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FESTA NACIONAL

Uma paulista no Carnaval do Rio
Por Tata Amaral

"Anauê", gritava a Beija-Flor, como integralistas. Fiquei atenta a traços de fascismo. Em vão.


Carnaval

Para mim, carnaval é sinônimo de descanso, de férias longe da cidade. A simples menção da data me faz pensar em retiro nas montanhas. Semanas antes, evito qualquer passagem pela televisão para não me arriscar a ver mulatas emplumadas.


Serra Negra

Mas nem sempre foi assim. Os carnavais de minha infância e adolescência foram vividos intensamente em Serra Negra, cidade do interior paulista onde meus tios tinham um sítio. Desde cedo me transformei em odalisca, colombina, jatobá, fogo e outras alegorias que a inventiva imaginação de dona Ruth, organizadora de um dos blocos, pôde conceber nas décadas de 60 e 70. Mais tarde, na adolescência, o desfile de sábado era apenas parte da comemoração que continuava no baile no Clube de Esportes Serrano.

Íamos de mala e cuia para a casa da minha amiga Guida, quartel general do Carnaval. A turma se reunia no casarão, esquina da rua dos Expedicionários. Do bloco ao baile, do baile até o café da manhã na padaria do Nivaldo, em frente à praça, dia alto… Eram dias de esbórnia! Dormíamos até o meio da tarde, quando retomávamos a farra. Me lembro de uma fantasia, da qual gostei particularmente, toda feita de lenços, que tia Maria Rita criou para nosso grupo de amigas: uma odalisca reinventada com toques de cigana, laranja e amarelo. A folia nos levava à exaustão, na quarta-feira de Cinzas.


Carnaval em Salvador

Meu último Carnaval foi decretado assim: no verão de 1978, aos 17 anos, fiz uma viagem de lua-de-mel pelo Nordeste. Fomos, meu marido e eu, direto, de ônibus, numa viagem dos infernos, até Recife. Viemos voltando pela costa, de carona, barraca e guarda-chuva no ombro. Ele fazia questão do guarda-chuva, podia precisar.

Tudo foi planejado de maneira a que estivéssemos em Salvador na época do Carnaval. Me diverti muito. Na época podia-se sair atrás do trio elétrico, sem o aparato montado nos dias de hoje. Só havia Dodô e Osmar, pelo que eu me lembro. Mas não tenho certeza. A folia começava cedo, ou melhor, não acabava nunca. A concentração era na praça Castro Alves, aquela que de fato é do povo. Calor, cores intensas, odores também.

Lembro-me até hoje do cheiro de urina misturado com o cheirinho da Loló, espécie de lança-perfumes local que recebíamos em pleno nariz, gratuitamente, ao passar pelos foliões. Aquilo era uma coisa que, inalada, produzia um "tóim" na tampa do cérebro. Minutos depois a gente voltava ao normal, com algumas células a menos… Até hoje guardo a imagem do Sergei, meu marido, voltando de uma incursão atrás do Dodô e Osmar: sem camiseta, a bermuda aos farrapos, meia sandália havaiana na mão. Nos divertimos pacas. Foi aí que eu decretei: "Se não puder voltar a Salvador, nunca mais pularei Carnaval!".

De fato, nunca mais voltei a Salvador, não durante o Carnaval. Nem pulei mais Carnaval. A não ser uma ou outra escapada, como acompanhante da Caru, minha filha, aos bailes e desfiles em Serra Negra, quando ela era pequena.


O telefonema

Por estas e outras, este ano, quando recebi um convite para ir ao camarote da Brahma, no Sambódromo do Rio de Janeiro, aceitei. Vá lá! Já é tempo de mudar o decreto. O convite foi feito pelo telefone. Uma moça muito educada me explicava:

- Fica na antiga fábrica da Brahma, bem em frente ao Sambódromo. Foi transformada em camarote. A senhora terá transporte a partir de tal ponto, lá haverá petiscos, jantar, café da manhã.

Eu respondia:

- Parece bom. Vou pensar. Quanto é?


- Nós não vendemos ingressos, minha senhora -impacientou-se um pouco. Nós organizamos uma festa de Carnaval. A senhora é nossa convidada.


- Ótimo, mas eu não pretendo ir ao Rio de Janeiro no Carnaval neste ano.


A moça insistiu:

- É que neste ano o camarote vai fazer uma homenagem ao cinema brasileiro, então queremos contar com sua presença.


Repensei: afinal, antes de morrer gostaria mesmo de conhecer o Carnaval do Rio de Janeiro. Não pretendo morrer agora, em todo caso já resolvo isto. Uma oportunidade! Disse:

- Sendo assim eu topo. Tem boa visão da pista?


Tinha. Lá fui eu, com direito a acompanhante. Escolhi minha filha, a única, aquela que levava aos blocos e bailes de Serra Negra. Precisaríamos usar uma camiseta com a logomarca da cerveja, especialmente criada para a ocasião. Tudo bem. Melhor. Assim não precisamos nos preocupar com o que usar.


Rio de Janeiro

Tudo acertado: fui convidada para ficar na casa da minha amiga, a cineasta Lúcia Murat, uma carnavalesca excepcional, além de uma anfitriã dedicadíssima. Preparou-nos uma programação intensa: não podíamos deixar de conhecer os blocos de rua!


Cordão do Bola Preta

Cheguei ao Rio de Janeiro no sábado de manhã. Fomos direto à Cinelândia, brincar com o mais tradicional bloco de rua carioca, segundo Lúcia me informou: o Cordão do Bola Preta. Imperdível! Trata-se de um cordão que sai de um antigo bilhar, o Bola Preta.

- Aquele da música "Mamãe eu quero", sabe?


Bem, eu não sabia. Depois descobri na internet que a coisa não é bem assim: Vicente Paiva, o paulista -sim, paulista!- compôs "Mamãe eu quero" em parceria com o alagoano Jararaca. Namorou o tema da chupeta, um ano antes, numa marcha que menciona o Bola Preta:

"Quem não chora não mama


Segura meu bem a chupeta


Lugar quente é na cama


Ou então no Bola Preta..."

Chegamos à Cinelândia por volta do meio-dia. Uma aglomeração incrível, muita roupa de bolinhas, brancas ou pretas, camisetas, chapéus, faixas de cabelo, tudo com motivos adequados. Ouvia-se ao longe o batuque. Difícil identificar de onde vinha. Os edifícios em torno da praça Floriano reverberavam os tambores, dificultando a identificação de sua origem. Nos esprememos entre corpos mil, até uma vendedora de cerveja. Perguntamos:

O Cordão do Bola Preta onde está?


Saiu. O Cordão sai pontualmente às dez horas da manhã. Pontualmente, todos os anos.


Ora, pensei, existe uma coisa que acontece pontualmente no Rio de Janeiro.

Perambulamos um pouco mais aqui e acolá, pela praça, e decidimos almoçar num restaurante no Botafogo, onde havíamos deixado o carro. Sim, porque, segundo a Lúcia, carnavalesca experiente, durante o Carnaval no Rio de Janeiro, se anda de táxi. É mais fácil, se tem engarrafamento você simplesmente desce do carro, não precisa se preocupar em estacionar e, além do mais, pode ficar à vontade para beber. De fato.

Comemos num restaurante de nome alemão aparentemente especializado em comida portuguesa. Come-se muito bem no Rio de Janeiro, e o melhor de sua cozinha, na minha opinião, são os pratos de influência portuguesa. Depois disso, nos pusemos a descansar um pouco, declinamos um convite para um show na Lapa. Preferimos caminhar em volta da Lagoa, depois dormir.


Boitatá

No domingo acordamos bem animadas. Era o dia em que minha filha chegava e também o dia do bloco Boitatá, que saía da Praça XV. Reunimo-nos, várias pessoas, na casa da Lúcia e, sol a pino, partimos em vários táxis para o centro da cidade.

Chegamos. A praça estava vazia. Nada de Boitatá. Perguntamos ao rapaz que guardava os carros:

- Cadê o Boitatá? Não é hoje, o Boitatá?


- O Boitatá já partiu. Pontualmente às 11 horas. Se vocês correrem ainda dá pra brincar.


É espantosa essa pontualidade carnavalesca. Corremos. Alcançamos.

O Boitatá, segundo Lúcia, é um bloco formado pela geração dos "nossos filhos", mas eles deixam os mais velhos brincar. Sua principal característica é recuperar as marchinhas carnavalescas antigas. Isso é ótimo, pois consegui cantar –ao menos- todos os estribilhos: "mamãe eu quero", "olha a cabeleira do zezé", "a estrela dalva", "máscara negra" etc.

As fantasias são o mais interessante: bastante despretensiosas, mas nem por isso pouco produzidas. Se eu fosse uma fanática da câmera fotografia em viagem de turismo, teria registrado a inventividade destes foliões: infinitas variações de bebês com chupeta, homens vestidos de babá, borboletas, as sempre presentes odaliscas, piratas, cirurgiões, melindrosas e tudo o que se pode imaginar. O que mais parece importar são as caracterizações. Para aí vão todos os esforços.

Mergulhei no bloco, misturando meu suor com o de milhares de pessoas. Novamente, fiz tudo o que tinha direito. Sambei, cantei, encontrei amigos, vários amigos… Depois de nos espremermos por diversas ruas estreitas do centro, o bloco estacionou na praça em frente à Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais, no Largo de São Francisco, o carioca, não o paulista. Ali encontramos a Vera Hamburger, diretora de arte, no dia de seu aniversário.


Bolinhos na Lapa

Depois de muito sambar formamos novo comboio de taxis rumo a um restaurante na Lapa chamado Nova Capela. Demos início às comemorações do aniversário da Vera. Ali o Rio gastronômico se realiza! Uma profusão de chopes bem tirados e bolinhos variados. Abro parênteses para dizer que eu, como minha mãe, escalo montanhas por um bom bolinho de bacalhau. Os dali são especiais. Tem outro de aipim com camarão que é indescritível! (mandioca no Rio de Janeiro é aipim, outra tribo, percebe?)


Ipanema

Alimentadas, voltamos para casa para encontrar minha filha. Que lástima! Ela perdeu o Boitatá! Caru conheceu o Rio de Janeiro apenas na sua infância. Fomos à praia, tomar banho de mar e mergulhar no Bloco Simpatia, em Ipanema. Escolhemos o Posto 9, na esperança de bater palmas para o pôr do sol. Não deu: o tempo estava nublado. Mas o calor continuava senegalês, o mar especialmente calmo e quente. As correntes geladas do Sul e as ondas fortes haviam se afastado para Caru entrar.


Cuca Fresca

Um melhoramento foi recentemente introduzido na orla. Além da ciclovia, já antiga, e dos banheiros bem limpos, com direito a ducha a R$ 1 por pessoa, a prefeitura carioca instalou o Cuca Fresca. Trata-se de uma estrutura metálica, pronta para receber um cartaz de propaganda, em cujas bordas laterais, portanto verticais, existem orifícios minúsculos e um botão.

Funciona da seguinte maneira: o sujeito está caminhando pela calçada -imagine: faz calor, muito calor-, ele passa pelo Cuca Fresca, aperta o botão vermelho e recebe uma nuvem -isto mesmo: nuvem- de água, saída dos minúsculos orifícios instalados na estrutura vertical, portanto por todo o corpo. Luxo para todos! Todos, sem distinção!

Desfrutando da nuvem refrescante do Cuca Fresca, meu lado desmancha-prazeres ficou refletindo: estão instalados na orla da zona sul. Isso significa que estão na parte rica da cidade, ainda que disponíveis para pobres e ricos, pretos e brancos, deficientes físicos e saradões de praia, velhos ou moços, todos, sem exclusão. Também fiquei pensando que o Cuca Fresca corre o risco de virar sucata no próximo verão. Passou ainda pela minha cabeça me informar se a água utilizada era mesmo salubre. Desisti, era Carnaval, para que esquentar a cabeça?

Um único pensamento permaneceu: dá para imaginar algo mais supérfluo do que o Cuca Fresca? Difícil. Será que foi caro? Tem cara. Apesar da minha antipatia pela idéia, confesso que, depois de sambarmos atrás do Simpatia, acabei agradecendo sua existência.


Santa Tereza

Dia seguinte, o dia em que iríamos ao Sambódromo. Segunda-feira: Lúcia precisou assistir a um teste de ampliação de seu filme. Fomos junto, minha filha e eu. Da projeção, tomamos um táxi até Santa Tereza em busca de um lugar para almoçar e do bloco Céu na Terra, que sai tocando em cima do bondinho com uma turma sambando atrás.

O almoço foi agradável e gostoso como sempre. Quando saímos do restaurante, as nuvens voltavam a cobrir a capital carioca. Caminhamos um pouco para mostrar o bairro para minha filha, ver a antiga casa onde Lúcia morara. Não deu: foi toda murada e tinha cara de estar passando por uma reforma. Um dia foi um casarão, destes do século XIX, parece. Pegamos o bondinho e fomos até o final, na entrada de uma favela.

 
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