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Manuel da Costa Pinto 1. O Homem Insuficiente - Comentários de Antropologia Pascaliana, de Luiz Felipe Pondé (Edusp). Pode ser considerado um marco na reflexão filosófica brasileira, abrindo uma linha de investigação sobre um autor pouco estudado entre nós -o pensador francês Blaise Pascal (1623-1662). Dialogando com o que há de mais recente na bibliografia pascaliana (Jean Mesnard, Philippe Sellier, Jean-Luc Marrion, Henri Martineau), Pondé mostra como a rígida fronteira que Pascal traça entre o saber científico-filosófico e o pensamento religioso-metafísico -a partir de sua espiritualidade agostiniana e do repúdio jansenista da vida política e social- adquire uma atualidade inquietante, permitindo formular uma antropologia que expõe o dogmatismo contido na auto-suficiência do humanismo e a inconsistência epistemológica da ciência (cuja incapacidade de se unificar num sistema único é um índice da “miséria” da condição humana).
Steiner é um crítico literário e ensaísta cuja ofuscante erudição está a serviço do que poderíamos chamar de “o drama da leitura”, ou seja, a lenta constituição de um corpus textual que constitui o tesouro da cultura ocidental e que está em risco permanente diante das ondas sucessivas de totalitarismo político e fúria tecnológica. Por isso, os ensaios de Steiner têm algo de épico -um grande romance do intelecto escrito por um judeu laico, para quem a letra é a primeira morada do ser e sua promessa de redenção espiritual; e, por isso, as “personagens” abordadas em Nenhuma Paixão Desperdiçada (que podem ser tanto Kierkegaard ou Kafka quanto os tradutores da Bíblia hebraica ou os trágicos antigos e modernos) surgem como heróis da cultura, cujas obras se desdobram em parábolas da resistência da civilização à corrupção do tempo.
Num tempo em que o trabalho da memória se tornou um imperativo ético, em que a lembrança é o antídoto contra as sinistras recorrências da história, o “esquecimento” é um fantasma a ser combatido e um tema privilegiado da representação literária. O lingüista alemão Harald Weinrich investiga esse motivo desde suas origens na mitologia grega (no mundo subterrâneo dos mortos, Lete era o rio que fazia as almas esquecerem sua existência terrena) até a literatura contemporânea (a memória de sobreviventes dos campos de concentração como Primo Levi ou Jorge Semprún, a escrita agônica de Thomas Bernhard, a obsessão de Borges em criar biblioteca imaginárias que sejam alegorias da memória absoluta).
Escrito depois dos ataques terroristas aos EUA em 11 de setembro, o título do livro faz referência ao panfleto político Confronto de Civilizações, do estrategista norte-americano Samuel Huntington -que traça uma oposição entre a cultura ocidental e as demais culturas (em especial o Islã), justificando a ação militar contra sociedades “arcaicas”. Em Confronto de Fundamentalismos, o romancista e historiador pasquistanês Tariq Ali contesta esta visão monolítica do Islã, reconstitui a história dos vários povos unificados pela religião muçulmana e mostra que o fundamentalismo radical que hoje impera no Oriente Médio foi na verdade fomentado pela intervenção dos EUA, um país cuja história está marcada pelo fundamentalismo protestante e que hoje pratica uma espécie de “fundamentalismo de mercado”.
A “tarefa do tradutor” aparece aqui em sua dimensão mais complexa. Para além dos aspectos técnicos da transposição lingüística, a pesquisadora Susana Kampff Lages mostra que as perdas implicadas por qualquer tradução estão imantadas por uma perda mais profunda: a perda de uma linguagem primordial, de uma língua adâmica, de uma noção de totalidade cuja desaparição lança autor/leitor/tradutor num estado de melancolia que está no coração da modernidade e no cerne da obra de um de seus melhores intérpretes -o filósofo alemão Walter Benjamin.
Dividido em duas partes, o livro reconstitui a trajetória do médico, dramaturgo e romancista russo Mikhail Bulgákov (1891-1940), que viveu às voltas com as autoridades soviéticas e que foi um dos expoentes de uma geração que incluía autores como Vladimir Maiakóvski, Ana Akhmátova e Boris Pasternak. Na primeira seção, A Vida do Senhor Bulgákov, o tradutor e pesquisador Homero Freitas de Andrade traça uma biografia do autor de O Mestre e Margarida; já Prosa Autobiográfica reúne contos traduzidos diretamente do russo em que Bulgákov faz um relato ficcional de suas experiências como médico e escritor.
Peça inacabada que Brecht escreveu entre 1927 e 1931 e que ficou à margem de sua obra completa, O Declínio do Egoísta Johann Fatzer conta a história de um grupo de quatro soldados alemães que desertam durante a Primeira Guerra Mundial, passando a viver na clandestinidade e na penúria. O texto foi estabelecido pelo dramaturgo Heiner Müller nos anos 60 e um dos destaques do livro -além do ineditismo, em língua portuguesa, dessa obra pouco conhecida do escritor- é o belíssimo trabalho de edição da Cosac & Naify, que incluiu imagens de várias montagens da peça em todo o mundo, fotos de Brecht e Müller e reproduções de obras de artistas plásticos alemães.
Em seu terceiro livro, Marcelo Mirisola retoma a linguagem anárquica, escatológica e pornográfica presente em seus dois livros anteriores (os volumes de contos Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia e O Herói Devolvido). O estilo sincopado, com frases de alta voltagem erótica e um ritmo hipnotizante, já garantiria a Mirisola um lugar de destaque na nova literatura brasileira, ao lado de outros cronistas da degradação urbana como Fernando Bonassi, Marçal Aquino, Marcelino Freire e Ronaldo Bressane. Mas Mirisola vai bem além desse registro realista. De fato, ele descreve como poucos a deterioração moral e cultural das classes média e baixa do país, esse lumpesinato existencial produzido indústria cultural e pelo agenciamento absoluto da vida social, do corpo, da mente e dos desejos; porém, o sarcasmo, o riso obsessivo e a ira espasmódica do autor -que atingem um paroxismo na escrita autobiográfica de O Azul do Filho Morto- criam uma zona de opacidade que a tudo consome, que transcende a realidade material e que é uma espécie de vertigem de agonia (digna de um Céline tropical e suburbano) diante de uma existência vivida como puro horror.
No poema de abertura de Cais, o escritor Alberto Martins escreve: “Mas como equilibrar numa só linha o mar/ e seu vocábulo// – se um é para os olhos/ outro para a língua?” A pergunta ficará em suspenso ao logo de todo o livro, ao longo de poemas que, conforme sugerido pelo título, estão à deriva, mirando o porto à distância, tentando descrever em palavras aquilo que já se oferece ao olhar. Essa busca de um ponto de equilíbrio entre duas linguagens diferentes perpassa todo o volume, que alterna poemas cuja temática principal são as topografias portuárias (destaque para a cidade de Santos) com ilustrações do próprio autor que percorrem a edição num diálogo permanente com versos que têm a economia e a intensidade de suas xilogravuras.
À primeira vista despropositada ou meramente anedótica, esta coletânea de crônicas sobre cães é ao mesmo tempo uma cativante prosa memorialística e uma reflexão sobre nosso desejo de implantar no mundo inumano -no caso, em nossos bichos de estimação – as demandas e as necessidades do homem. Roger Grenier pertence à história da intelectualidade francesa do pós-guerra e por isso as lembranças dos passeios que ele fez por Paris com seus diferentes cães e em diferentes momentos é também um pouco da história de personagens como Paul Valéry, André Gide, Valery Larbaud e Jean-Paul Sartre. Manuel da Costa Pinto
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