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Talen: Não há comparação, realmente, à exceção de que usei o treinamento e a disciplina que aprendi ao estruturar um história de cinema para escrever e editar “Pretend”. Com toda a experimentação, quis dar aos espectadores marcas nas personagens e na história de modo que soubessem onde estavam emocionalmente. Daí joguei tudo pela janela na segunda metade do filme, quando imaginei que já os fisgara querendo saber para onde Elie tinha ido, e então continuei até eles perceberem, tarde demais, que eu não iria dizer.



Você escreveu um roteiro para Robert Altman. Como é trabalhar com ele?


Talen: Escrevi o roteiro de “Mata Hari” para Altman. Ele é um diretor maravilhoso para se trabalhar, generoso e entusiasmado, e muito divertido. Se eu tivesse algo que quisesse experimentar, ele sempre dizia “sim”, naquele seu jeito de delegar, pelo qual ficou famoso. Altman foi também muito generoso quanto à sua disponibilidade: deixou-me fazer todos os tipos de pergunta sobre seus grandes filmes, sobre como ele trabalha com atores, sobre filmagem com duas câmeras, sempre me arrastando (e quem mais estava por ali) para a sala de edição, para ver o que ele estava fazendo.

Foi mesmo uma grande dádiva escrever para Altman, enquanto finalizava “Pretend”. Minha única frustração é que o estúdio (HBO) não pareceu saber como apoiar a visão de Altman, e ficamos numa espécie de limbo.


 


Você poderia dizer algo sobre seu próximo roteiro para um novo filme multicanal?


 

Talen: Estou fazendo agora um documentário, chamado “Sessenta câmeras contra a guerra”. Com a ajuda dos meios de comunicação independentes e muitas pessoas que nem mesmo conheço, consegui reunir fitas, a maioria em mini-DV, mas também em super 8, que montam a 60 câmeras, pertencentes a pessoas que participaram do imenso comício que tivemos aqui em Nova York, em 15 de fevereiro de 2003, contra a guerra no Iraque.

Queria fazer esta peça como um exercício em simultaneidade, mas também para mostrar quantos habitantes de Nova York se opuseram à guerra no Iraque, algo que nossa mídia nunca permitiu que o mundo soubesse. É uma tarefa enorme e espero chegar ao corte final antes da convenção nacional republicana que acontecerá em Nova York.

Todos estão fazendo alguma coisa para mostrar aos republicanos que nós não os queremos aqui, e esta é minha contribuição. Em última análise, quero que seja uma vídeo-instalação, em que -delineando os quarteirões de Manhattan e as avenidas e ruas que os atravessam- muitos monitores mostrem a imagem do local onde o manifestante estava durante o curso das quatro horas do protesto.



E você tem alguma idéia para um filme de ficção?


Talen: Também tenho várias idéias ficcionais. Preciso imaginar uma forma de roteiro multicanal de modo que os investidores possam ter uma idéia prévia do que vou fazer visualmente. Escrevi um roteiro direto para “Pretend”, mas não tinha que formalmente apresentar minhas idéias visuais para ninguém. A maioria delas estava em minha cabeça ou anotada em cadernos ou pedaços de papel.

Qualquer que seja o próximo filme, minha esperança é filmar com câmeras de melhor qualidade e com lentes mais sofisticadas. “Pretend” foi uma amostra de tudo que eu pude pensar. Queria pegar talvez uma palheta mais simples, com apenas de três a cinco canais, mas usando lentes realmente boas, de modo a poder coordenar diferentes distâncias focais, filtros mais sutis e movimentos de câmera mais cuidadosamente calibrados em suas interrelações.


O entrevistador agradece a colaboração da atriz Joan Jubett.



 

Carlos Adriano
É cineasta e mestre em cinema pela USP. Rrealizou “Remanescências” (aquisição/coleção The New York Public Library), “A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha” (melhor curta documentário Chicago Film Festival), “O Papa da Pulpi” e “Militância”. O Festival de Locarno exibiu em agosto de 2003 a mostra completa de seus filmes.

 
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