1
novo mundo
MOSTRA

A fotografia em expansão
Por Roberta Alvarenga

Exposição em SP investiga os limites e possibilidades do suporte fotográfico

A globalização e o barateamento da tecnologia made in china transformaram-nos em turistas acidentais, estrangeiros nativos em qualquer hora e lugar. Palm tops que disparam flash, celulares que tiram e enviam fotos por e-mail, canetas no melhor estilo James Bond, além, é claro, dos inúmeros modelos de câmeras digitais elevaram-nos à categoria de fotógrafos, sem necessidade de saber como funciona a lógica da caixa preta.

Afetados pela tecnologia, nos tornamos compulsivos por imagens em uma versão moderna, sem abolir a antiga estratégia nostálgica de acumular fotos em álbuns fotográficos para mostrar à família e amigos. Hoje nos expomos para o mundo através dos monitores de nossos computadores, dos sites, dos álbuns digitais e dos fotologs, que funcionam como uma espécie de diário fotográfico na internet e que se tornaram febre mundial.

Quantas vezes você já se pegou pensando “Isso daria uma boa foto...”? Assim fizeram os soldados americanos no Iraque, que viram “beleza” na tortura por eles cometida contra os prisioneiros iraquianos e transformaram seus cliques em souvenir da pura prepotência de sua nação.

Replicadas em todas as mídias, em capas de revistas, nas primeiras páginas dos jornais e, agora, novamente, na internet em milhares de sites, as fotos do Iraque chocaram o mundo, assim como a fotografia da criança sul-vietnamita nua, que em 1972 fôra atingida pelo napalm e gritava de dor, ao correr em direção da câmera fotográfica com os braços abertos -em um ato de desespero.

Seguindo, e voltando um pouco na história, de acordo com Susan Sontag, em 1850 um fotógrafo alemão inventou a primeira técnica de retocar o negativo. Isso permitia fazer, manualmente, duas versões (uma retocada e outra não) de um mesmo retrato.

Naquela época, assustou um bocado a sociedade com a notícia de que a fotografia podia mentir. Séculos depois, digitalmente falando, é o Photoshop responsável pela mentira cada vez mais bem contada através de seus inúmeros filtros e plugi-ns. Que o diga a velha “Playboy”...

Considerado um software de edição, o programa reúne inúmeras funções indispensáveis ao tratamento de imagens como redução, ampliação, reprodução, recortes, retoques... Sem contar sua principal atração, as texturas e os inúmeros e famosos efeitos especiais.

Indispensável, hoje é bem provável que a grande maioria de imagens/fotografias que povoam nossa mente, independentemente de sua procedência, sejam elas vindas de revistas, anúncios, outdoors, jornais, sites e outros meios tenham sido tratadas pelo Photoshop. Vide o caso recente e polêmico do jornal “The Daily News”, que assumiu ter publicado fotos “montadas” de soldados britânicos torturando os prisioneiros iraquianos como fotos reais. "Nós acreditamos sinceramente que elas eram verdadeiras. Do contrário, nós nunca teríamos publicado essas fotos", afirma o jornal.

Polêmicas, verdadeiras, ou não, as fotografias que antes ilustravam e enfeitavam o mundo sendo colecionadas em álbuns, emolduradas em porta-retratos, pregadas nas paredes como quadros, publicadas em jornais e revistas e expostas nos museus como arte, evoluíram e deixaram de serem vistas apenas como “fatias da realidade”.

É nesse contexto de evolução e transformações por qual passamos desde a década passada, que a fotografia na arte vem se dissolvendo e se misturando com os diversos e novos meios, tecnologias e materiais como comprova a exposição “A Foto Dissolvida”, com curadoria de Juliana Monachesi, em exibição em São Paulo.

Organizada em comemoração o mês internacional da fotografia pelo Sesc Pompéia, a exposição conta com 14 artistas que através de seus trabalhos nos propõem um olhar contemporâneo sobre os limites e possibilidades do suporte fotográfico.

Como pintora e não fotógrafa, Adriana Rocha incorpora a fotografia a suas telas de pintura na série “aquilo que se esvai”. Já Caio Reisewitz nos faz questionar através do resultado de sua objetiva se o que ele apresenta ali são imagens manipuladas digitalmente ou não.

Isso se repete no trabalho de Domitília Coelho, que montou uma maquete chamada “casa real” com fotos tiradas de revistas de decoração e arquitetura, impressas em transparências e sobrepostas as ao acrílico. Com isso, criou uma série de casas/vitrines que exploram a polêmica relação entre o público e privado.

Um pouco distante dessa tendência, mas ainda tributário dela, Fábio Faria provoca ao explorar no suporte vídeo a relação das cores, do movimento e da velocidade no mundo dos frames.

A fotografia como vídeo também é assunto de um dos trabalhos de Gisela Mota. Na sua videoinstalação “retidos”, a artista fotografou lugares e construções que foram abandonados na cidade de São Paulo e os fez de cenário para personagens que, inseridos digitalmente, se movimentam no espaço.

Continuando a questionar a relação espaço-temporal da fotografia em três momentos diferentes, Gustavo Rezende faz uso de um painel tríptico usado, geralmente, como painel de publicidade. Mas é no trabalho de Helga Stein, artista premiada na terceira edição do Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia, que encontramos a mistura da fotografia com as tecnologias interativas, escrutinhada de forma radical.

Em “Narkes” (palavra de origem grega que nos remete ao personagem da mitologia grega Narciso, que preferia viver só), Helga provoca o deslocamento de si mesma através de imagens suas capturadas por uma webcam, para dentro da máquina-computador. Torna-se, assim, um corpo preso e solitário que somente deixa descobrir-se aos poucos, e nunca por inteiro, através dos cliques de quem interage com seu auto-retrato através do desktop.

Já Julio Kohl testa nosso olhar técnico “powered by photoshop” ao expor o resultado de suas manipulações manuais em que por meio de diferentes técnicas e materiais fez do seu processo, resultado. Keila Alaver trafega na mesma trilha. Procura trazer a imagem representada no plano para o mundo tridimensional que habitamos.

Em um processo inverso, trabalha Leandro Lima, que com seu trabalho “azul.dxf” questiona a possibilidade de produzirmos imagens 100% digitais em softwares de criação 3D ao imprimir seu resultado (uma imagem do mar fabricada no computador) em papel fotográfico.

Com um painel de fotografia impressa em lona vinílica, Paulo D’alessandro explora o jogo de múltipla exposição do fotograma ao longo de um mesmo rolo de filme ao “fotografar” ruas e casas.

Em “Vigília”, Rochelle Costi, trabalha com o movimento de seres vivos, que, filmados e transmitidos em uma televisão, fazem, por serem muito lentos, com que o espectador não perceba que eles tenham movimentos, obrigando o vídeo a se comportar como fotografia.

Para completar, o grupo de VJs Kinoks, composto pela dupla André Finotti e Andréa Pasquini expõe seu trabalho em vídeo, “Vórtice!”, que pode ser visto como uma seqüência que explora a sobreposição de imagens e mixagem de frames com áudio.

Finalizando a lista dos artistas, há ainda trabalhos de Sandra Cintro, como a “escultura” composta de estruturas de madeira e fotografias, chamada “Ponte Curva”, que integrou a exposição da artista no Museu da Pampulha em 2003.

A exposição é a prova viva de que é equivocado pensar que as fotografias podem ser resumidas aos limites de suas molduras e a meras reduções da realidade em 3D à 2D. De fotografias analógicas às digitais, do papel à mídia, dos desaparecidos das caixas de leite aos que querem aparecer como celebridades nas latinhas de refrigerantes (confira no link-se), o conceito de fotografia não para de se expandir, ou melhor, de se dissolver junto à tecnologia, que além de ditar moda, dita tendências.

Que venham as novas!


A exposição:

A foto dissolvida

Curadoria de Juliana Monachesi

Artistas: Adriana Rocha,Caio Reisewitz, Domitilia Coelho, Fabio Faria, Gisela Motta, Gustavo Rezende, Helga Stein, Julio Kohl, Kinoks, Keila Alaver, Leandro Lima, Paulo D'Alessandro, Rochelle Costi e Sandra Cinto.

No Sesc Pompéia (r. Clélia, 93, São Paulo, tel. 11-3871-7700)

De terça a sábado, das 9h30 às 20h30; domingos e feriados, das 9h30 às 19h30. Até 1º de agosto de 2004.


 

 

Roberta Alvarenga
É pesquisadora visitante da Ohio State University (EUA) e aluna do curso de tecnologia e mídias digitais da PUC-SP.

 
1