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Senra: Sim, por exemplo Douglas Mansur, que fotografa sistematicamente o MST há 17 anos e é um fotógrafos-militantes com maior presença no acervo. Mas há muitos outros: João Ripper, Carlos Carvalho, Paulo Pereira Lima, Dirceu P. Vieira, João Zinclar, para citar apenas alguns deles. Às vezes o jornal “JST” contrata um fotógrafo free-lancer. Existem fotos realizadas no Brasil inteiro, e o corpo principal do arquivo é dividido por Estados: interior e capital de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Pará... Há pelo menos uma pasta para cada Estado e também existem pastas temáticas para mobilizações, marchas, lideranças, artistas militantes, personalidades apoiadoras etc.


Existe algo relacionado à arte do retrato?

Senra: Quase não há pessoas sozinhas. A representação de grupos é sempre privilegiada. Poucas fotos registram o trabalho de plantio, mas há um grande número de registros das cooperativas agrícolas, mostrando que dão certo e são um sucesso. Focalizam-se insistentemente os equipamentos, a produção rural, as colheitas, os campos, os tratores, o sucesso dos acampamentos.


Da maneira como você as descreve e pelas fotos que separou, parece existir um curioso paralelo com as ocupações européias de terras no século 19, ou, mais precisamente, com o estabelecimento do modo de produção socialista na Rússia. Vejo imagens que parecem reprisar inconscientemente cenas de filmes como “A linha geral” (1929), de Eisenstein, ou “A Terra”, de Dovjenko (1930).

Senra: Basta eu te mostrar uma seleção de fotos que chamo “Os frutos da Terra”. Você se surpreenderá com a quantidade de imagens praticamente idênticas a fotogramas desses filmes... Há também uma ampla gama do que eu chamo “personagens eisensteinianos”: retratos de militantes do Sul descendentes de europeus que guardam seus traços originais.

Em relação à estética, muitas vezes nos surpreendemos ao ver retratos de gente ainda sem o hábito da fotografia e que às vezes jamais viu uma câmera. Ora encaram as lentes de modo desconfiado, desajeitado, ora as enfrentam com um olhar direto, limpo, que acreditávamos perdido para sempre. Percebe-se, enfim, tratar-se de um primeiro contato. Para as poses, são convocados os filhos e parentes, já que o núcleo familiar é um dado importantíssimo na ideologia do movimento. Prova-se, dessa forma, que não são bandoleiros e que possuem laços familiares, sobrenomes e tradições.

Por outro lado, há, muito patente, uma incorporação de estéticas políticas do início do século 20: enquadra-se orgulhosamente a maravilha dos frutos da terra, os tratores adquiridos, os investimentos em tecnologia agrícola etc. Ou se procura mostrar, ainda, símbolos como a bandeira e o estandarte, mimetizando-se formulações percorridas e vistas em outros momentos históricos.


Percebem-se, também, muitos símbolos religiosos...

Senra: Sim, uma das coisas mais importantes no interior do movimento é “fazer a mística”, uma prática inspirada dos rituais católicos -a esquerda católica esteve intimamente associada à criação do MST. Nas primeiras imagens do movimento, o primeiro símbolo que aparece é a cruz carregada à frente de manifestações e marchas, lembrando a busca de uma Terra Prometida -designação, aliás, de um dos primeiros assentamentos do MST.

 As práticas da Igreja Católica propiciaram as primeiras romarias, onde se carregavam grandes cruzes de madeira, e até mesmo pedras pesadas, como em sacrifício para atingir determinada finalidade. Religiosa, pois, é a origem das marchas e caminhadas de reivindicação política, consagradas com a Grande Marcha Nacional para Brasília, em 1997.

Em momento posterior à adoção do símbolo da cruz, vêm-se os panos negros ou brancos enrolados nos seus braços, que representam as pessoas mortas nas lutas do movimento. A mística se fortaleceu, ainda, com a prática de prender um pano para cada morto na cruz que abre a marcha ou manifestação.


Há teses acadêmicas que documentam ou analisam a mística da marcha?

Senra: Sobre a mística especificamente não encontrei ainda. Mas minha opção, de qualquer modo, foi examinar primeiro o arquivo, para depois ler os trabalhos -que são muitos- sobre o desenvolvimento do MST. Achei que aprenderia mais sobre a produção de imagens do movimento vendo, primeiro, as imagens.


Esse aspecto inédito deverá ser mostrado na futura exposição fotográfica do acervo, que você organizará com o apoio da Bolsa Vitae?

Senra: Sim, “fazer a mística” é um aspecto do MST quase desconhecido do grande público. Faz parte dela, por exemplo, o culto aos mortos heróicos do movimento, com a construção de réplicas de caixões de gente assassinada. Esses sarcófagos são postados, durante as manifestações, na frente da Câmara Municipal de uma cidade, por exemplo, ou da Assembléia de um Estado.

 Em Brasília, há o Monumento aos Mortos de Eldorado dos Carajás.
Calcada, de início, nos rituais católicos, quando o papel da igreja perde seu grande peso, a mística se “laiciza” de certa forma e a bandeira passa a predominar sobre a cruz. Vendo-se as fotos mais recentes de místicas, tem-se a impressão de que há um desejo de recuperar e integrar manifestações culturais regionais, principalmente musicais.

Mesmo o uso do boné e da camiseta faz parte da mística, por darem a quem os porta a sensação de “pertencimento” ao movimento. Usá-los é “fazer mística”, assim como a marcha também constitui uma ação mística carregada de simbologias.

Também faz parte desse tipo de prática o culto a personalidades como Che Guevara, Antonio Conselheiro, Zumbi e Sandino, cujos nomes são dados a assentamentos. Cultuam-se, também, os mortos no interior do próprio movimento, como a gaúcha Rose, assassinada por atropelamento (ver o filme “Terra para Rose”, de Tetê Morais). A data da morte do líder mexicano Zapata jamais é esquecida, como se viu há alguns anos durante manifestação em plena avenida Paulista.


Qual é o estágio técnico atual da fotografia no interior do movimento?

Senra: Por enquanto posso testemunhar dois aspectos que colocam questões interessantes para a pesquisa. Ao mesmo tempo em que há um lado “inocente” e de ingenuidade perante a câmera, sugerindo uma relação entre a fotografia e a história que se julgava perdida para sempre, há uma estética militante que mostra o conhecimento muito claro do papel da fotografia através da história. Já houve até mesmo cursos de fotografia no interior dos acampamentos, para poder fotografar... o movimento!

Encontrei, numa tese sobre a representação do MST no jornal “O Estado de S. Paulo”, no “Jornal dos Sem Terra” e no trabalho de Sebastião Salgado, a análise de uma foto muito emblemática de manifestação urbana, feita pela Agência Estado. Nela aparecem ao mesmo tempo a cruz, a bandeira e o militante falando ao celular, símbolos importantes reunidos em uma só imagem. Essa foto foi comprada e reproduzida pelo “Jornal dos Sem Terra”.

No MST, a fotografia liga-se, antes de tudo, à perpetuação do movimento. Mas há ainda uma vontade inequívoca de demonstrar familiaridade com a técnica, para contestar a pecha de atraso que fazendeiros e parte da mídia associa ao movimento. A atividade fotográfica seria, portanto, uma maneira de demonstrar familiaridade com a tecnologia, em um momento em que o MST se aproxima do mundo urbano e promove caminhadas pelas cidades.

Alvaro Machado
É jornalista, autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador de "Abbas Kiarostami", "Aleksandr Sokúrov" e "Amos Gitai - Percursos" (ed. Cosac & Naify), entre outros títulos.

1 - Sottili, R. “MST: A nação além da cerca - A fotografia na construção da imagem e da expressão política e social dos sem-terra”. Tese de mestrado defendida na PUC-SP em 1999. Inédita.

 
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