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Poéticas visuais sob o olhar da crítica

Eis que chegou a vez dos críticos de arte se manifestarem no debate. Cauê Alves diz-se pessimista por considerar “conservador” o movimento dos artistas em busca da universidade, “depois de todo o esforço da arte moderna de romper com a academia, de buscar instâncias distantes e de acabar com qualquer tipo de norma dentro da arte”.

Ao comentário, emendaram-se duas perguntas: “Quero saber, então, se é possível fazer um trabalho relevante fora da academia, fora desse espaço normatizado, fora do espaço consagratório? Porque, hoje, não tem mais o salão de arte, mas tem a bienal de arte, tem a universidade; são todas instituições que ocupam o mesmo espaço historicamente. Parece que está tudo muito conformado e o máximo que a gente pode fazer é burlar umas regras para tentar modificar uma coisinha mínima”.

Em vez de conformismo, Carla Zaccagnini classificou de “estratégia” o que foi anteriormente chamado de “burla”: “Acho que é uma crença na soma de pequenos esforços, de uma pequena mudança aqui, de outra pequena ampliação ali”. No entanto, o também crítico de arte Guy Amado trocou apenas o vocábulo “conformismo” por “comodidade”: “Nesse sentido, eu queria lançar uma pergunta sobre uma coisa que eu vejo como um impasse ou um contra-senso. Ainda no modelo de poéticas visuais da USP, parece haver uma premissa, a meu ver algo surreal, de um artista se tornar doutor no próprio trabalho. Não é uma situação peculiar?”.

A mediadora Lisette Lagnado adotou a expressão e passou a pergunta para Ana Maria Tavares: “Ana, você que é doutora no próprio trabalho, pode falar um pouco sobre esse processo?”. A artista não hesitou: “Eu nunca falei isso para eu mesma, que eu seja doutora no meu próprio trabalho”. Lagnado insistiu: “Você é especialista no seu trabalho, é isso?”.

Tavares rejeitou o termo -se não pejorativo, preconceituoso- mais uma vez, e fez críticas à política de ensino na pós-graduação da ECA. “Quando eu comecei a me envolver com a USP (em 1995) o mestrado era feito em quatro anos. Hoje, ele é feito em dois anos, e eu fico muito assustada quando tenho que orientar artistas para fazer o mestrado neste prazo. É terrível. Eu fiz o meu doutorado em cinco anos e fui até o último momento do meu prazo, o que me deu a chance de construir um corpo de trabalho enorme: muitas instalações, muitas obras, muitas exposições, muita discussão. Eu não pude me doutorar em mim mesma, mas pude ler e ter contato com outras teorias, outros pensamentos e outras áreas do conhecimento, para ampliar o escopo daquilo que eu estava construindo”, disse.

De qualquer forma, a expressão “especialista em si mesmo” não parece referir-se a todo agente de pesquisa que toma como “objeto” o desenvolvimento da própria produção. Afinal, o relato do processo acadêmico é um procedimento que a universidade exige de todos os candidatos à livre docência. A metodologia está implícita, inclusive, na acepção de “poética” como “síntese operativa do fazer-pensar”, segundo a formulação do artista Julio Plaza (1938-2003), autor da frase que diz ser “mestre” aquele que domina as regras de seu jogo.


 

José Augusto Ribeiro
É jornalista, membro do conselho de editorial da revista "Número".

 
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