunca pode tomar diretamente a palavra e que seriam liberados através de procedimentos hermenêuticos de interpretação de resistências.
 
Se alguns dos sintomas mais correntes na atualidades são a ansiedade e a depressão, eles talvez nos indiquem resultados da pressão deste supereu vinculado ao puro imperativo de gozo. Pois tanto a ansiedade quanto a depressão pressupõem a consciência tácita da incapacidade em sustentar escolhas de objeto. Enquanto a ansiedade é exigência do desejo em atravessar de maneira cada vez mais rápida escolhas de objeto, a depressão é exatamente a impossibilidade de vincular-se a uma relação de objeto.
 
Os dois casos podem ser vistos como sintomas diretamente resultantes da introjeção de um supereu que ordena uma injunção de gozo tão forte e incondicional que toda tentativa de realização efetiva será necessariamente um fracasso. E os dois casos podem gerar quadros sintomáticos marcados pela inadequação da imagem do corpo próprio. Pensemos, por exemplo, na bulimia nervosa, com sua “perda de controle” ansiosa, e na anorexia nervosa, com seus sintomas depressivos (humor deprimido, retraimento social, irritabilidade, insônia e interesse diminuido por sexo). Desta forma, se o sentimento de culpa aparecia como resultado direto do supereu repressivo que impedia o gozo, depressão e ansiedade podem aparecer como o resultado desta nova configuração do supereu que exige o gozo incondicional.

No entanto, devemos acrescentar aqui um outro sintoma dos processos contemporâneos de socialização baseados em um supereu que incita ao gozo. Ao lado da ansiedade e da depressão, devemos pensar principalmente no cinismo como sintoma de “um mundo sem culpa”, como diria Paulo Arantes. Pois “cinismo” é o nome correto desta posição subjetiva que é capaz de sustentar identificações socialmente disponibilizadas ao mesmo tempo em que ironiza, de forma absoluta, toda e qualquer determinidade (por reconhecer o caráter descartável de tais determinidades). Ela nega reflexivamente aquilo ao qual ela se vincula, criando assim um universo social “carnavalesco” de aparências reflexivas, ou seja, aparências postas como aparências.
 
Esta contradição posta que consegue, ao mesmo tempo, ordenar-se como contradição resolvida não é outra coisa do que uma definição perfeitamente adequada da lógica do cinismo. Mas, mais importante do que isto, vemos como o cinismo pode ser compreendido como a posição subjetiva possível para um sujeito que internalizou a Lei sob a figura de um supereu que exige que as condutas sejam pautadas a partir da lógica do gozo puro. Ou, ainda, como o cinismo talvez seja a última resposta da pós-modernidade.


O texto acima foi adaptado de palestra proferida pelo autor no encontro "Trópico na Pinacoteca" de 28 de agosto de 2004 sobre o tema "Pós-modernidade ou hipermodernidade?"


Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e encarregado de cursos no Colégio Internacional de Filosofia – Paris.

1 - Adorno, Theodor, "Freudian theory and the patterns of fascist propaganda", in "Soziologische Schriften I", Frankfurt, Suhrkamp, 1990, p. 431.


2 - Marcurse, Herbert, "Cultura e sociedade II", São Paulo, Paz e Terra, 1996, p. 106.


3 - Lacan, idem.


4 - Foucault, Michel, "Microfísica do poder", Rio de Janeiro, Graal, 1996, p. 147.


5 - Ver Arantes, Paulo, "A fratura brasileira do mundo" in "Zero à esquerda", São Paulo, Conrad, p. 20.

 
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