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dossiê
TEMPO E HISTÓRIA

As fotografias desencantadas de Manuela Marques
Por Lisette Lagnado

A artista luso-francesa realiza a sua primeira individual no Brasil, na Galeria Vermelho

Haveria uma duração na fotografia se ela é, por definição, a tomada de um instante?

As imagens de Manuela Marques, nascida em Portugal e radicada em Paris, que inaugura sua primeira individual no Brasil, parecem indiferentes à temporalidade. Evocam um “tempo que não passa”, ou um estado cuja origem, não declarada, exerce um fascínio oculto como se continuasse suporte de uma verdade. Nada a fazer, chega-se sempre atrasado. Para boa parte da história da fotografia, essa seria a sentença certeira do malogro: deixou-se escapar o tempo e, com isso, a foto foi “perdida”, passou do ponto, estragou.

E se não houver momento decisivo? E se só houver intuição para a captura? A imagem iria adquirindo uma forma lenta no encalce de uma ação que a realidade despeja sem disfarce. Como mostra a presente exposição, a pedra já foi para o largo, a coleta das maçãs ficou para trás, o homem está saindo do banho de luz sob a folhagem, o pássaro perdeu o vôo.

No sentido literal, “hora aberta” designa a chegada do crepúsculo vespertino, passagem que esfumaça os contornos da realidade e que portanto se adensa de indícios que rapidamente se entornam em presságios. Não é mais dia claro, nem ainda noite fechada, é um instante espesso e parado no ar, de pura iminência e suspensão, dentro do qual algo está se armando, tanto pode ser uma promessa como uma ruptura, mas é mutação imperceptível a olho nu, até que o azul escuro se funda na pretura e os templos se esvaziem de seus oradores.

 Uma vez instaurada, a escuridão realça os detalhes, lembrando certos mantos da pintura espanhola dos séculos 17 e 18 ávidos por qualquer filete de luz. Manuela Marques não nega a pincelada firme e realista de Velázquez para conseguir puxar do piso peões de madeira e amontoá-los apenas na metade da área direita do quadro. Enquanto estes se sustentam pelo brilho e a economia de tons, rodos e vassoura delimitam uma zona de sombra (o lugar do espectador?).

No contexto da pesquisa de Manuela Marques, “hora aberta” significa distinguir sua fotografia da fotografia de tocaia, que sai à caça do flagrante, do minuto mágico. Nesse sentido, seu estilo é mais narrativo, tendo consigo, à guisa de caixa de ressonância, a companhia da literatura desterrada de um Sebald.

A artista prefere dilatar a dimensão do presente para poder realizar um ensaio sobre a demora e a volta, sobre a percepção de uma vida paradoxalmente cristalizada e contínua. Sabendo encontrar aquilo que os outros não olham ou desprezam, ela respiga uma matéria esquecida, expulsa da sega. Seria o equivalente a chegar depois da monção. Sua fotografia apanha nesse campo a permanência de uma sobra. Manuela cata coisas, até então inexpressivas e sem dono, prestes a apodrecer ou congelar, sem que nada possa ser feito para reverter sua condição, e com elas alimenta seu universo de imagens desencantadas.

Para quem conhece a vivacidade contagiante da artista, é digno de nota o auto-controle que impede o desabamento das cenas descritas em prostração melancólica. Que seja dito: Manuela Marques não fotografa a ruína nem a miséria; mesmo assim, há uma devastação que reina, e que não é efeito da fotografia, mas da natureza de seus temas ou recortes na paisagem. Mistério e riqueza costumam andar par a par. A dormência protege do informe, protege do banal. É contudo inegável a capacidade da vida trair a vida, mitigar a ausência. Por exemplo, na água que rebenta em espuma para cima, cuja verticalidade será reencontrada no pássaro morto, preso pela pata, de cabeça para baixo.

No estado de suspensão, as direções da montante e da descente se confundem. Abrindo a câmera para além do animal capturado, um fundo de manchas pigmentadas de azuis e verdes salta para frente. Não está no foco, é uma retícula de pura abstração. Apesar disso, é com ela que a artista se distancia de uma representação mórbida. Assim como nesses retratos frontais de pessoas que vendam os olhos com as mãos, há uma preservação da integridade frente ao arroubo do clarão que acompanha a fotografia.

Em contrapartida, o espaço da galeria proporciona uma diferença ambiental, aquele conforto que Manuela não quer entregar de pronto: a possibilidade de caminhar para trás e para frente dessas imagens, de intercalar nelas nossas construções mentais, de tentar compreender o valor de tanto silêncio e inércia, de contemplar aquilo que não mais está porém resiste à aniquilação. Entramos como protagonistas de um filme que já está no ar. “Hora aberta”, nesse contexto outro, significa que nunca se chega atrasado para pensar junto.

As imagens, selecionadas dentro do extenso arquivo da artista, foram deliberadamente articuladas para uma fruição que permite ver, sair ou ficar -sem obstáculos. O designer Gerson de Oliveira criou suportes de espuma para o corpo do visitante. Feita de várias densidades, essa topografia funciona como um “colo”, com depressões e elevações, atenuando a gravidade do tempo real.

Ao rés-do-chão, alguns monitores exibem “closes” da figura humana que reiteram a unidade temática das fotografias: os retratos, poros expostos, respiram em baixa velocidade, retardando a finalização do movimento gestual. Conjugados, todos esses elementos exploram a fria e hostil estação de uma libido fisgada. Uma espécie de “nevermore” inconformada que vem com a certeza do desencontro com a paisagem original, com o que fora mágico.


O texto acima, cujo título original é “Hora aberta: Manuela Marques, com Gerson de Oliveira”, foi redigido como apresentação da exposição de Manuela Marques, na Galeria Vermelho (r. Minas Gerais, 350, tel. 11-3257.2033, em São Paulo), que vai até 4 de setembro (de terça à sexta, das 10h às 19h; sábado, das 11h às 17h).


 

 

Lisette Lagnado
É crítica de arte e curadora independente, coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural), autora de "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA) e editora de Trópico e da seção "Em Obras".

1 - “Esse tempo que não passa” é uma expressão tomada emprestada de J.-B. Pontalis.


2 - Gerson de Oliveira é co-fundador do escritório de design OVO, junto com Luciana Martins.

 
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