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dossiê
DEBATE/EM OBRAS

Arte e universidade: uma relação conflituosa?
Por Lisette Lagnado

Lisette:


salgado o seu tema para o próximo trópico...


foi meu pesadelo enquanto no mac-usp e que vi, depois sendo totalmente desvirtuado, digo, o museu e essa preocupação, pelos diretores que me sucederam e que transformaram o museu em sede de cursos (?), desatentos aos objetivos do mac-usp anteriormente, vinculado à experimentação e artes na cidade e Estado.


 
é que, a meu ver, a universidade no Brasil  NÃO SE INTERESSA POR ARTE, e sim apenas por dar diplomas. nem a usp. minha experiência no mac foi, nesse aspecto muito amarga. há uma profunda ignorância e indiferença por parte dos membros do conselho universitário por esse tema ou preocupações. o laboratório na usp é para as ciências exatas. eles não sabem ver como disse ontem na tv o celso amorim, que cada vez mais no mundo, ciência, economia e artes estão interligadas em benefício da sociedade.


 
isso sem falar nos artistas que, como v. diz, transformam seu dotes intuitivos/criativos em profissão. complicadíssimo, sobretudo nos dias que correm. muito salgado seu tema. boa sorte!


aracy (21/06/2004)



Poderíamos fazer o seguinte teste: será que passa pela cabeça de algum de nós indagar se Cildo Meireles ou Tunga têm mestrado ou doutorado? A pergunta é absolutamente irrelevante para o entendimento dessas duas carreiras. Ora, se é verdade que o diploma universitário não faz o artista, ou seja, não lhe confere garantia de reconhecimento (tanto de mercado como até mesmo crítico), a crise econômica tem levado um contingente crescente de candidatos a enfrentar a burocracia da vida acadêmica com o objetivo de transformar em “profissão universitária” um tipo de saber que, pouco tempo atrás, era transmitido na vivência e informalidade dos ateliês livres e projetava seus freqüentadores para um circuito “selvagem”. Lecionar ainda é a saída mais honrosa para quem não consegue se sustentar da venda de seu trabalho.

No Brasil, o tema da formação acadêmica do artista é um fenômeno recente, enquanto as experiências de outros países nos chegam como uma fábula extraída das “Mil e Uma Noites”. Se existe um panteão para o paroxismo, certamente as aulas de Joseph Beuys merecem figurar nesse templo. O artista (1921-1986) atuou como professor de escultura monumental na Academia de Arte de Duesseldorf por mais de uma década. Ativista político e mestre de alunos renomados, como Anselm Kiefer, sempre frisou a relação entre a produção artística e sua sociedade. É autor de uma frase espetacular (1969): “To be a teacher is my greatest work of art” (Ser um professor é meu maior trabalho de arte).

Essa frase nos serve de gonzo para verificar a natureza das relações entre a criação artística e o ensino da arte. Antes de prosseguir, é preciso distinguir a academia de arte (algo que poderia ser assemelhado ao Parque Lage, no Rio de Janeiro) do meio universitário, com as disciplinas oferecidas numa faculdade de artes (plásticas, visuais ou qualquer outro termo adotado pela instituição). Quais são as razões que levam um artista a buscar um reconhecimento universitário -escolha que exige uma aptidão específica para redigir uma dissertação (no caso do mestrado) ou uma tese (no caso do doutorado)? Diante da dificuldade de se tornar um “teórico”, o aluno comumente foca no seu campo pessoal, “torcendo” o corpo curricular para nele caber seu projeto artístico. O crítico Guy Amado não poupou a comicidade da questão: o que significa tornar-se mestre ou doutor de seu próprio trabalho?

As mesas-redondas promovidas na Pinacoteca por Trópico têm procurado seguir um formato que convida um especialista “teórico” e uma personalidade mais engajada nas vias “práticas”. O tema de abril, “Arte e periferia”, parecia voltado para outra ordem de interesse. Em termos. O debate foi provocado a partir das apresentações da artista Mônica Nador e do professor e crítico de arte Paulo Sergio Duarte. O empenho de inserção artística de Nador em camadas sociais carentes tornou-se seu projeto de doutoramento no Departamento da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. É um caso que pretende levar para a Universidade uma pesquisa de campo (a implantação do Jamac - Jardim Miriam Arte Clube) que só poderá ser abordada de maneira ampla, estabelecendo uma correspondência entre as expectativas do trabalho artístico e científico com as bases para uma transformação social.

Mas será que essa divisão é assim tão clara como a enunciamos? Não haveria um “modo de pesquisa integrada”, um caminho para “transcender a antinomia entre modos de conhecimento subjetivista e objetivista”? Este divórcio entre a teoria e a pesquisa empírica é a “armadilha reducionista” que o sociólogo Pierre Bourdieu (1930-2002) denunciou incessantemente em seus escritos e entrevistas. Cabe citar em particular sua obra “Homo academicus”, um pensamento que se debruça sobre a objetivação científica e o sujeito dessa objetivação. Bourdieu afirma a prática da sociologia como uma “socioanálise”: “O sujeito da objetivação é ele-mesmo objetivado”.

O problema foi levantado com alvo preciso: a classe intelectual e universitária, acostumada a atravessar toda sorte de rituais de enunciação. Mas a dúvida que sempre pairou acerca do artista é se lhe cabe também, ou melhor, se a sociedade deve cobrar-lhe a tal da virtude intelectual. “Bête comme un peintre” (burro que nem pintor), afirmou certa vez Marcel Duchamp (1887-1968), uma assertiva cujo objetivo era ironizar a inteligência meramente retiniana e reivindicar o ingresso do conceito na prática artística: “A pintura não deve ser exclusivamente visual ou retiniana. Ela deve interessar também a matérica cinza, a nosso apetite pela compreensão…”.

Não obstante, a ECA confere títulos de mestre e doutor em “Poéticas Visuais” a “pintores”, só para ficar no exemplo duchampiano, mediante a escrita de uma monografia e a apresentação de “obras” em algum espaço público da cidade (o Centro Universitário Maria Antônia vem cumprindo esse papel). Outros artistas, cada vez mais numerosos, preferem receber essa titulação em departamentos reconhecidos por sua pluridisciplinaridade, como os cursos de Comunicação e Semiótica e o da Psicologia Clínica, ambos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), dialogando menos com seus pares do que com filósofos ou cientistas sociais. Em março deste ano, o programa de pós-graduação stricto sensu da Faculdade Santa Marcelina foi recomendado pelo Conselho Técnico Científico da Capes, abrindo uma nova possibilidade de mestrado em produção, teoria e crítica em artes visuais.

Se falar criticamente de si mesmo já é um estorvo para um pensador, devem ser considerados ainda alguns problemas sem a menor chance de obter uma resposta unívoca:


1. “É possível ensinar alguma coisa que não se aprende?” -pergunta de Bourdieu formulada em Limoges (30/10/1977), numa intervenção intitulada “Ce que parler veut dire” (O que falar quer dizer).


2. Qual o conjunto de disciplinas que compõe a formação de um artista “plástico” no Brasil?


3. Como a prática de um artista contemporâneo, sujeita a tantos imponderáveis (estar na hora e no lugar exatos com o curador certo, é um entre milhares), consegue se adequar ao formato acadêmico de dissertação e tese, com método, citações fundamentadas, bibliografia, notas de rodapé etc.?


4. O que resta à exposição (isto é, o trabalho “prático” que acompanha a monografia) a não ser virar pálida ilustração de uma teoria forjada para uma finalidade estranha? A criação necessita de tantas justificativas? Sistematizar não acarreta o declínio da experimentalidade livre?


5. O artista seria então capaz de desempenhar uma tarefa similar à do crítico?

Recentemente, três dissertações de artistas me deram enorme prazer de ler e ver, tendo conseguido se articular autonomamente como “obra” e interrogação crítica, sem sacrificar a inventividade ao rigor científico. São elas: “Marcelo do Campo (1969-1975)”, de Dora Longo Bahia (sob orientação do prof. Marco Giannotti, ECA, 2003), “A de Arte – A Coleção Duda Miranda”, de Marilá Dardot (sob orientação do prof. Milton Machado, UFRJ, 2003) e “A obra como lugar do texto, o texto em lugar da obra”, de Carla Zaccagnini (sob orientação do prof. Martin Grossman, ECA, 2004). É dela que extraí perguntas como estas:

“Pensar os limites da universidade como terreno (...) para a análise e para a realização de projetos artísticos. (...) De que maneira a produção artística pode ser inserida e analisada na academia; em que ponto ela se aproxima e se afasta do conhecimento científico; quais os critérios de que a universidade dispõe para avaliar seus processos e resultados; por que motivos pode interessar ao meio universitário a inclusão da pesquisa artística entre seus campos de estudo e, paralelamente, quais as razões pelas quais os artistas se voltam para o ambiente acadêmico? (...)”.

Como se vê, minhas escolhas se atém a dissertações que driblaram o problema da “teorização do eu” e se aventuraram pelas veias de uma ficcionalidade ou pelo menos colocando uma certa distância. Não estou afirmando que não existam boas teses com o pressuposto de organizar em etapas uma atividade que não conta mais com a benevolência da inspiração romântica.

 Mas chamo a atenção para o fato de Dora Longo Bahia e Marilà Dardot terem criado “personagens conceituais”, ou seja, a voz de uma terceira pessoa: a primeira inventou um tal de Marcelo do Campo, jovem artista nascido em 1951, que teria trabalhado em São Paulo entre 1969 e 1975; a segunda mostrou a coleção de um suposto colecionador, chamado Duda Miranda, que não compra nenhuma obra, mas as refaz. Ambas as artistas perfizeram uma homenagem a Marcel Duchamp (tradução de Marcelo do Campo), cada uma apresentando com bastante argúcia, tanto nas obras como em seu texto, alguns dos conceitos cruciais da produção contemporânea: autenticidade e autoria, cópias, falsificações e apropriações, feminismo e discurso dos gêneros, entre outros.  

Para compor este quadro, Tadeu Chiarelli foi convidado na qualidade de historiador da arte e professor da ECA, mas, sobretudo, porque sempre deixou claro entre seus colegas que não participa de banca de artistas. Ele deverá desenvolver os seguintes tópicos: que tipo de monografia teórica, ou de “escrita”, esperar de um artista?; quais os motivos que levam esse artista a passar por esse ritual?; como poderia ser aprimorado?; qual a natureza do discurso produzido quando o sujeito é simultaneamente objeto e agente de sua investigação?; que subjetividade defender, que cientificismo imaginar?

Por último, permitam-me mencionar que os funcionários e docentes do ensino público paralisaram seu trabalho desde o final de maio, reunindo as Universidades de São Paulo (USP), as Estaduais Paulista (Unesp) e de Campinas (Unicamp). O presente encontro não deixa de ser uma atividade de auto-reflexão política.



O texto acima é uma adaptação da palestra de abertura da mesa-redonda “Trópico na Pinacoteca: arte e universidade”, realizada em 26/06/2004 na Pinacoteca do Estado, com a participação de Carla Zaccagnini (artista) e Tadeu Chiarelli (professor da ECA/USP, historiador da Arte e curador do MAM/SP). A coordenação foi feita por Lisette Lagnado.


 

 


 

Lisette Lagnado
É crítica de arte e curadora independente, coordenadora do Arquivo Hélio Oiticica (Projeto HO e Instituto Itaú Cultural), autora de "Leonilson - São Tantas as Verdades" (DBA) e editora de Trópico e da seção "Em Obras".

1 - E-mail de Aracy Amaral, professora titular (aposentada) em história da arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (transcrito com sua autorização). Dirigiu o Museu de Arte Contemporânea da USP entre 1982-1986.


2 - Cf. entrevista televisada, Filadélfia, NBC, 1955.


3 - Cabe lembrar que tanto Marco Giannotti como Milton Machado são artistas em plena atividade. A respeito da posição do artista dentro da universidade, remeto o leitor à revista “Ítem”, nº 5 (Rio de Janeiro, 2001), que publicou uma entrevista com Milton Machado, da qual destaco o seguinte trecho: “O que tenho procurado sugerir a meus orientandos é um salto em distância (se para isso for necessário um recuo, que seja para ganhar impulso), um movimento de translação e transposição para outras salas, encorajando-os a escrever sobre algo que me pertença tanto como pertence a eles, porque pertence a todos, ao território das exterioridades onde os trabalhos se encontram, e se separam. Se um estudante me oferece uma tese onde discuta, digamos, a questão da paisagem, ou do informe, ou da planaridade, ou do corpo, ou do espelho, ou da nuvem, ou do falso (estou exemplificando com questões que estão sendo de fato abordadas por estudantes do curso), terei muito mais interesse em ver sua produção de objetos que lidem com a questão da paisagem, do informe, da nuvem, etc. E mesmo que escrever, e escrever teoria, continue representando uma dificuldade, melhor uma teoria em débito com o escrever e com a teoria do que com o próprio trabalho.”


4 - Termo cunhado por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Cf. “O que é a filosofia” (1991).

 
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