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Ao mesmo tempo existe a impossibilidade de ter uma estrutura social que não conte com um aparato desse tipo. Ela tem que existir, é inevitável, não adianta acreditar na idéia mágica de que, eliminando a polícia, os bandidos desaparecerão automaticamente. O Estado, pelo menos da forma verticalizada como nós pensamos, necessita da polícia. Quis criar uma imagem diferente, mas sem nenhum sentido pragmático. Seria de uma ingenuidade total. Criei o nome para mim mesmo.


Ele é o policial que a sociedade brasileira gostaria de ter?

Garcia-Roza: Acredito que sim. Ele é uma pessoa normal, com dúvidas e angústias, não é um super-herói. Ele é verossímil, o leitor tem a impressão que pode encontrá-lo na rua. Isso foi algo que procurei, queria um personagem que tivesse esse atrativo. Achava que o interesse por ele não viria de dotes excepcionais. Ele não precisava voar nem namorar todas as mulheres do mundo.

Fui desenhando o Espinosa até chegar a um ponto em que não podia mais avançar. Se eu delineasse demasiadamente o personagem, eu já o apresentaria pronto para o leitor. Precisava deixá-lo um pouco em branco para que o público pudesse conhecê-lo aos poucos. Adoro o Espinosa. As pessoas me param na rua e perguntam sobre o próximo livro.


O senhor procura utilizar a ficção para retratar a polícia?

Garcia-Roza: O Espinosa se dedica à polícia, apesar de ser um excêntrico, um estranho no ninho. Essas características não o impedem de conhecer a estrutura e a corrupção. Agora, os outros personagens expressam o que é de fato a instituição, tanto que são pouquíssimos os policiais em quem ele confia. Mas não quero carregar demais nessas cores. Corro o risco de levar minhas tramas para dentro da polícia e cair num dualismo que não leva a nada.


 

Quais características o Espinosa herdou do seu criador?

Garcia-Roza: Não sei direito como é o Espinosa, mas acho que não temos nada a ver fenotipicamente.  Ele é alto, mas não muito, é mais para magro e tem 42 anos. Agora, indiscutivelmente, qualquer personagem da literatura tem como matéria-prima o imaginário do autor. Deve ter muito de mim no Espinosa, mas eu não saberia dizer o quanto. É possível que num personagem eu expresse mais meu lado critico, no outro, meu lado obsessivo, e, no terceiro, meu lado mais apaixonado. Isso vale para homens, mulheres, bandidos e mocinhos. Nunca copiei nenhuma característica de alguém. Nenhum personagem criado por mim é o retrato de uma pessoa real.


O senhor já teve alguma notícia sobre a atração que o delegado exerce sobre as mulheres?

Garcia-Roza: O Espinosa tem um público leitor feminino espantoso. É curioso porque a imagem física dele não é necessariamente sedutora. A mulher tem um tipo de sensibilidade muito própria e ele toca nisso. A sedução dele é de outra ordem, não é a do galã americano de cinema.
Talvez o público feminino dos meus livros seja maior do que o masculino. O interessante é que nada disso foi proposital.


A criação de personagens brasileiros ajuda a popularizar a literatura policial no país?  Qual sua análise sobre o investimento das editoras no gênero?

Garcia-Roza: Acredito que sim. Felizmente as editoras descobriram o gênero. Literatura policial vende, não tem encalhe. A Record e a Companhia das Letras lançaram coleções específicas, com edição caprichada e texto bem cuidado. A literatura policial tem cem anos de sucesso. Que poder é esse que ela tem de capturar o leitor? Acho que é o mesmo que a tragédia grega tinha. Ela era feita para ser encenada em praça pública com participação popular. O coro era formado pelos cidadãos, e os espetáculos atraíam a multidão.  Por quê? Porque as tragédias falavam dos dramas, medos e fantasmas do povo.

A literatura policial faz isso. Ela não chega se vangloriando metafisicamente como grande discurso da verdade. Por que as pessoas dizem que não conseguem largar o livro enquanto não chegam ao fim? Por que é muito bom? Os outros gêneros também são muito bons, e as pessoas ficam com um livro durante um mês. Por que isso não acontece com a literatura policial? Porque ela entra no leitor como um vírus. É preciso resolver tudo rapidamente.


O leitor sente as ruas do Rio nos seus livros. Como é a sua relação com a cidade? O senhor costuma andar muito pelo centro e por Copacabana?

Garcia-Roza: Adoro andar pela cidade, principalmente por Copacabana, onde nasci, e pelo centro. Conheço muito bem o Rio, mas não nunca tinha entrado numa delegacia de polícia. Só visitei o lugar quando estava na metade de “O silêncio da chuva”. Falei com um amigo, advogado criminalista, e ele me levou na delegacia da praça Mauá. Assim que entrei, pensei: “Não há romance que resista a uma coisa dessas”.

A impressão que tive é que estava entrando num grande banheiro público. Achei que o Espinosa não poderia continuar ali, ele precisava trabalhar num lugar minimamente civilizado. Fui vendo outras delegacias até achar a 12ª DP em Copacabana. Também resolvi, depois que soube quanto ganhava um inspetor, promover o Espinosa. Mas eu gostava muito da vizinhança da praça Mauá: as boates, o cais do porto e o edifício onde funcionava a Rádio Nacional. Aquele lugar é curiosíssimo. Parece que a delegacia de lá foi reformada, dava até para o Espinosa voltar para o lugar onde tudo começou.



Algum policial já fez comentários sobre seus livros?

Garcia-Roza: Achava que os policiais pudessem ser meus leitores, já que os livros falam do universo deles, mas eles não lêem. Quando começam a se interessar pelos livros já são delegados. Tenho poucas notícias da repercussão dos meus romances nesse meio. Uma ex-aluna casada com um policial me deu um retorno e um delegado que conheci também comentou uma das minhas obras. Tenho a impressão de que, se percorrer as delegacias e dizer  “sou fulano de tal, autor dos livros tais e tais”, ninguém vai saber do que estou falando. O problema é cultural.



 

Ana Paula Conde
É jornalista e mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense.

 
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