1
dossiê
FICÇÃO

Silviano Santiago: “Literatura é paradoxo”
Por Carlos Eduardo Ortolan Miranda

O escritor comenta seu novo romance, "O Falso Mentiroso", lançado pela Rocco, as memórias de um artista-falsário

Dono de forte veia polêmica, o escritor e ensaísta Silviano Santiago sempre buscou enfrentar, seja em sua obra ficcional, seja na teórica, as questões do mundo contemporâneo. O leque temático na entrevista que se segue abrange das estéticas da chamada pós-modernidade às relações entre a violência e o discurso, do papel do intelectual periférico latino-americano à transgressão e o universo pop, das artes plásticas brasileiras ao papel ético da imprensa, da fotografia de Sebastião Salgado e da arte engajada à crítica literária marxista.

As provocativas análises de Santiago inscrevem-se na matriz filosófica que provém principalmente de Michel Foucault, Gilles Deleuze, e Jacques Derrida, com recurso à psicanálise de Lacan e aos estudos culturais.

Seu novo romance, “O Falso Mentiroso” (ed. Rocco), as presumidas memórias de um artista-falsário cuja “obra” principal é a reprodução esmerada das xilogravuras de Goeldi, é inspirado no romance picaresco espanhol, no Machado de Assis de “Brás Cubas” e em Manuel Antônio de Almeida e Oswald de Andrade.

Na obra, a apreciação particular do autor da experiência da modernidade em contexto periférico o conduziu a adotar, do ponto de vista estilístico, uma voz narrativa que atravessa o registro do sublime e do grotesco.


O livro combina referências eruditas da alta cultura (Machado, Platão, esforços de cosmogonia e laivos psicanalíticos acerca da formação da subjetividade) ao universo das letras de canção popular e do cinema, do circo e da política brasileira, do erotismo e da linguagem escrachada.

Decorrem daí as antinomias verdade-falsidade, o papel e função da arte realista e da mimese, a idéia de originalidade e mesmo a da construção da identidade subjetiva como similar ao trabalho ficcional, tematizadas no romance, desvelando os vínculos inescapáveis entre arte e pensamento.

A partir desse “saco de gatos” de referências e multiplicidades analíticas, como define Santiago a “balbúrdia da pós-modernidade”, pontos vitais do sentimento de perturbação da cultura e da política do mundo em que vivemos são vistos por uma perspectiva que busca não elidir a complexidade dos temas, e que pensa a realização da obra de arte como atividade reflexiva (embora, como confesse o autor, não sistemática em sentido forte), e talvez fosse justo afirmar, a reflexão como construção artística.

 

Silviano Santiago, nascido em 1938 em Formiga, Minas Gerais, vive há décadas no Rio de Janeiro. É ensaísta, crítico literário e premiado autor de ficção (três prêmios Jabuti nas categorias conto e romance) e colaborador freqüente nos cadernos culturais dos principais jornais e revistas do país.


 
Destacam-se, na sua obra, os volumes de ensaios “Uma Literatura nos Trópicos” e “Nas Malhas da Letra”, os romances “Em Liberdade” e “Stella Manhatan” e o livro de contos “Keith Jarrett no Blue Note” (todos pela Rocco).


Seu mais recente romance, “O Falso Mentiroso”, constitui-se, já a partir do título, por uma série de paradoxos: um memorialista que é assumidamente um impostor, um falsário que se julga um modelo de originalidade. Todo é livro é atravessado por essa antinomia  verdade-falsidade, o que gera toda a sorte de duplicidades e ambiguidades. Como se dão essas ambiguidades e como se relacionam com o realismo em literatura?

Silviano Santiago: Para falar sobre o paradoxo, eu tenho que me deter no paradoxo maior, que é o que nós chamamos, desde o século XIX, de literatura. Desde esse século ficou bastante patente, mesmo nos movimentos onde a taxa mimética era muito alta, como no realismo/naturalismo, o que se tratava de ficção.

 A ficção é antes de mais nada, enquanto configuração ou definição, uma mentira, uma invenção, uma fabulação. Uma mentira, uma invenção, uma fabulação que acompanhada da palavra “ficção” ou da palavra “literatura” adquire um valor de verdade sobre aquele tema que está sendo tratado. Se por acaso o tema tratado é o Segundo Reinado no Brasil, não há dúvida nenhuma que Machado de Assis seria aquele que melhor mentiu, aquele que melhor falseou, aquele que melhor inventou esse período histórico.

Pelo fato de aquilo ser ficção, adquire um estatuto que deixa aquele discurso, já que no fundo estamos falando de discurso, como uma pedra de toque na análise circunstancial daquele período histórico, econômico, social etc. Esse é o primeiro paradoxo, a constituição da literatura já é alguma coisa de paradoxal.

O que se questiona sempre quando se faz literatura ou se faz arte, de maneira geral, é o que vem a ser o que tradicionalmente o bom senso chama de “realidade”, ou de representação do real, ou representação real. Ela está questionando, mas ao mesmo tempo dizendo que está falando sobre a realidade. Só que está falando sobre a realidade, descrevendo, analisando, criticando a realidade através de um atalho, de um desvio, que é a ficção.

Os paradoxos que você cita, como o do título, por exemplo, é, ao meu ver, a tradução do que é literatura. “O Falso Mentiroso”, na medida em que ele tem um discurso mentiroso, mas ao mesmo tempo afirma que esse discurso é mentiroso, é uma proposição verdadeira. Então estou pedindo ao leitor que tome aquelas proposições como verdadeiras, apesar de que elas podem ser às vezes do memorialista, e podem ser por vezes do ficcionista. Mas essa, se não me engano, é a condição da memória em tempos pós-psicanalíticos.

 A construção da identidade, depois da psicanálise, a questão da identidade é um “constructo”, é uma constante reelaboração, como no conceito de Lacan e de Derrida de a posteriori, après court, que diz que constantemente estamos reorganizando a “placa-mãe” da nossa memória, e essa reorganização da placa-mãe é sempre uma nova invenção de identidade que está sendo proposta.

Foucault também tem uma bela passagem na “Arqueologia do Saber” em que diz: “Por favor, não me confundam com o retrato três por quatro, isso não é identidade”...

Ou seja, importa é a fabulação de si mesmo, o processo de subjetivação. Portanto, existe no tipo de ficção que fiz dessa vez um processo de subjetivação que se apresenta necessariamente como fragmentário. O personagem não tem princípio, meio e fim, como tem um personagem do romance do século XIX, de Balzac. O personagem se apresenta, para retomar uma expressão de Cortázar, como um modelo para armar.

Isso não é novidade na minha literatura, porque em um dos meus romances, “Stella Manhatan”, eu já propunha o personagem constituído como dobradiças, como as da obra de Ligia Clark, por quem tenho enorme admiração. A dobradiça permite que você vá montando placas, que caso não fossem montadas, seriam totalmente planas, chatas e sem nenhum interesse. Então essa montagem é requerida, na medida em que se trata de uma prosa fragmentária.
No limite, meu personagem não é um impostor. Qualquer pessoa que tenha experiência de psicanálise sabe que você está constantemente fabulando sua própria identidade, refazendo a sua identidade, até o momento em que tenha certa tranquilidade em relação àquela construção que você fez.

Em ultima instância é uma atitude literária antiproustiana, não há uma memória involuntária, é uma memória, por assim dizer, beckettiana, na medida em que ela se arruma, mas se dá conta de que aquilo que arrumou é uma armação, no duplo sentido da palavra, de ser construída e, no sentido vulgar, de ser logro, de enganar, a si próprio e ao outro.

Nesse sentido, o livro tem um tour de force, pois em nenhum momento eu usei uma adversativa. Não há o uso das adversativas (“mas”, “porém”, “contudo”), já que o emprego delas neutralizaria o jogo entre falsidade e verdade. A não utilização das adversativas permite, do ponto de vista lingüístico, esse caráter fragmentário da prosa. Isso é importante como proposta de ritmo literário: a rapidez, a agilidade. O livro está sempre caminhando, mesmo que esteja se contradizendo, mesmo que a própria execução dos capítulos demande a releitura.



O seu livro assume tons narrativos muito variados, do sublime ao grotesco, da paródia escrachada à voz filosofante, do romance picaresco ao intimismo confessional. É justo dizer que esses tons narrativos se formam a partir da junção da ironia machadiana e da voz modernista, da utilização de elementos populares e da chamada alta cultura?


Santiago: Eu acho mais justo pensar a pós-modernidade do que propriamente Machado e a modernidade. Mas sem descartá-los, você tem razão, uma vez que a pós-modernidade não descarta esses elementos. Eu diria que o livro está numa tradição européia, ocidental, e em uma tradição brasileira.

Machado está presente, embora o julgamento dessa presença seja de competência da crítica. O pior crítico é o próprio autor.
Já a partir do subtítulo do meu livro, “Memórias”, há a influência de “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, que é, ao meu ver, a melhor expressão em português do chamado romance picaresco espanhol.

Por outro lado, em relação às “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, as alusões são bastante óbvias, e, finalmente, as “Memórias Sentimentais de João Miramar”, de Oswald de Andrade. Esses três livros serviram de objeto de reflexão, de modelo, recorri a eles quando me encontrava em becos sem saída, no meio do trabalho. Muitas vezes a solução vinha dessas leituras, dessas lógicas externas. Nesses três livros você perceberá, não de forma tão escrachada como no meu, que há essa mistura de gêneros.

Aliás, se você toma a própria situação de Machado de Assis dentro do realismo/naturalismo, ele é um autor que foi buscar inspiração no século XVIII, e não na estética dominante, e isso também é importante para mim. Em lugar de buscar apoio na estética dominante e fazer um romance semelhante aos outros que já fiz, que seria a pós-modernidade, eu imaginei que a melhor maneira de me situar nessa pós-modernidade seria buscar modelos que escapam tradicionalmente a ela, como o modelo picaresco do romance espanhol.

O modelo picaresco traz justamente essa vantagem, a mistura de gêneros, e também a possibilidade de manipular elementos que são da alta cultura, da baixa cultura e da cultura pop.

Esse modelo permitiu algumas digressões do narrador, a alusão a Kubrick, a Orson Welles, ao marxismo, ao liberalismo, e assim por diante.
São fábulas que dão uma dimensão da balbúrdia em que nós vivemos. O que quero passar, em última instância, é a balbúrdia da pós-modernidade -e não há possibilidade de ordenar essa coisa. A ordem terá que ser uma ordem bagunçada. Assim como, em determinado momento, Joyce teve de se valer do mito, como explica T.S. Eliot, para ordenar uma situação que pretendia dramatizar.

Eu me vali dessa confusão atual, não diria uma anomia, mas uma balbúrdia. Há um excesso de sons, de palavras, de imagens, um excesso de tudo. Então, para apreender esse excesso, só há a bagunça, o saco de gatos.



Em seu ensaio “Retórica da Verossimilhança”, o senhor afirma, acerca dos descaminhos que encontrava na crítica machadiana, que Machado é essencialmente um romancista “ético”. Em uma passagem de seu novo romance, o narrador afirma que “o ilegítimo é bom”, uma espécie de versão deturpada do platonismo. Quais as decorrências éticas de uma afirmação dessas?


Santiago: Uma extrema deturpação. Ou você toma isso como uma piada, como encontra constantemente em Samuel Beckett, por exemplo, ou pode tomar como uma coisa um pouco mais séria, e aí há conseqüências graves. O que está em jogo é a questão de norma.

A gravidade ética dessa atitude do meu narrador é a afirmação de que “transgredir é necessário”. E uma das maiores transgressões que você pode fazer ao platonismo é afirmar que a cópia é legítima. A cópia, por definição platônica, é ilegítima. Portanto, quando você coloca a cópia dentro de uma clave do sublime, que é uma das propostas do livro, é natural que você possa qualificá-la como boa e como bela.


Porque eu estou formando uma outra cadeia. Uma cadeia que transgride o platonismo, que me permite portanto estabelecer valores que estão mais próximos da nossa condição pós-moderna do que o platonismo.

 
1