CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
2

Deve ser mencionado que a afinidade de Oiticica, quando investiga a reprodução de imagens em movimento, é contemporânea dos primeiros estudos sociológicos acerca dos efeitos da televisão, tanto no âmbito doméstico como na transmissão do noticiário político. Aliás, McLuhan havia reservado um capítulo, “A Televisão: o Gigante Tímido”, para analisar o jogo de rivalidade com a indústria de superproduções hollywoodianas. A matriz da “Cosmococa” não poderia deixar de trazer essa duplicidade: de um lado, há uma adesão quase histérica à onipresença da imagem televisiva; de outro, a reverência total às teses de montagem de Eisenstein-Godard. A redundância que caracteriza a cultura de massa é cinicamente explorada, retirando-se um diferencial na repetição de um mesmo slide por projetores diferentes, em intervalos calculados com extremo rigor.



Mundo real: a deixa para o outro


Oiticica acolhe o ingresso da tecnologia para ligar-se à difícil sintaxe do “mundo real”, à maneira de Cage, quando esfrega o microfone no corpo para extrair sons. O que prevalece na organização sonora de Oiticica é a noção de que não se pode silenciar o fora e que sem o silêncio não haveria o espaço necessário para a entrada do Participador. O silêncio é a deixa para o outro, como a “síndrome da tosse” que costuma acometer o público durante um espetáculo. Assistir uma peça (musical, cinematográfica ou teatral) significa submeter-se à uma exigência coletiva repressora de manter-se imóvel e em silêncio.

Quase-cinema pretendia ativar o espaço do espectador. Conseguiu condensar uma crítica à arquitetura da sala fechada e das normas de projeção cinematográfica. Oiticica ataca o audiovisual a partir do diagnóstico da insustentabilidade contemporânea da estrutura que caracteriza o teatro no século XVI, isto é: uma construção que aparta o público da realidade exterior e que oferece uma disposição hierárquica dos lugares (palco e platéia).

 Parte das dificuldades para compreender essa verdadeira ruptura provém da falta de informação a respeito do cinema durante o período da censura militar. Torquato Neto denuncia essa desinformação ao falar da penúria da cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 24/02/1972, escreve: “Enquanto isso, o ‘Leão de sete cabeças’ e ‘Cabeças cortadas’, filmes com que Glauber desafiou a ira da crítica esquerdista oficial francesa continuam inéditos por aqui”.

Outra fonte de explicação, lançada pelo poeta, estaria na consciência de um perigo em relação aos padrões de consumo e comportamento social. Há um temor no potencial político da sociedade “ocupar espaço, criar situações”, relata Torquato, como tomar o lugar, vago ou ocupado, dentro de casa, na rua.

O que chama a atenção é que a velocidade em Oiticica está sempre orientada para uma diminuição, mais próxima de uma leve letargia do que da aceleração. A “Cosmococa” requer Participadores reclinados à vontade, em redes ou colchões, com o corpo e sua movimentação livre, dançando, jogando, conversando. Torna-se praticamente impossível apreender o significado de “Cosmococa  - programa in progress” sem esfolar o limite entre a descoberta do corpo e sua inserção no Ambiental. E esse corpo tem direito a limites -dormir, por exemplo, com todo o respeito.

Lisette Lagnado
É crítica de arte e curadora independente, coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural), autora de "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA) e editora de Trópico e da seção "Em Obras".

 
2