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CINEMA

O mundo prismático de Lucas Belvaux
Por Pedro Maciel Guimarães

Uma entrevista com o diretor e ator belga, que lançou três filmes inter-relacionados simultaneamente

Para o seu terceiro projeto de longa-metragem, o diretor e ator belga Lucas Belvaux decidiu realizar logo três filmes de uma só vez. A “Trilogia”, como ficou conhecida na Europa –formada por “Un Couple Epatant” (no Brasil: Um Casal Admirável), “Cavale” (Em Fuga) e “Après la Vie” (Acordo Quebrado)- foi eleita pela Associação de Críticos da França como o melhor filme de 2003 e ganhou também o prêmio Louis Delluc.

A “Trilogia” é um engenhoso trabalho de roteiro e de direção que se articula em torno de três casais, cada um protagonista de um filme. Nos episódios seguintes, o casal protagonista do filme anterior vira coadjuvante de uma outra história. Assim, o espectador pode matar sua curiosidade sobre saber o que tal personagem estava fazendo enquanto aparecia no fundinho da cena.

 Como num jogo de quebra-cabeças narrativo, Belvaux se serve de procedimentos próprios ao cinema para estabelecer novas noções de profundidade de campo, do fora-de-campo, da articulação entre personagens e gêneros cinematográficos. Sim, porque a “Trilogia” não são apenas três histórias diferentes que formam um único complexo narrativo.

 Cada um dos filmes tem seu gênero próprio (uma comédia romântica, um policial e um melodrama), o que levou Belvaux a se debruçar ainda mais no seu trabalho de direção de cena e de atores. Isso, sem deixar de lado a construção complexa de cada uma de suas personagens, sejam elas um casal em crise de fidelidade (Ornella Mutti e François Morel no primeiro filme, “Um casal incrível”) um revolucionário fugitivo e sua ex-esposa e ex-militante (Catherine Frot e o próprio Lucas Belvaux no segundo, “Evasão”) ou uma dependente de drogas e seu marido policial/traficante (Dominique Blanc e Gilbert Melki, no terceiro, “Depois da vida”).

Na entrevista a seguir, Belvaux fala a Trópico sobre a “Trilogia”. “Acho que hoje a maioria dos cineastas não encara os personagens como seres humanos, e sim como simples personagens de filmes que eles manipulam como bem entender”, diz o diretor. 

A trilogia se apóia numa idéia de roteiro bastante simples, mas que funciona perfeitamente bem no resultado final do filme. Na sua opinião, as melhores idéias de roteiro são também as mais simples ?

Lucas Belvaux: Provavelmente. No entanto, nem todas as idéias evidentes funcionam necessariamente bem, como também nem todas as idéias simples são boas. No caso da “Trilogia”, o desafio era manter uma idéia simples, que abrisse um grande número de portas, mas que fosse tratada de uma maneira simples também. Não é preciso procurar muito, pois as coisas mais simples da vida estão diante de nossos olhos. E, de toda maneira, uma idéia não se procura, ela se impõe por si própria. Na “Trilogia”, ela me veio ao rodar meu primeiro filme, “Parfois trop d’amour” (Às vezes, amor demais”), que é um “road movie” onde três personagens principais cruzam o caminho de diversos outros personagens. Então pensei que poderia contar a história do grupo de velhos ou do ciclista que as personagens desse filme encontram. Não o fiz, mas guardei essa idéia e daí nasceu a “Trilogia”.

Você interpretou papéis secundários em filmes de autores renomados, como Marcel Camus, Claude Chabrol, Olivier Assayas e Andrzej Zulawski. Essas experiências tiveram alguma influência na elaboração da “Trilogia”? Você pensou através dela valorizar os papéis secundários?

Belvaux: Não necessariamente. O que me interessava era tentar compreender o que poderia haver de relevante nesses papéis secundários. E, contrariamente ao que se pode pensar, os papéis coadjuvantes são mais difíceis que os papéis principais. Nós dispomos de menos tempo para fazer existir o personagem e somos sempre tentados a caracterizá-lo de uma maneira muito forte, apesar do pouco tempo que eles têm num filme. E isso pode ser uma armadilha para o ator. Se um papel secundário tem interesse, esse interesse aparecerá necessariamente sem ser preciso acrescentar muitos elementos exteriores a ele.

Com relação ao trabalho com os diretores que você citou, cada um teve sua importância. Quando filmei com Marcel Camus, foram poucos anos antes de sua morte, em 1982 (um filme para a televisão, "L'Agent Secret", de 1981). Ele já estava velho, doente e não mais na posse completa dos seus meios intelectuais. Com Chabrol foi diferente. Posso dizer que tenho uma versão mais "chabroliana" da direção de atores e da mise en scène. Aprendi com ele que o diretor dirige pouco os atores, mas, por outro lado, tem que dirigi-los bem com relação à câmera e aos demais integrantes do elenco.

Em seu filme anterior, “Pour Rire” (Para rir), pelo menos duas outras personagens secundárias poderiam se tornar principais: a mulher traída pelo marido, interpretada por Tonie Marshall, e o réu acusado de um crime passional. Você não ficou tentado em contar a história também dessas personagens?

Belvaux: Essa vontade transparece no filme, mas ela não é completada. Quando escrevi “Pour Rire”, já tinha a idéia de fazer a “Trilogia”. Eu tratava, e trato, todas as minhas personagens como personagens potenciais, todos podem vir a se tornar principais. Desde meu primeiro filme foi assim. Muita gente perguntou se a escolha de Tonie Marshall (que também é diretora e realizou filmes como “A Beleza de Vênus”) teve alguma segunda intenção, mas não. Apesar de ser uma mulher com uma criação cinematográfica admirável, eu a escolhi mesmo porque ela correspondia à personagem.


  A fidelidade é um tema recorrente nos seus filmes: fidelidade amorosa em “Pour Rire”, “Un Couple Epatant” e “Après la Vie”, e fidelidade às idéias, em “Cavale”. Esse tema tem significação especial para você?

Belvaux: Não especialmente. Em “Pour Rire” o tema se impôs com a evolução do projeto. Na história de um triângulo amoroso, a questão da fidelidade é natural. Trata-se de um tema clássico da dramaturgia mundial. Llogo que se fala em relação amorosa, fala-se em fidelidade. Mas o mais interessante é a forma como trato a fidelidade nos meus filmes. Em “Un Couple Epatant”, ela é uma simples obsessão da personagem de Ornella Mutti, enquanto que em “Pour Rire”, a personagem que ela interpreta realmente trai seu marido, e em “Après la Vie” a fidelidade é uma espécie de fusão completa, que salva o casal vivido por Gilbert Melki e Dominique Blanc. Já em “Cavale”, a fidelidade é um elemento externo ao casal Catherine Frot e a personagem vivida por mim e nem chega a ser discutida pelos dois.


A “Trilogia” é formada por filmes de três gêneros: uma comédia romântica, um policial e um melodrama. Como concebeu essa mudança de gêneros?

Belvaux: A idéia de mudança de gêneros vem desde o princípio, do contrário não haveria sentido em fazer três filmes diferentes. A questão do gêneros justificava a “Trilogia”, senão eu poderia ter feito um filme em coro, com várias personagens e diversas intrigas paralelas, e essa não era minha vontade, pois filmes assim existem aos montes.


Qual é a sua relação com o cinema clássico, de gêneros?

Belvaux: Eu me inspiro e respeito muito o cinema clássico de gêneros, ou seja, o cinema de até antes dos anos 80. Nessa época, acontece o fim do classicismo no cinema, com diretores como Jean Eustache. É também o fim dos pioneiros do cinema. Tudo que tinha para ser inventado, já havia sido. Depois, entra-se na época do audiovisual. Hoje em dia, existe cada vez menos cinema e cada vez mais de audiovisual nos filmes. Quer dizer, nos últimos 20 anos, existe menos humanidade no cinema, o ser humano em toda sua complexidade, em sua riqueza. Isso não é um fenômeno mundial, mas é bem presente.

O cinema comercial está deixando de ser humanista como ele era antes, até lá pelos anos 60 ou 70. Até essa época, o cinema era imbuído de humanismo. Mesmo na época dos grandes estúdios americanos, onde se poderia até discutir a idéia de moral de alguns filmes, o ser humano contudo se mantinha como o centro de todos os questionamentos. Acho que hoje a maioria dos cineastas não encara os personagens como seres humanos, e sim como simples personagens de filmes que eles manipulam como bem entender. Eu trato meus personagens como seres humanos e quero que eles contem algo de humano a espectadores também humanos. Hoje, cria-se muito mais personagens que não passam de personagens, dirigidos para espectadores que são apenas consumidores.


Os três filmes giram em torno das três atrizes principais. Você escolheu as atrizes de acordo com os gêneros dos filmes? Eles poderiam ter sido feitos se trocássemos as atrizes de papel ?

Belvaux: De maneira nenhuma. Imaginei as três atrizes nos papéis que elas desempenham nos filmes. Nenhuma mudança seria possível. Já havia trabalhado com Ornella Mutti em “Pour Rire”. Catherine Frot (de “Le Dîner de Cons”, “Un Air de Famille”) e Dominique Blanc (de “A Rainha Margot”), eu não as conhecia pessoalmente, mas também as imaginei vivendo as heroinas do filme policial e do melodrama, respectivamente. Ornella, por ser uma mulher linda, cabia melhor com a comédia romântica. As figuras femininas são bastante importantes no filme, mas não mais que os homens. Portanto, as três histórias só se ligam por meio delas e, por isso, elas acabam tendo mais destaque.


Alguns críticos disseram que “Un Couple Epatant” era o filme mais fraco da “Trilogia” e é bem verdade que ele é o filme de menos impacto dos três, talvez por estar ligado ao gênero da comédia romântica. Você não imaginou que começando a trilogia por um filme menos forte que os outros desestimularia o público a assistir aos outros ?

Belvaux: Não acho que “Un Couple Epatant” seja inferior aos demais. Trata-se de uma maneira leve de se travar contato com os personagens. Se eu matasse todas os personagens logo no primeiro filme, aí sim seria difícil o público voltar. Tudo depende de uma progressão dramática, a partir de elementos simpáticos de cada personagem. Aos poucos as histórias vão ficando mais sombrias. No final do primeiro filme, não se sabe exatamente qual será o fim dos personagens, todas as portas estão abertas, enquanto que no final de “Cavale” e “Après la Vie”, muitas respostas já foram respondidas.

Essa ordem sempre me pareceu evidente. No entanto, eu só proponha uma ordem ao espectador. É ele quem vai escolher de que maneira assistir aos filmes. E, ironicamente, “Un Couple Epatant” foi o filme que mais teve público, o mesmo que o dos outros dois somados. Pode ser devido ao fato de que as comédias sempre têm mais público ou então por causa do que você disse, que as pessoas talvez não tenham gostado tanto do primeiro e não voltaram para ver os outros (risos). Mas nunca saberemos.


O cinema francês não tem muito o hábito de realizar trilogias. E, mesmo nos Estados Unidos, onde as trilogias são mais comuns, o seu projeto ainda seria muito ousado. Foi difícil conseguir financiamento para o filme ?

Belvaux: Sim, foi bastante. Eu e meus produtores não tínhamos como referência nenhum outro filme para servir de exemplo. Foi preciso partir do zero e fazer um trabalho quase pedagógico de convencimento dos investidores. Explicar que era uma trilogia não era suficiente, foi preciso entrar nos detalhes do roteiro e da trama ao falarmos com pessoas que não estavam necessariamente familiarizadas com esse tipo de narração.


A trilogia deve seu mérito em grande parte ao trabalho de montagem. O fato de haver trabalhado com três montadores diferentes influenciou no resultado final?

Belvaux: Primeiro, foi uma razão prática, pois um só montador gastaria três vezes mais de tempo para montar o filme. Enquanto que, com três montadores, a montagem era feita ao mesmo tempo, como se deu com a filmagem. Num mesmo local, os três filmes eram montados ao mesmo tempo, eu ficava indo de uma sala para outra. Meus três montadores só viram o trabalho dos outros dois depois de o filme estar terminado. Isso guardou um pouco a "virgindade" e a independência de cada filme. A cena do chalé, por exemplo, que está nos três filmes, tivemos que filmá-la três vezes e temos uma versão diferente de montagem para cada um. Era importante para o contexto do filme, pois essa era uma cena chave.


Você pretendia montar o filme em ordem cronológica para passar na televisão. Não acha que assim o filme perderia sua originalidade?

 
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