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Na volta, paramos num largo chamado Curvelo, onde os acordes inaugurais do Céu na Terra se faziam ouvir. Não estavam sobre um bonde, mas amontoados embaixo de uma pequena construção coberta que serve de ponto de parada. Mais fantasias, algumas marchinhas antigas, os incríveis vendedores de cerveja abrindo passagem pela aglomeração. Chovia. O que, dada a temperatura local, era bom. Mas soube que carioca não gosta de chuva, e o bloco não saiu do lugar. A certa altura decretamos que estava na hora de voltar para casa. Voltamos, descansamos.


Sambódromo

Noite. Tomamos um taxi e lá fomos até o Porcão Rio, uma churrascaria no Aterro do Flamengo, parece, ponto de encontro, chegada e saída para o camarote da Brahma. Fizemos nossas credenciais, ganhamos sacolinhas, um objeto para auto-averiguação do teor alcoólico ingerido, conhecido como bafômetro, que eu, à primeira vista, pensei ser uma escova de dentes.

- Não! Escova de dentes você encontrará nos banheiros do camarote.


Finalmente, recebemos as famosas camisetas com a opção de "costumizá-las".

- Costumizá-las?


- É, se vocês quiserem deixar a camiseta transadinha, personalizada. É só ir até o fundo, onde várias costureiras reformam a camiseta de vocês na hora. Só não pode cortar a logomarca!


Eu não quis, estava bom assim. Caru também não. Lúcia preferiu abri-la um pouco mais, arejá-la. De fato, o calor lá dentro pedia isto. Camiseta de mangas curtas, no Rio de Janeiro, é roupa demais.

Aguardávamos a condução até o Sambódromo em torno de uma mesa de sushis, rodeada de geladeiras repletas de cervejas. Brahma, é claro. Chegou o microônibus, que nos depositou, geladas devido a temperatura do ar condicionado no seu interior, na porta do camarote.


O camarote da Brahma

Logo na entrada, os motivos cinematográficos estavam evidentes: uma grua decorava o pátio, uma pequena rampa atapetada terminava em frente uma tela que projetava trechos de filmes brasileiros. Ao lado desta tela, entrávamos. Depois, vi pela televisão que, no dia anterior, houve uma apresentação de bailarinos, ali na entrada, reproduzindo uma coreografia que me pareceu ser do filme "A Ópera do Malandro", de Ruy Guerra. Não soube por que razão a grua estava instalada: se era uma decoração ou se foi usada para alguma gravação.

Nos identificamos, entramos num grande saguão onde cenários de sala de descanso e bares talvez evocassem algum filme, mas não percebi. De qualquer forma, tratava-se de bares regionais que tocavam músicas regionais -alternadamente- e serviam quitutes regionais simultaneamente. Uma loucura! Garçons perambulavam com bebidas variadas, além daquelas disponíveis em enormes geladeiras espalhadas pelo espaço. Uma festa digna dos tempos do imperador!

Ao fundo, a entrada de uma sala de jantar ladeada de fotos de cena do filme "Olga". Na parede frontal da sala, uma enorme projeção exibia o trailer deste filme. Avançando pelas mesas percebíamos, num nível mais baixo, poltronas para aqueles que quisessem assistir ao trailer. Logo percebi que as cenas do filme eram exibidas nos intervalos dos desfiles, na TV.

Não quisemos assisti-lo. Estávamos lá para ver o desfile ao vivo e a cores. Saímos da sala e nos dirigimos a um largo corredor ladeado de seis grandes telões com as imagens dos filmes brasileiros. Eu sou míope e raramente uso óculos. Percebi, à minha frente, uma sétima imagem mais colorida e definida que a dos telões. Parecia uma tela frontal ao corredor. Um susto! Tratava-se do desfile propriamente dito. Foi emocionante.

O corredor dava para os camarotes e, no Sambódromo, o carro abre alas da Imperatriz Leopoldina, a primeira escola que vimos. O tema parecia ser magia, e a comissão de frente, caracterizada de bruxas, fazia lindíssimas evoluções. De resto, a Imperatriz não me empolgou. Não apreciei a profusão de cores no interior de cada uma das alas, cheguei a comentar que melhor seria escolher um dos tons e "pintar" cada ala de um tom diferente. Além do mais, ainda estávamos nos acostumando com o espaço, servindo-nos de um copo de chope, disputando um lugar perto da janela do camarote. Empoleiramo-nos bem ao lado do janelão, encontramos amigos que se empoleiraram junto com a gente.

No intervalo jantamos, assistimos mais calmamente ao trailer de "Olga" -nos impressionou positivamente pela sua qualidade e intensidade- encontramos mais amigos e voltamos rapidamente para o próximo desfile. Foi mesmo uma noite imperial: Império Serrano ergueu as arquibancadas com o conhecido tema "Aquarela Brasileira".

É muito bom saber cantar o samba-enredo! O desfile tem algo de ritual, e ritual que se presta precisa que todos participem, cada um ocupando seu lugar. É bom o lugar de "fazer a corrente", cantando. Outro passatempo delicioso é tentar decodificar as alegorias e perceber a riqueza da linguagem simbólica dos carnavalescos. Adivinhei quase todas. De fato, algumas escolas demonstram uma bela pesquisa.


Beija-flor

Finalmente a escola que eu mais gostei, por sinal a vencedora: a Beija-flor. Parece que a escola entrou para ganhar: no intervalo distribuiu um leque de papel -muito útil, naquele calorão- e bandeirinhas azuis e brancas, a flâmula da escola. Aquilo que senti falta na Imperatriz aconteceu no desfile da Beija-flor: as alas tinham cores predominantes, tornando-as uma enorme aquarela, faixas de cores no Sambódromo.

A presença predominante de uma cor em cada ala faz com que, paradoxalmente, nosso olho seja atraído também para o detalhe de cada fantasia. Lindas! O tema era a Amazônia, e o primeiro carro falava da derrota dos incas pelas tropas de Pisarro. O samba-enredo era bem legal, e fiquei um tempão dividindo minha atenção entre a leitura da letra e a escola, até decorá-lo. O estribilho, ou refrão, grudava:

"Eh! Manôa


Minha canoa vai cruzar o Rio Mar


Verde paraíso é onde Iara me seduz com seu cantar


 

 

 

 

 

O samba segue bonito:

"Força, mistério e magia


Fruto da energia o meu guaraná"

Até chegar ao ponto que fez Carlão Reichenbach pular:

"Maués, Anauê, cultura milenar

Anauê, Manaus, Mamirauá, viva a Paris tropical!"

- Cuidado! Anauê é um grito fascista!


Me lembrei: é mesmo! Os integralistas gritavam "anauê", em trajes verdes, estendendo as mãos para o alto. Lembrei-me também do Jorge Mautner e do Chico Science, do "Maracatu Atômico".

- Deve ser um grito indígena, algo assim.


- Claro! Macunaíma também gritou anauê. Mas, cuidado, presta atenção. Não se pode gritar essas coisas sem mais nem menos.


Verdade, pensei. Fiquei constrangida em cantar o samba, depois disto. Mas confesso que logo me esqueci. O refrão impregnava. A escola empolgou mesmo. Fiquei muito atenta a algum vestígio de fascismo nas alegorias. Não encontrei. A ala dos curupiras era lindíssima.

Lamentavelmente, não tinha Chico Mendes. Seria um indício? Selva amazônica e curupira sem Chico Mendes… De qualquer maneira, todos os encantados da Amazônia estavam lá. Aqueles que até o presidente Lula, em seu discurso de posse, mencionou. A alegoria das águas era demais.

De qualquer maneira, o grito final da escola foi dado:

"Se Deus me deu vou preservar


Meus filhos vão se orgulhar


A Amazônia é Brasil, é luz do Criador


Avante com a tribo Beija-flor!"

Com tanta água evocada pelo samba-enredo, a chuva começou a cair sobre a Beija-flor. Mas não inibiu a exuberância da escola e seus participantes.


Depois da Beija-flor

Depois da Beija-flor, decidimos descansar um pouco, no salão de jantar. De lá vimos, ainda tematizando a região Norte do país, a Viradouro e o Círio, a famosa procissão de Belém do Pará. De volta ao camarote, notamos que muita gente havia ido embora, mas nem por isso conseguimos pegar o janelão. Nos empoleiramos novamente nas laterais. Sara Silveira nos informou que perdêramos a ala mais bonita da Viradouro: a que representava a procissão do Círio propriamente dita.

Queríamos ficar para a última escola, a Mocidade Independente, que, anunciou a Lúcia, tem uma bateria maravilhosa. De fato, uma loucura: aos primeiros rufares de tambor, todos se levantaram, inclusive minha filha e eu, acordadas da exaustão em que nos encontrávamos. Mas o cansaço, o tema desinteressante, nos fez voltar ao banco, aniquiladas.

Apesar de ter me divertido tanto, a saída do camarote foi terrível. Todo o Sambódromo quis ir embora na mesma hora. Nosso ônibus demorou a chegar. Quando chegou, ficamos horas paradas no trânsito, enrijecidas pelo frio do ar condicionado. Mesmo assim, dormimos, tão cansadas que estávamos. Moral da história: sempre saia depois da Beija-flor.


Em tempo

Este ano poderia ter sido ainda mais carnavalesco. Fui também convidada para o camarote da Prefeitura de São Paulo. Não pude ir. Na última hora, minha mãe sentiu mal, fiquei com ela. Foi minha tia, que seria minha acompanhante. Gostou. Adorou! Ao final do desfile, assim que pisou fora do camarote, foi atendida por alguém que a colocou no ônibus dos convidados. No ponto final do mesmo, foi recebida por outra pessoa que a colocou num táxi. É que a Prefeitura de São Paulo pratica o tratamento preferencial a idosos e deficientes físicos, de acordo com a legislação nacional. Fiquei com orgulho da minha cidade. Bom sair, bom voltar.


 

 


Tata Amaral
É diretora de cinema, realizadora de "Céu de Estrelas", entre outros.

 
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