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Quando você analisa as fotografias de Sebastião Salgado e as compara com as de Lewis Carroll, terá resultados surpreendentes. Porque Lewis Carroll pegava aquelas crianças, meninos e meninas, vestia-os como mendigos e os fotografava. E era uma beleza. Então há uma perversidade no olhar de Lewis Carroll que existe também na arte de Sebastião Salgado. E isso destruiria a questão da estetização, pois haveria um olhar perverso por detrás da câmera. É um olhar perverso que monta aquelas imagens das crianças pobres da Ásia, da África, do Brasil etc. É essa perversidade que é fascinante e que me impede de olhar o trabalho apenas como estetização da pobreza.

Mas o grave é que as pessoas só vêem assim, como estetização da pobreza. Os bancos internacionais que o patrocinam constantemente, pois já vi em vários lugares do mundo exposições do Salgado financiadas por bancos, não são capazes de descolorir essa estetização e perceber que há lá coisas fundamentais sobre nossa relação com a pobreza, sobre a nossa relação com a infância, sobre os nossos sentimentos mais íntimos e que nos levam a escolher aquilo como objeto.

Então, eu proporia que nós víssemos essas obras, que são muito bonitas, esteticamente muito bem realizadas, muito coerentes, mas sem cair nessa arapuca da estetização. É outra situação, mas que requer que se entre nesse mundo de uma maneira nova, sem maniqueísmos, de total apoio e solidariedade -ou de total rejeição.


Como o senhor pensa a relação entre crítica literária e verdade?

Santiago: Há que distinguir discursos. Existe o discurso do historiador da literatura, cujo instrumental quanto mais científico for, melhor. E aí há todo um trabalho a ser feito, pois continuamos a fazer história da literatura a partir de estilo de época. Isso tem de acabar. Mesmo nossos últimos grandes historiadores da literatura, Afrânio Coutinho e Antonio Candido, incorrem nisso, e quando Haroldo de Campos faz uma incursão na historiografia literária, vai para o barroco.

Um segundo ponto seria o daquele crítico que tem uma metodologia muito rigorosa, e que eu admiro. Fica óbvio que a metodologia mais rigorosa que temos hoje é a marxista. E Roberto Schwarz seria o grande exemplo no Brasil, enquanto Fredric Jameson seria nos Estados Unidos.

O grave problemas deles, para usar uma imagem do cinema, é que têm um elenco pequeno. Aquilo não dá conta de uma certa grandeza que a literatura tem, mesmo quando ela é só boa, ou até mesmo quando ela é medíocre. Eles não conseguem dar conta.

Por exemplo, para Roberto Schwarz, o século XIX é basicamente Machado de Assis, com um elemento periférico em José de Alencar, e no século XX é Oswald de Andrade, com Mário de Andrade na periferia.

Não sei, por exemplo, o que o Roberto pensa sobre Drummond, sobre Bandeira. O elenco é pobre. O que aparece é lido com grande maestria, mas as ausências me incomodam, além do sistema que ignora as coisas simplesmente boas e as medíocres, que também são importantes.

A terceira categoria, na qual me incluo, é a do ensaísta, do livre-atirador. Que deve ter referências as mais precisas possível -no meu caso, a referência mais óbvia seria a condição pós-moderna e, por outro lado, aquilo que a partir da Inglaterra se chamou de crítica cultural. E essas duas referências não são metodologias rigorosas de leitura, não formam sistema. E, por isso, é claro que pecarei por excesso, porque meu elenco é muito vasto, para usar minha crítica aos marxistas. Para mim os figurantes são tão importantes quanto os atores de apoio e as estrelas, e tento dar conta disso com base em minhas leituras e minha obra de ficção.


 

 

 

 

Carlos Eduardo Ortolan Miranda
É tradutor e crítico, mestrando em filosofia na USP.

 
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