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dossiê
TEMPO E HISTÓRIA

Stella Senra pesquisa a “ocupação da imagem” pelo MST
Por Alvaro Machado


A invasão de Cruz Alta, em 1989
Douglas Mansur/Divulgação

Pesquisadora aborda arquivo de cerca de 15 mil fotos reunidas na Secretaria Geral do Movimento dos Sem-Terra, em São Paulo

Pensadora das propriedades ideológicas e conceituais da imagem, a pesquisadora e ensaísta Stella Senra, autora de “O Último Jornalista” (ed. Estação Liberdade), tem ocupado quase integralmente seus dois últimos anos de trabalho com um veio de pesquisa de riqueza estética e política insuspeitadas, e até o momento incógnito, apesar de ele vir sendo constituído há mais de 20 anos.

Há algum tempo, ela precisou consultar o arquivo fotográfico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que reúne, em um cômodo de sobrado do bairro da Barra Funda, em São Paulo, um acervo de aproximadamente 15 mil fotografias. A descoberta de um riquíssimo banco de imagens, que retratam desde as primeiras invasões “históricas” do movimento, no Rio Grande do Sul, no início dos anos 80, levou-a a conceber um projeto -para o qual solicitou e recebeu uma das bolsas concedidas pela Fundação Vitae em 2004- com o objetivo de produzir um trabalho teórico sobre esta representação fotográfica e, em segundo momento, a montagem de uma exposição de fotos sob sua curadoria.

“Tenho uma imagem, portanto existo.” Conforme a pesquisa já constatou, o MST assimila à perfeição esse lema -paródico ao “cogito ergo sum” (“penso, logo existo”) de Descartes e cunhado para um contexto bem diverso pelo fotógrafo e cineasta iraniano Abbas Kiarostami (ao tentar explicar a necessidade de legitimação social do protagonista de seu filme “Close-up”, de 1990).

O MST teve o cuidado de colecionar e conservar sistematicamente a quase totalidade de imagens fotográficas que protagonizou em todo o País desde sua organização como movimento. Embora as mantenha ainda sob classificação precária, em pastas divididas por assuntos gerais, como “ocupações”; “invasões de terras e edifícios públicos”; “manifestações”, “mobilizações”, “realização de cursos”, “produção de acampamento” etc., uma boa parte foi produzida pelos próprios militantes; mas há, também, itens adquiridos de jornais ou recolhidos entre fotógrafos profissionais.

Além do fato óbvio de o acervo fotográfico do MST possuir imagens “bonitas” e além do seu evidente caráter documental, o campo de discussão da pesquisa foi delimitado por algumas observações fundamentais, emprestadas do filósofo francês Jacques Rancière, conforme conta Stella Senra na entrevista a seguir.

Você poderia explicitar as principais orientações que balizam uma pesquisa tão extensa? Conforme sua apresentação à Fundação Vitae, alguns desses parâmetros foram tomados de reflexões de Jacques Rancière sobre a representação do povo em imagens foto-cinematográficas.

Stella Senra: Considerei primeiramente a observação de Rancière a respeito da ruptura entre cotidiano e história verificada, já nos anos 30,no campo da fotografia. Antes era possível captar, em fotografias, momentos significativos do ponto de vista da história, ao mesmo tempo em que  registravam o cotidiano.

Essa fase acabou e não mais podemos ler, em fotos, o “Grande Livro da História”, ou enxergar acontecimentos inscritos nos corpos ou nos gestos dos fotografados. Não só a fotografia perdeu essa capacidade, mas as próprias pessoas perderam essa disponibilidade, e seus corpos não mais são capazes de a revelar espontaneamente. É como se houvessem se tornado opacas, turvas, sem a transparência que permitia perceber, de maneira evidente, em seus gestos, determinada dimensão histórica.


As fotos do acervo do MST conseguem, de algum modo, recuperar essa característica?

Senra: Meu trabalho tem início justamente com essa pergunta. É ela que eu dirijo ao arquivo do MST, um movimento que “se fotografa” desde o seu início, justamente por ter uma nítida consciência de estar “fazendo história”.

 
Dê exemplos, por favor.

Senra: Percorrendo o arquivo pude notar, principalmente nos retratos, que muitos dos fotografados pelo MST aparentavam ter pouca familiaridade com a fotografia, que provavelmente nunca tinham sido fotografados, ao passo que outros já pertencem nitidamente ao universo da imagem, a ponto de poderem avaliar a sua importância política. Esta espécie de “descompasso temporal” em relação ao desenvolvimento da história da fotografia, tal como o focalizamos hoje, ou a existência de grupos em diferentes “estágios” em relação ao que Rancière chamou de “crise” da fotografia me parece extremamente sugestiva da riqueza histórica deste acervo.

Há também Sebastião Salgado, autor de um livro (“Terra”, ed. Companhia das Letras, 1997) e de exposições extremamente bem cuidadas a respeito de trabalhadores sem-terra, itens que me parecem indicativos da complexidade de questões levantadas pela fotografia no MST. A obra de Salgado, muito prezada pelo MST, e que conferiu ao movimento uma projeção mundial, não me parece “resolver”, de fato, a questão do lugar do povo na imagem, mas, antes, acirrar o problema. Basta lembrarmos a longa discussão que já existe na história -não só no campo da fotografia, mas também do cinema- sobre a estetização da pobreza.


Em sua pesquisa há um segundo parâmetro desenvolvido a partir de Rancière. Qual é?

Senra: Sim, o francês apresentou uma questão muito interessante ao analisar o dispositivo criado pelo cineasta francês Eric Rohmer para colocar o povo em cena em seu filme “A Inglesa e o duque” (2001). Rohmer lançou mão do artifício de mesclar digitalmente paisagens urbanas pintadas à época da Revolução Francesa com os atores e figurantes que interpretam para a sua câmera personagens da aristocracia e massas populares.

Criou um artifício para delimitar os figurantes, ou seja, o “povo”, em lugares cercados por cordas (para não invadir o espaço reservado à digitalização de fundos pictóricos). Aos figurantes-povo é, pois, designado um campo delimitado, e sua movimentação durante as filmagens é circunscrita por cordas, que não podem ser ultrapassadas sob pena de “borrar-se” o cenário. O povo é contido “em seu lugar”, e a política, no filme, é praticada pelas altas classes, que dominam as linguagens cultas.


Não fosse Eric Rohmer um notório reacionário...

Senra: Sim, e Rancière aponta o fato com todas as letras.


Porém, é possível argumentar, em favor de Rohmer, que seu filme é narrado de um ponto de vista assumidamente aristocrático, o da inglesa nobre apaixonada pelo duque francês.

Senra: Sim, e por sua vez Rohmer encampa alegremente e à perfeição tal ponto de vista... De qualquer maneira, o que me interessa, em Rancière, é a indicação desse dispositivo que designa, nas filmagens, o lugar do povo.

Encampando, por minha vez, o ponto de vista do filósofo, gostaria de apontar a clara circunstância de uma estratégia de “ocupação da imagem” por parte de meu objeto de pesquisa. Tomei esse fato e essa análise como parâmetros porque acho que a estratégia do arquivo do MST é, claramente, a da “ocupação da imagem”, assim como existe, na coordenação do movimento, uma estratégia de ocupação de latifúndios. É uma questão que eu já intuía, mas que, em contato direto com o arquivo, tornou-se patente, apesar de existirem várias mediações. Ou seja, há várias maneiras de acionar essa “estratégia de ocupação da imagem”.


Por sua vez, a produção recente de cinema brasileiro adota, com público e mídia, uma política de “maquiagem da pobreza” e da imagem do povo.

Senra: Na apresentação de meu projeto, menciono a questão da imagem de certo modo glamourizada do povo no cinema brasileiro atual, que se encontra em pólo oposto à imagem do MST apresentada pela mídia. Ou seja, este é descrito como um movimento radical anacrônico, ultrapassado, até mesmo arcaico. É como se os seus integrantes fossem remanescentes de um passado que todos nós, na era da globalização e da alta tecnologia, julgamos fadado ao desaparecimento. Poucos atentam para o caráter absolutamente contemporâneo de um movimento que emergiu no preciso momento em que o capitalismo deixava de ser inclusivo para ser excludente, condenando vastas parcelas da população a uma espécie de “no man’s land”.

De minha parte, posso dizer que a própria existência do acervo fotográfico do MST é um dos testemunhos de seu caráter de movimento social contemporâneo, resposta direta à última etapa do capitalismo global. Pela maneira como se organiza, o MST partilha o mesmo tipo de exclusão que outros grupos sociais que não são considerados arcaicos, muito pelo contrário. Por exemplo, eles não possuem líder ou chefia. Há apenas uma coordenação mutável que ajuda a dirigir o movimento e há, sobretudo, a assembléia geral, a suprema instância decisória.


Esse caráter de contemporaneidade política pode ser percebido nas fotos do arquivo?

Senra: Sim, é uma das particularidades desse arquivo -que apenas comecei a ver, numa seleção feita entre 95% do conteúdo. Contudo, é preciso sublinhar que, antes de qualquer coisa, esse arquivo possui função documental no sentido forte do termo: foi iniciado há mais de 20 anos, portanto ao mesmo tempo em que o movimento surgia e, como este, está em permanente movimento, expansão e transformação.

 
Com que motivação o arquivo foi iniciado?


 
Senra: A primeira ocupação “histórica” de terras que desembocou no MST deu-se quando uma população que se estabelecera em uma reserva indígena no Rio Grande do Sul foi expulsa por pressão dos índios. O governo restituiu as terras a seus donos, e as pessoas que lá moravam foram para a estrada. Saídas da reserva indígena Nonoai, entre 1979 e 1980, elas se espalharam por duas fazendas da região de Ronda Alta: Macali e Brilhante. Também ocuparam um trecho de estrada chamado Encruzilhada do Natalino. O sucesso da ocupação da Macali despertou atenção, movimentos de apoio por parte de igrejas e de outras instâncias sociais.

As pessoas acampadas começaram a editar, então, um boletim sobre os acontecimentos, confeccionado na própria encruzilhada do Natalino e com pauta estabelecida de forma coletiva. No Congresso do MST de 84, no Paraná, esse material transformou-se no “Jornal dos Trabalhadores Sem-Terra”, que já começou conferindo grande importância à fotografia. A capa desse jornal costumava estampar uma enorme foto e apenas uma manchete.

O arquivo fotográfico começa a ser organizado porque, nesse momento, já existe a orientação de que a imagem é uma coisa muito importante. Tudo é documentado, de forma obsessiva e minuciosa. Não só as ocupações propriamente ditas, mas os acontecimentos aparentemente mais burocráticos a sua volta.


Parece haver uma confiança muito grande no testemunho da imagem.

Senra: Sim, e também uma clara visão de seu papel político. Em segundo lugar, a imagem representa, nesse período, a decisão coletiva, porque a pauta dos boletins e jornais é decidida coletivamente.


Em termos de escolhas temáticas dessa coleção, que características pôde perceber até agora?

Senra: De um lado, o objetivo maior é ocupar um espaço tão mal-distribuído quanto o da terra brasileira, ou seja, o espaço da imagem na mídia e nos arquivos históricos. É um objetivo perseguido com grande método. Assim, a maioria das fotos retrata ações políticas, manifestações, marchas, ocupações, concursos etc. Registra-se, de maneira sistemática, a abertura das porteiras das fazendas, a destruição de cercas de arame farpado e a entrada na terra, pois esses momentos representam a ocupação. Registram-se, igualmente, os despejos, violentos, com a ação direta da polícia.

Outro ponto importante: o acervo serve, ainda, para divulgar ou, como eles mesmos dizem, “socializar uma experiência”. É bom que as imagens circulem, pois as pessoas do Rio Grande do Sul desejam ser vistas pela gente do Pará e vice-versa. Essa é uma troca importante.


As imagens estão digitalizadas? Existe um website?

Senra: Estão sendo digitalizadas aos poucos e não existe ainda um site.


Onde está, nesse arquivo, o outro lado da ação? Registram-se momentos de “contemplação”?

Senra: Há bem poucas imagens do cotidiano. Mas há muita coisa sobre educação e saúde. Algumas das imagens mais importantes do acervo são as das “escolas”, com as crianças sentadas no chão de terra apenas algumas horas após a ocupação. Bem como as farmácias -tendas com a inscrição “farmácia”-, que por sua vez evidenciam a preocupação do movimento com a saúde. Enfim, a ação política é privilegiada, mas o dia-a-dia, assim como a atividade do plantio etc., não são tão documentados.


Há profissionais na autoria das fotos?

 
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