CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Por fim, Duarte comparou a pintura mostrada nas galerias de arte de João Pessoa, na Paraíba, na segunda metade da década de 70, com as fachadas das casas de pescadores no bairro de Cabedelo. “Quando eu desembarquei, depois de oito anos fora do Brasil, para dar aula de estética na Universidade Federal da Paraíba, o primeiro trabalho que fiz foi o registro do uso das cores nas fachadas de casas de pescadores. Eu mostrava para os meus alunos, sem nenhuma intervenção, como havia uma inteligência cromática muito superior naqueles pescadores do que em todos os quadros que estavam pendurados nas galerias de classe média de João Pessoa. Não sei de onde vinham os tons sépias, castanhos, usados pelos pintores das galerias, num lugar onde havia tanta luz, tanto azul, tanto verde, não só na natureza, mas, antes de tudo, nas fachadas das casas humildes.”

“Eu achava aquilo estranhíssimo: enquanto as famílias de pescadores pobres tinham uma exploração da paleta absolutamente inteligente e muito superior ao que estava nas galerias, ninguém fruía daquilo como uma manifestação estética primordial e local. Era uma resistência que tem origem de classe. Independente da hegemonia atual do capitalismo, independente da ausência de saída, há posições de classes diferentes, hoje. Inclusive há uma terceira classe, que não existia no meu tempo, que é chamada de ‘excluídos’. Não há horizonte de inclusão possível no sistema econômico atual, em escala planetária. Porque é absolutamente incompatível com o desenvolvimento tecnológico a incorporação de novas massas de trabalhadores no sistema produtivo. Se não houver desenvolvimento tecnológico não há produção competitiva. O horizonte é terrível. Mas há, ao mesmo tempo, esse outro universo que está surgindo e sobre o qual não podemos refletir, porque não há possibilidade de conceituar o que ainda está surgindo, na aurora de um novo tempo.”


Dinheiro não, beleza pura

Antes de abrir a conversa ao público presente à Pinacoteca, Lisette Lagnado lançou uma provocação à Mônica Nador: “A quantidade de vezes que você, Mônica, usa o sufixo ‘inho’ é impressionante. Porque a gente está diante de uma questão que é extremamente séria. Eu posso imaginar o que ‘florzinhas’ e ‘casinhas’ podem gerar de desconforto para uma pessoa que mora numa situação tão adversa. Eu queria saber o quão próxima você consegue ficar em relação a esse trabalho e o quão distante”.A pintora desviou-se da pergunta, reafirmando a ironia que lhe seria característica: “Isso (o excesso de diminutivos) não é uma questão para mim. Eu insisto em ser assim, irônica. Desconfio de tudo que é muito sério”.

Para Paulo Sérgio Duarte, o uso dos diminutivos tem outra razão: “Não importa aonde formos, em qualquer lugar, há uma dimensão do espetacular. Na megaexposição de arte, hoje, ninguém vê os trabalhos que estão expostos, porque são muitos e porque é impossível ver todos. Este é o orgulho do curador contemporâneo, porque ele utiliza as obras de arte como protagonistas involuntários do seu próprio trabalho; as obras de arte são usadas como componentes do cenário artístico dele (o curador), para o que ele chama de ‘trabalho artístico’, a sua curadoria. Nesse mundo, um trabalho como o da Mônica Nador tem que ser tratado no diminutivo, sim, porque a escala própria dele é diminutiva. Porque, simplesmente, se a Mônica não estivesse aqui, a gente nem saberia que o trabalho existe. E ele existe à margem, no sentido literal, dessa história da arte que se constrói oficialmente”, disse.

O incômodo provocado pelos diminutivos reverberou na platéia, em comentários da artista Verônica Cordeiro. “Acho problemático você chamar de ‘casinha’ aquilo que é a casa da pessoa”. Em resposta, Nador reiterou: “É bem espontâneo, completamente natural”. A pintora emendou com exemplos dos procedimentos que utiliza para propor o trabalho coletivo nas comunidades que visita. Narrou, então, um episódio ocorrido no Amazonas: “A primeira coisa que rolou foi que o carinha que mora na palafita (em habitações de madeira construídas sobre a água) e que não tem nada, a não ser aquela paisagem maravilhosa da beira do rio Purus, um céu maravilhoso e uma parabólica deste tamanho, desenhou um símbolo da Nike. Eu fiquei totalmente triste. Ele não vai ter nada da Nike, nunca, a não ser o símbolo. Fazer a Nike? Ah, não, não vale. Eu proíbo. Agora eu já chego falando assim: ‘Ó, a gente vai desenhar, mas eu quero que vocês desenhem, sei lá, coisas que tenham na casa de vocês e de que vocês gostem’ ”.

 A crítica e historiadora da arte Aracy Amaral considerou o veto à Nike uma manobra de “dirigismo cultural”. “Quem tem uma antena parabólica imensa recebe uma informação enorme e, talvez, caótica, do ponto de vista cultural. (...) Você é de um grande centro e quer resgatar uma cultura local, mas eles não estão a fim disso. Eles estão atrás de novidades. Na medida em que eles escolhem uma Nike, eles estão querendo escolher símbolos de fora do universo deles. De repente, você quer o vernacular, mas eles não querem o vernacular”. A resposta de Mônica: “Ah, mas rolou”. E ninguém se lembrou de que os heróis da seleção brasileira também usam o logotipo da Nike nas camisas de “canarinho”, os símbolos da pátria.

Outra crítica feita ao trabalho da pintora veio de Afonso Luz, que chegou a comparar a pintura de fachadas feita por Mônica Nador com o projeto “Belezura” implementado pela prefeita Marta Suplicy, em São Paulo, em 2000, para melhor a “fisionomia da cidade”. “Se você não gosta, sorry”, respondeu Mônica. “Eu tinha uma bandeira assim: ‘beleza pura’. Eu sou a favor de coisas superbonitas. A beleza pura faz bem para a saúde mental, te reconecta com espaços legais da cabeça, é saudável. Por isso eu acho importante ir lá e organizar um espaço para a rapaziada”.

Mas, afinal, isto muda ou não muda alguma coisa no tecido social do país? “Eu tenho certeza de não vai mudar nada, de que eu não vou mudar nada. Só quero morrer em paz e falar: ‘Fiz o que pude’. É uma coisa que eu faço para mim. E para eles, é legal? Claro que é legal, acontecem coisas. Portanto, eu tenho um poder micro, mas tenho algum poder”. Assim como Arthur Moreira Lima tem outro tanto de poder; e o Teatro da Vertigem, mais um pouco; e Paulo Sacramento, seu quinhão...


 

José Augusto Ribeiro
É jornalista, membro do conselho de editorial da revista "Número".

 
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