com Nelson Brissac Peixoto e Vladimir Safatle"> Trópico - Pós-modernidade ou hipermodernidade?
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Nas respostas, Brissac relacionou o pensamento de Maurice Merleau-Ponty ao Minimalismo –não só pelos trabalhos de Richard Serra ou Donald Judd, mas também pelos escritos de Rosalind Krauss– e Safatle falou da influência de Jacques Lacan sobre o crítico de arte Hal Foster, coordenador, junto com Krauss, da revista “October”. Para Brissac, a ligação entre os pensamentos francês e norte-americano era uma “reunião do que havia de melhor no mundo”. Para Safatle, tratava-se de uma procura dos norte-americanos, então atrelados a uma filosofia analítica, por uma filosofia de imanência, encontrada tanto em Gilles Deleuze, quanto em Michel Foucault e Lyotard.

O crítico de arte Afonso Luz aferrou-se à fala de Brissac, em especial ao trecho sobre as mudanças cognitivas do homem contemporâneo. Classificou o discurso do professor da PUC-SP como “crítico, descritivo e apologético” a um só tempo e contestou a idéia de “complexidade” fora de controle da cidade contemporânea. “A administração de São Paulo pelo mercado é muito forte. Não é só dispersão, possibilidade de descentralização libertária. Tem um lado aí que já é muito administrado. (...) Outra questão é quanto à ausência de uma percepção. O fato de haver uma nanotecnologia e uma escala de industrialização global não suprime a percepção na sua forma moderna.”

Brissac respondeu: “O indivíduo contemporâneo é mais rico na medida em que ele compreende as suas limitações perceptivas; mais do que quando ele era iludido por seu poder totalizante e organizatório do mundo. Compreender as limitações amplia o espectro possível de questões a serem colocadas e de instrumentais a serem criados. Há um momento muito instigante de renovação do nosso aparato cognitivo em curso, que não necessariamente depende dos procedimentos que eram dominantes até então”.

Sobre a capacidade de administração de uma cidade ou um país pelo capital, Brissac disse o seguinte: “O potencial de organização dos diferentes setores sociais é uma das coisas mais interessantes que ocorrem hoje, e esta organização não necessariamente é submetida à administração dos grandes poderes. O próprio Koolhaas vai falar da capacidade das cidades do Terceiro Mundo de se organizarem econômica e socialmente, sem ter a estrutura e a infra-estrutura que uma sociedade fortemente organizada pelo Estado e pelas grandes corporações tem. A política é mais complicada, hoje; é muito baseada na porosidade, em contaminações, negociações”.

A possibilidade de regulação e controle no interior do sistema de mercado ganhou outra interpretação, em resposta de Safatle: “Seria interessante pensar esta regulação da sociedade a partir de toda a dinâmica dos processos de flexibilização de identificações. Porque estes processos reivindicam que não há imagens estáticas a serem disponibilizadas. Disponibiliza-se muito mais a forma vazia de reconfigurações contínuas. Não há mais imagens ideais com as quais você deve se identificar. Os padrões estabelecidos de escolha são dados pelo investimento em formas de vida cada vez mais vazias, para que tenham alguma perenidade. (...) Não queremos mais a segurança de saber que imagem devemos escolher, mas queremos a segurança de saber que o campo vai sempre possibilitar escolhas".


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José Augusto Ribeiro
É jornalista, membro do conselho de editorial da revista "Número".

 
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