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Eliane Robert Moraes 1. Sobre o Teatro de Marionetes, de Heinrich von Kleist (Über das Marionettentheater) Ao observar o espetáculo de quatro marionetes que dançam em plena harmonia, um bailarino contrapõe a perfeição dos movimentos dos bonecos às inevitáveis falhas dos gestos humanos. A partir daí, ele desenvolve uma notável argumentação que diz respeito não só aos mistérios da criação divina, mas também aos de seu principal correlato: a criação artística. Ao estabelecer um ponto de contato entre a mecânica dos corpos e a espiritualidade da alma, o conto de Kleist se impõe pelo incomparável lirismo de sua concepção.
Um livro que zomba da inteligência com a mais refinada inteligência. Escrito na forma de diário –que, embora fictício, é atribuído a um biógrafo de Kant– o texto do escritor inglês narra, com particular ironia, a decadência física e mental do grande filósofo alemão. Falhas de memória, ilusões de ótica e outros deslizes que denunciam um declínio geral das faculdades mentais do mestre, acrescentam-se a problemas estomacais, perda da visão e indícios de decrepitude física que contrastam com a austera imagem do autor da Filosofia Transcendental.
O livro reúne uma série de fragmentos escritos com o intuito de analisar in vivo as figuras essenciais do sentimento amoroso: mas o plano sistemático que o autor promete ao leitor é, pouco a pouco, substituído por um diário íntimo que aborda a paixão como “uma bela e inevitável catástrofe”. Considerado “uma espécie de loucura raríssima na França”, o amor sobre o qual Stendhal discorre tem sempre como protagonista um sujeito sensível e solitário. Por isso, ele afirma que escreve para poucos leitores: “para aquelas pessoas infelizes, amáveis, encantadoras, nem um pouco hipócritas, nem um pouco morais às quais eu gostaria de agradar”.
Desde sua publicação, em 1782, o romance epistolar de Laclos vem intrigando leitores e críticos. Se o livro escandalizou seus contemporâneos, mais tarde encantou escritores como Stendhal, que via nele uma “ciência do coração”, e Baudelaire, que realçou seu “satanismo”, associando-o à obra de Sade. Obra-prima da literatura e obra-mestra da ambiguidade, o texto traduz uma convicção no poder performativo da palavra, revelando uma concepção produtiva da língua: entre os libertinos, o verbo constitui a ação. Nas mãos da Marquesa de Merteuil e do Visconte de Valmont, a carta é um instrumento de sedução, que busca trair –e não traduzir– a verdade.
Publicado originalmente em 1958, o "Gattopardo" situa-se entre o romance histórico e o psicológico. Um forte tom memorialístico percorre todo o livro, a evocar vestígios de uma tradição desaparecida, mas conservada como recordações de família. É nesse sentido que as biografias do personagem e do autor se cruzam, uma ecoando na outra, na condição de fantasmas. Nesse jogo de ressonâncias o que prevalece é uma intensa elaboração da memória para dar conta do que foi perdido: o romance pode ser lido, desde a primeira página, como o registro ímpar de um trabalho de luto que se estende do individual ao coletivo.
Durante 17 anos seguidos, Brodsky empreendeu longas viagens dos Estados Unidos para a Itália, com destino à Veneza. Nessas férias de inverno, vagando entre as “silhuetas sombrias de cúpulas de igrejas e telhados”, o poeta acompanhava o movimento dos barcos “como a passagem de uma idéia coerente pelo subconsciente”. Daí o tom digressivo desse livro único, que registra suas andanças errantes pela cidade, em meio a nevoeiros, deixando o pensamento à deriva para interrogar a passagem do tempo e a permanência do belo.
Na tentativa de resgatar escritos perdidos de um grande poeta, o narrador do livro empreende uma grande viagem e uma longa investigação. Mas sua iniciativa fracassa, o que abre espaço para uma indagação sobre as motivações subterrâneas do personagem. Nada pode ser afirmado de forma categórica quando se narra um fracasso: resta ao escritor vasculhar os vazios, deixar-se levar por conjeturas, ensaiar hipóteses, enfim, restituir ao “cogito” sua dúvida primordial. Poucos autores souberam explorar tão bem esse recurso literário quanto Henry James, que muitas vezes o levou à perfeição, como acontece em "Os papéis de Aspern".
Se o Don Quixote de Cervantes marca o nascimento do romance moderno, é porque seu personagem encarna o perfeito anti-herói, cujas expectativas são quase sempre fracassadas. Assim acontece também com o protagonista do notável livro de Svevo, para quem nada dá certo, a começar pelo obstinado desejo de parar de fumar. Ao narrar suas desventuras, motivado por um tratamento psicanalítico, o personagem cria uma “ficção do eu” que atualiza, como nenhum outro, as convenções do gênero para o século 20. Zeno é, antes de mais nada, um Don Quixote no divã.
Há, nessa autobiografia de Nabokov, a busca de uma poética do exílio, que se expressa por meio de uma consciência do tempo, fixada no encanto da fulguração: “Tudo está parado, sob a ação feiticeira da lua, este espelho retrovisor da fantasia. A neve, porém, é real, e, assim que me abaixo para colher um punhado com a mão, 60 anos se desfazem em cintilante pó de gelo entre meus dedos”. Essa poética enuncia um convite à reflexão, cujo moto perpetuo é a condição precária do homem no mundo: a vida é um “interregno”, diz ele, “mera passagem”. Em sentido ontológico, todo homem é um exilado.
Primeiro romance de Sade, escrito em 1785 quando o autor estava preso na Bastilha, o livro se apresenta como “a narrativa mais impura já escrita desde que o mundo existe”. Trata-se da história de quatro libertinos que se associam para levar a termo o projeto de conhecer, representar e praticar “todas as paixões sexuais que existem na face da Terra”. O marquês convida-nos assim a imaginar, a exemplo de seus devassos, um mundo completamente organizado segundo nossos desejos; um teatro, a encenar exclusivamente nossas fantasias; um banquete, que contempla a singularidade de nosso paladar. Cabe a cada leitor, no silêncio da leitura, aceitar seu convite. . Eliane Robert Moraes
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