CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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estante

Arthur Nestrovski

Era o compositor Felix Mendelssohn quem dizia que a música é “precisa demais para ser posta em palavras”. Todo mundo que escreve sobre música sabe o quanto é verdadeira essa frase. Felizmente, redentoramente, existem as exceções –como alguns ficcionistas e poetas, capazes de pegar a arte da música pela alça da língua. A lista abaixo é mínima (na quantidade e tamanho dos textos), mas também é máxima (em literatura):


1. Sorôco, Sua Mãe, Sua Filha, de Guimarães Rosa

Este conto brevíssimo -só quatro páginas- está em Primeiras Estórias (1962). O cenário é improvável, para nosso contexto musical: um homem que acompanha a mãe e a filha até a estação da cidadezinha pobre onde moram, para que peguem o trem e vão para um hospício. Mas este deve ser um dos mais lindos textos já escritos sobre música, em qualquer época e qualquer língua.


2. O Recado do Morro, de Guimarães Rosa

Faz parte de No Urubuquaquá, no Pinhém, que por sua vez pertence a Corpo de Baile (2 vols., publicados em 1956, mesmo ano de Grande Sertão: Veredas). Um estrangeiro, alter ego do autor, viaja pelos sertões de Minas. Recolhe impressões de gentes e lugares –a história ostensiva do conto, que se concentra num caso de amizade e traição. A outra história, que se vai formando aos poucos, narra a construção progressiva de uma canção popular.


3. Um Homem Célebre, de Machado de Assis

Escrito em 1888, foi incluído depois em Várias Histórias (1895). As frustrações e glórias do compositor Pestana descrevem/anunciam/rememoram um destino que vai muito além da história desse autor de polcas de sucesso, que passa a vida querendo escrever música erudita. As ironias de Machado de Assis cortam o tema, tão brasileiro, de todos os lados.


4. Cantiga de Esponsais, de Machado de Assis

Em Histórias sem Data (cuja data é 1884). Últimos dias do grande músico Romão Pires –que também tenta, inutilmente, ser grande compositor. O vínculo entre as barreiras da criação e as amarras afetivas dá um caráter henry-jamesiano a este retrato triste da esterilidade.


5. Josefina, a Cantora, ou O Povo dos Camundongos, de Franz Kafka

Último conto dos quatro reunidos em Um Artista da Fome (1924). A felicidade “que talvez emane da música” –em especial quando ao redor é tudo infelicidade– encontra na camundonga cantora sua impossível e inigualável musa. Temos hoje, em português, uma excelente tradução, feita pelo escritor Modesto Carone.


6. Morte em Veneza, de Thomas Mann

A rigor, a novela (de 1911) não tem nada a ver com música. Mas a associação entre o filme de Visconti (1971) e o texto de Mann é tão forte agora que ninguém deixa de ler no escritor Aschenbach do original uma versão do compositor Aschenbach do filme, por sua vez inspirado na vida e na música de Gustav Mahler (que morreu no mesmo ano em que foi publicada a novela). Mann escreveu também o grande romance musical do século: Doktor Faustus (inspirado no sucessor de Mahler, Arnold Schoenberg).


7. Os Estágios Eróticos Imediatos, ou O Erótico Musical, de Soren Kierkegaard

Segunda parte de Isto ou Aquilo – Um Fragmento de Vida (1843), obra-prima do filósofo dinamarquês. Partindo de um comentário à ópera Don Giovanni de Mozart, o texto ensina o que é “a originalidade erótico-sensual da música” e, ao mesmo tempo, o quanto “o que é realmente para ser ouvido está constantemente se libertando do sensual”. Rivaliza com Nietzsche como maior comentador musical do século 19.


8. Music’s Empire, de Andrew Marvell

Escrito por volta de 1650, este pequeno poema serve de representante da tradição clássica de laudes musicae (elogios à música), preservada e transmitida pela poesia européia ao longo dos séculos. Não é difícil de encontrar: está em quase todas as antologias de Marvell, poeta dos poetas na língua das línguas do século dos séculos (que começa com Shakespeare e termina com Milton, e tem, na música, J. S. Bach).


9. Livro de Letras, de Vinicius de Moraes

Nem Drummond, nem Cabral, nem Bandeira: o grande poeta da música, no Brasil, foi Vinicius de Moraes (1913-80). Reunidas nesse volume estão, para começo de conversa, suas parcerias com Tom Jobim e Baden Powell. Só essas já seriam o bastante para conferir ao repertório da canção popular a mesma dignidade concedida universalmente à literatura, à arquitetura e ao cinema brasileiro daquele momento (fim dos anos 50-meados dos 60). E a música agora está nas letras, tanto quanto a letra está nas músicas.


10. O Banquete, de Mario de Andrade

Deixado inacabado pelo autor (que morreu em 1945), esse romance satírico combina o retrato dos modos artísticos da época com reflexões sobre a música no Brasil. A “salada mais traiçoeira do mundo”, servida ao compositor Janjão, era “um prato inteiramente novo”, uma “espécie ingênua de semvergonhice”. Era isso o que se oferecia naquele banquete, numa tarde de domingo, na mansão da milionária Sarah Light, em Mentira, a “simpática cidadinha da Alta Paulista”. Qualquer semelhança etc.

Arthur Nestrovski
É professor titular de literatura na PUC/SP e articulista da "Folha de S.Paulo", onde escreve sobre literatura e música desde 1992. É autor de "Notas Musicais – Do Barroco ao Jazz" (PubliFolha, 2000) e organizador de "Música Popular Brasileira Hoje" (PubliFolha, 2002), entre outros livros.

 
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