CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Por isso, seria preciso ter algo que fosse quase impalpável, como uma lembrança. Assim eu fiz com que o outro personagem falasse muito baixo, porque trata-se disso: da fala como um líquido que infiltra, como uma injeção. É também uma troca que se faz no inconsciente, daí aquela fronteira de matéria transparente (a tela) que permite trabalhar a luz, criando uma situação que deixa dúvidas se esse personagem existe ou não. Mesmo na representação ele pode não existir, se quisermos. Ele existiu na vida de Sarah Kane, mas em boa parte como um delírio a partir dessa destruição que ela sentia vir da psiquiatria, incluindo aí todos os tratamentos antidepressivos que aplicavam nela, os quais acentuam a tendência suicidária, como nós sabemos.


O figurino é igualmente despojado, uma calça de couro e uma camiseta. A indefinição sexual contou na escolha das roupas?

Régy: Pensou-se de imediato na androginia, sim, mas já faz tempo que eu renunciei ao vestuário, como também ao personagem e ao cenário. Em geral meus atores interpretam sempre com jeans e camiseta. No caso de Huppert, trata-se de uma calça muito comum, que não é nem mesmo de couro. O azul da camiseta agradou muito a ela, que não quis mais ouvir falar em outra cor. Quanto à visão de seu umbigo, foi algo que ocorreu a ela, mas sem nenhuma pesquisa especial nesse sentido.

Hesitamos se ela deveria raspar a cabeça ou não. Finalmente, não o fizemos, para não dar nenhuma impressão particular. Ela manteve seus cabelos, e observamos com a luz que era melhor se seu rosto ficasse descoberto. Isso a levou a colocar o cabelo para trás, com uma espécie de rabo de cavalo. Mas é algo que praticamente não se vê, exceto na única vez em que ela fica de perfil. Quisemos fazer tudo do modo mais simples possível.


O sr. introduziu na França um bom número de autores estrangeiros, sobretudo do teatro anglo-saxão. O que o atrai neste teatro?

Régy: O que posso dizer, de imediato e com grande prazer, é que minha atração por esses autores se deve ao fato de que não são franceses. Eu trabalhei com alguns autores dito franceses, como Duras e Nathalie Sarraulte, mas esta era de origem russa, e aquela sempre se sentiu como uma vietnamita. Em todo caso, não são autores racionais. Eu não amo a França, embora seja francês. Quando eu vejo como os franceses votam, os seus objetivos na vida, a cozinha francesa, as galanterias francesas… tudo isso me irrita. As gracinhas e o riso franceses me fazem chorar. Não tenho explicação para isso.

O que posso dizer é que as pessoas que escrevem têm uma pátria comum, pois o ato de escrever cria problemas e necessidades iguais para elas, sejam brasileiras, inglesas ou francesas. Claro que há colorações diferentes, mas o que me interessa não é que sejam anglo-saxões. Quando montei anglo-saxões foi porque eram pessoas que tinham digerido o teatro do absurdo, Beckett, Brecht e o teatro político e que estavam tentando encontrar outras formas. Eram pessoas que, como Pinter, trabalhavam muito sobre a escrita, quer dizer, sobre a linguagem. E justamente no que a linguagem significava sem dizê-lo, e algumas vezes significava até o contrário do que ela parecia dizer.

O que me interessa é um equilíbrio entre a matéria viva, que é liberada pelo texto, e a matéria mesma da escrita. É nessa zona que eu trabalho. Quando há muitas palavras, pacotes inteiros de texto, como no teatro francês, isso não me interessa, além de não deixar lugar para o meu trabalho. Eu consigo fazer meu trabalho a partir de uma espécie de código morse, quer dizer, de uma música de sílabas, onde todo o interesse está no que não foi dito. No teatro, não se dever dizer muito.


Publicado em 18/9/2004

Esta entrevista foi originalmente publicada na "Ilustrada", da "Folha de S. Paulo", numa versão reduzida

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Alcino Leite Neto
É jornalista, editor de "Trópico" e editor de Moda da "Folha de S. Paulo", jornal onde já exerceu as funções de correspondente em Paris, editor do "Mais!", da "Ilustrada" e de "Especiais".

 
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