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dossiê
FICÇÃO

Garcia-Roza: “A violência do Rio é estúpida e não serve ao romance policial”
Por Ana Paula Conde

O criador do detetive Espinosa explica por que os problemas criminais do cotidiano não servem à sua literatura


Luiz Alfredo Garcia-Roza sempre foi apaixonado por literatura policial. Mesmo com o tempo apertado e dividido entre as aulas, a orientação de teses, a coordenação do programa de pós-graduação em teoria psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sem falar na preparação de livros de psicanálise e filosofia, ele arranjava tempo para ler Arthur Conan Doyle, Raymond Chandler e Dashiell Hammett, alguns de seus autores preferidos. 

A partir de 1996, quando lançou seu primeiro romance policial, “O silêncio da chuva”, o gênero literário saiu do segundo plano para o papel de protagonista. Motivado pelo prêmio Nestlé de literatura e pelo prêmio Jabuti, ganhos com a obra de estréia, Garcia-Roza decidiu deixar a vida acadêmica para se dedicar unicamente à literatura.

Para surpresa do autor, seus livros não só ganharam a simpatia do público como viraram best-sellers. Juntos, “O silêncio da chuva”, “Achados e perdidos”, “Vento sudoeste”, “Uma janela em Copacabana” e “Perseguido”, todos da Companhia das Letras, venderam 90 mil exemplares no Brasil. “Fiquei assustado. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. A própria feitura de um best-seller supõe quase uma fórmula e eu não sigo nada disso”, afirma o autor.

E não é só no Brasil que as novelas policiais de Garcia-Roza fazem sucesso. Suas histórias também foram lançadas na Espanha, Estados Unidos, Portugal, França e Grécia. Além de atravessar o oceano, as tramas do autor carioca vão em breve ganhar as telas dos cinemas. O diretor José Joffly está na fase de produção de um filme baseado em “Achados e perdidos”. “Vento sudoeste” foi vendido para a produtora Ana Maria Bahiana. “Ela vai fazer um filme e uma série para a TV”, conta Garcia-Roza.

Um dos principais responsáveis por todo esse sucesso é o delegado Espinosa, personagem presente em todos os livros do autor. Ele não é um super-herói, é um homem comum, com dúvidas e angústias, que cumpre com responsabilidade, inteligência e honestidade suas funções como titular da 12ª DP, em Copacabana. Ele conhece a corrupção que ronda a delegacia e sabe muito bem em quem pode e em quem não pode confiar, mas vai levando, sabendo que pouco pode fazer para mudar essa estrutura.

Garcia-Roza gosta e quer continuar fazendo ficção. Não interessa ao autor retratar com fidelidade a violência que marca cotidianamente o Rio. As ruas do centro e de Copacabana, bairro onde nasceu, em 1936, e os problemas que atingem a cidade estão nas páginas dos seus livros, mas tudo é usado apenas como elemento de fundo para a criação de suas tramas. “Os acontecimentos policiais do Rio servem somente para me manter dentro da temperatura da cidade. Nada mais do que isso. Não tenho interesse em saber detalhes. A violência da cidade não é sedutora”, afirma.

O autor já começou a escrever o próximo livro. Ele tem passado os dias em frente ao computador do seu escritório no centro, de onde se vê a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Para tristeza dos leitores, Espinosa não será personagem da nova obra. “Ele vai tirar umas férias”, diz o escritor, que promete trazê-lo de volta brevemente.

A seguir, Garcia-Roza fala sobre sua antiga relação com a novela policial, do interesse das editoras e da persistência do preconceito em relação a esse gênero literário.


Como é escrever romances policiais em uma cidade marcada pela violência, como o Rio?  Isso instiga o senhor de alguma forma?

Luiz Alfredo Garcia-Roza: Não sou de maneira alguma provocado a escrever novela policial em função da violência da cidade. Ela é grosseira, estúpida, ignorante e inteiramente gratuita. Não tem nada de sedutora, nem sequer tem o lado cerebral dos grandes crimes. Acho que a alta taxa de criminalidade também não instiga o leitor. Se ele se sentisse tão tocado pela violência nem precisaria ler. Por que alguém escreve um livro policial? Porque pode matar quem quiser sem ser preso e sem que ninguém morra efetivamente.

Na literatura, a violência pode se exercer e se expressar no universo da fantasia. Fico imaginando Dostoievski, com a fragilidade física dele, criando Raskolnikoff, de “Crime e castigo”, que mata duas mulheres a machadadas. A literatura permite que os demônios venham à tona. Os demônios assassinos, os psicopatas e os sexuais emergem, e o autor, de certa maneira, os doma. O escritor é um domador de demônios. É preciso deixar a loucura aflorar e usar a razão para transformar tudo isso literariamente. Esse é o grande fascínio de ser escritor.


A violência do Rio não dá um bom romance?

Garcia-Roza: Acho que não. Não se trata da violência do civilizado, que se civilizou tanto que precisa dar conta dos seus demônios recalcados. A criação não se faz pela pura soltura da boçalidade. Ela se faz exatamente desse jogo da loucura com a racionalidade. Essas duas coisas precisam estar juntas. Se a pessoa só tiver a racionalidade, será um chato; se só tiver a bestialidade, será um louco. A capacidade de juntar essas duas coisas e de transformá-las numa expressão inteligente é que faz o grande escritor, o grande poeta, o grande pensador.


O senhor acompanha o noticiário policial de maneira diferente depois que começou a escrever?

Garcia-Roza: Não. Nunca tive interesse pelo noticiário policial. Conversei uma vez com o José Louzeiro sobre isso. Ele é jornalista e a literatura que faz é baseada na sua atividade profissional. Ela tende, de alguma maneira, a ter um caráter quase documental. Sigo outro caminho, faço mesmo ficção. Os acontecimentos policiais servem somente para me manter dentro da temperatura da cidade, nada mais do que isso. Se não fizer assim, o autor começa a espelhar a realidade e pára de criar. E o que me fascina é a atividade criativa. Mesmo no hospital de “Perseguido” procuro o mínimo possível jogar com minha experiência universitária. O campus tem três hospitais. Peguei características de cada um deles para evitar o registro descritivo.


Como começou seu interesse por esse tipo de literatura?

Garcia-Roza: Foi na adolescência. Comecei lendo os clássicos: Conan Doyle, Raymond Chandler e Dashiell Hammett. Logo percebi que ali havia um mundo próprio e que aquele universo literário tinha uma particularidade encantadora. Nunca mais parei de ler novela policial. Minha vida sempre foi pautada por três interesses: literatura policial, teoria psicanalítica e filosofia. Sou um pouco o retrato dessa tripartição. Comecei a ler muito cedo, e a literatura foi me encaminhando para outros autores, que eram mais da área de filosofia. A psicologia e a psicanálise vieram num segundo momento.

 
Quais elementos mais atraem no gênero?

Garcia-Roza: Curiosamente são os mesmos que me atraem na filosofia e na psicanálise. São os temas centrais do homem: a morte e a sexualidade. É a matéria-prima do mito, da tragédia grega, da literatura e da psicanálise. Todos trabalham as mesmas questões com abordagens diferentes.

A literatura policial pega tudo isso, que é um pouco marginal nos outros campos, e coloca no próprio cerne da sua trama, quase em estado bruto. A forma como ela entra em temas quase sagrados sempre me fascinou. Quando comecei a me interessar pelo gênero não me dava conta de que isso era um fator de atração. Tenho um longo caso de amor com a novela policial. Mesmo quando estava nos meus momentos mais ocupados intelectualmente, trabalhando uma tese ou coordenando uma pesquisa na universidade, sempre havia espaço para ela.


Quais são seus autores preferidos?

Garcia-Roza: Tenho vários preferidos. Raymond Chandler e Dashiell Hammett, sem dúvida alguma, estão minha lista. Ross MacDonald e Cornell Woolrich são magníficos. Patricia Highsmith é uma belíssima escritora.  Teria uma relação de dez autores para citar e, quando chegasse ao décimo, teria outros dez.


Ainda existe preconceito com a literatura policial?

Garcia-Roza: Sim, existe. Ainda enxergam a literatura policial como entretenimento. Como se ela, de alguma forma, fosse música de elevador, feita apenas para distrair por um momento. Qualquer literatura te arranca da realidade e te remete para um universo de fantasia, provocando seu imaginário. Isso não é negativo. Muita gente diz que não há mais preconceito, mas é perceptível que certos autores, que se dedicam a outro tipo de literatura, se consideram numa posição privilegiada. Mas não me importo minimamente com isso.

Acho um privilégio um romancista demorar seis anos escrevendo um livro, procurando o que há de mais precioso na linguagem, garimpando a palavra certa, como o pintor procura a cor ideal, mas não porque esteja fazendo outro tipo de literatura. Se estivesse escrevendo um livro policial dessa mesma forma estaria sendo especial também. É isso que faz Cornell Woolrich, Dashiell Hammett e Patricia Highsmith grandes escritores.


O senhor deixou a universidade para ser escritor policial. Como a academia reagiu a esse fato?


 
Garcia-Roza: As pessoas ficaram pasmas quando eu cheguei e disse: “Muito prazer, gostei muito de estar com vocês, mas tchau!”. Causou espanto eu ter deixado tudo depois de 40 anos de vida acadêmica. Nunca havia feito outra coisa na vida a não ser ensinar. Esse corte radical impressionou.


O senhor ainda tem algum tipo de contato com a vida acadêmica?

Garcia-Roza: Minha vida universitária acabou há seis anos. Nem sequer participo de bancas, seminários e congressos. Isso tudo era o meu dia-a-dia, meu feijão com arroz. Era rara a semana em que não participava de banca de tese ou de algum seminário. Fora as aulas e a orientação de pesquisas e teses. Houve efetivamente uma mudança radical.


Foi uma decisão planejada?

Garcia-Roza: Não foi uma decisão trabalhada durante muito tempo, mas não foi um arroubo emocional, um momento de ódio à universidade. Pelo contrário, minha vida na academia foi muito boa, gostava imensamente de dar aulas. A verdade é que me dei conta, e é muito difícil dizer essas coisas, que dali para frente iria continuar somente no impulso. É como se minha atividade criadora estivesse minguando, como se eu estivesse caindo numa repetição. Quando imaginei que seria assim dali para frente achei melhor sair. Eu não estava devendo nada à universidade e nem ela estava me devendo.  Em menos de um ano decidi fazer isso e fiz.


Qual o papel de “O silêncio da chuva” nesse processo?

Garcia-Roza: O livro foi lançado antes da minha saída da universidade. Ele foi escrito em um ano, concomitantemente a esse processo. Quando chegou às livrarias eu não imaginava qual seria o resultado. Nunca havia escrito ficção na vida, podia ser um total fracasso. Fiquei surpreso com o fato do meu primeiro livro ter ganho dois prêmios: o Nestlé de literatura e o Jabuti. Vi que era possível ser novelista policial e decidi cortar a universidade. Só faço agora alguns seminários de filosofia em São Paulo. É difícil, impossível, largar a filosofia.


Como é seu processo de criação? O senhor parte de uma estrutura fechada?

Garcia-Roza: Sou um anárquico escrevendo. Parto de uma estrutura básica, de um desenho mínimo, que não chega nem a ser uma espinha dorsal. O restante vai sendo escrito paralelamente à feitura da história. Vou sendo, de certa forma, levado pelos personagens.  Soube que a P. D. James começa um livro sabendo como vai ser a ultima página. Fico fascinado por um negócio como esse. É quase uma atividade burocrática, arquivista.  Ela não é surpreendida nunca e, no entanto, é uma bela escritora.


Por que a escolha do nome Espinosa?  

Garcia-Roza: Ele foi um pensador com uma cabeça brilhante, uma racionalidade incrível, um pensamento profundamente ético e, ao mesmo tempo, um homem do desejo e do afeto. Pensei: “Quem sabe com esse nome a gente não cria uma outra imagem para o policial, que não seja a de um troglodita, de um torturador?”. Queria romper com a visão que tinha desde o tempo da ditadura do Vargas, piorada por 20 anos de ditadura militar. Vemos a polícia como repressora, torturadora e grosseira.

 
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