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cosmópolis
BRASIL

Um olhar de Curitiba
Por Cristovão Tezza



Curitiba da janela do escritor/Foto de Cristovão Tezza

O autor de "Uma Noite em Curitiba" escreve sobre a cidade onde ele vive desde os oito anos

Minha convivência com a cidade de Curitiba está completando 43 anos. Desembarquei lá aos oito anos, vindo de Lages, Santa Catarina, em janeiro de 1961, e praticamente nunca mais saí da cidade, exceto por alguns períodos de aprendizagem em outras terras e cidades -mas sempre voltei a Curitiba. Este meu olhar sobre a cidade é na origem, portanto, um olhar estrangeiro, de alguém que, se sentindo integralmente curitibano, como eu me sinto -e toda a minha literatura testemunha isso- tem entretanto um pé para fora, um olhar de fora.

Mas este olhar de fora talvez seja mesmo um traço constitutivo das nossas capitais, na medida em que o avanço da urbanização brasileira nas últimas décadas foi inchando as cidades maiores de “estrangeiros”, com todos os problemas e conseqüências dessa história. Numa cidade maior, numa cidade de prédios, numa cidade cuja extensão já vá bem além do tamanho do nosso passo e do nosso olhar, numa cidade sem horizontes, como em geral são os centros urbanos, todas as relações de familiaridade e de intimidade mudam de dimensão.

 A cidade é um espaço abstrato. Nós nos movemos menos pela contigüidade dos quintais, dos acidentes do terreno, dos espaços de referência integrados no nosso dia-a-dia, e mais por uma relação abstrata de deslocamentos; vivemos como que num mapa de metrô; o ato de subir 30 andares num elevador, percorrendo, digamos, centenas de famílias cuja existência é apenas uma idéia sem rosto, mas compactamente presente do outro lado da parede, de certo modo define a geografia urbana, a sua lógica e o seu mundo. Assim, ser “estrangeiro” é parte integrante da natureza urbana.

Toda aquela essência bucólica, essência também entre aspas, que vem definindo parte substancial da cultura de um Brasil rural, familiar, integrado e permanentemente ao alcance do olhar, do passo e da mão, como a fruta que se colhe da árvore, o sino da tranqüila missa de domingo, a praça como o espaço social do povo e de sua linguagem, tudo isso, sabemos, não existe mais.

 Na verdade, nunca existiu exatamente, exceto como um projeto cultural, como construção de cultura -na verdade, uma poderosa construção cultural que até hoje tem marcas. Essa nossa suposta essência pastoril -de fato, para sermos justos, trata-se de um projeto pastoril universal, que em diferentes momentos da história, aos pêndulos ideológicos, contrapõe o idílio da vida natural à corrupção das cidades- é substituída por outra construção da cultura, vinculada às luzes de um homem mais abstrato, sem raízes, mas com muito mais direitos e com muito mais liberdade, um homem mais solitário, mas também mais poderoso, um homem que, em tese, habita não mais o quintal da infância, mas a cidade universal.

 Em tese, no nosso mundo novo realmente admirável, todas as relações sociais mudam de natureza. Ninguém está mais condenado a conviver com o vizinho, como duas famílias que convivem há gerações; ninguém mais está condenado a seguir sua natureza ou o seu destino, como nos heróis épicos; a própria idéia de obediência já não é mais uma força “natural”, como a água da chuva ou a luz do sol. A obediência, no mundo urbano, expressa também uma relação mais intelectual que emocional, a expressão de uma escolha -afinal, o que define um cidadão é a sua liberdade, e a idéia de liberdade tem de necessariamente abranger todas as esferas da atividade humana, separando-se aí, de uma vez por todas, para sempre, o mundo sagrado do mundo leigo. O mundo urbano é regido pela cultura leiga -só pode ser leigo; uma cidade sagrada é uma espécie de contradição absurda.

Mas é claro que toda essa elucubração é uma elucubração urbana: isto é, na vida concreta, a cidade é um espaço de troca e de contaminações de culturas, e essas culturas vivem permanentente em contraste, pressionando umas às outras. Como por princípio a cidade não é um lugar familiar, somos todos estrangeiros nesta luta de linguagens urbanas.

Tudo para voltar a Curitiba e começar por defini-la como uma cidade de estrangeiros. Certamente trata-se de um exagero, mas para maior nitidez vamos começar por esse ponto. Localmente, uma cidade de estrangeiros porque o notável crescimento por que passou a cidade nos últimos 40 anos, passando dos 500 mil habitantes da minha infância para os quase dois milhões de hoje, povoou-a, é claro, de gente de fora, e em vários estratos sociais; pela beirada, como costuma acontecer, a periferia curitibana foi se enchendo de favelas, de ocupação de terrenos, de sub-moradias, de todo esse espectro profundamente brasileiro que define nossas migrações internas.

 No miolo, por uma classe média de fora (como a minha família) que veio se transferindo para Curitiba para nunca mais sair de lá. Em Curitiba, chama a atenção, em vários ramos e atividades profissionais, o número de não-curitibanos na faixa hoje dos 40 a 50 anos -parece que, em Curitiba, ninguém é de lá. Bem, os filhos desta geração, da minha geração, já são todos curitibanos, mas são filhos que aprenderam a ver a cidade pelo olhar dos pais. De certa forma, é uma geração que mantém ainda residual o seu toque de estranheza com relação ao espaço em que vive.

E Curitiba é também uma cidade de estrangeiros pela própria população que a formou: ucranianos, poloneses, alemães e italianos terão grande relevância na definição mais profunda da cidade. Desde já, faço a ressalva de que esse é tema de sociólogos e historiadores, que saberão definir com mais rigor do que essas impressões a constituição curitibana. Mas eu gostaria de marcar alguns pontos primeiros bastante nítidos que nos definem genericamente -primeiro, o fato de os alemães terem exercido, senão uma ostensiva ou exclusiva influência, à maneira de algumas cidades catarineneses ou gaúchas, uma densa influência na vida burguesa curitibana desde meados do século XIX, estando presentes, como cidadãos urbanos, em praticamente todos os ramos de atividades. Wilson Martins, em Um Brasil Diferente (São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1989), cita, por exemplo, um tribunal de júri do século XIX constituído quase integralmente por sobrenomes alemães, o que me parece bastante significativo.


 
Nesse sentido, a influência alemã teria sido muito mais intensa, subterrânea e duradoura, do ponto de vista da formação da cidade, por estar entranhada nas atividades que afinal organizam os agrupamentos urbanos, do que a influência polonesa, que em geral leva a fama (lembremos Leminski se definindo como “polaco”, e as imortais “polaquinhas” de Dalton Trevisan), somando-se com a influência talvez ainda mais presente dos ucranianos.

 Esse conjunto “eslavo” (mais os italianos, de que falaremos adiante), que na origem formava o cinturão verde da cidade, as colônias agrícolas, normalmente é visto como definidor maior do nosso traço típico. Os eslavos deixaram um substrato poderoso, é verdade: seria o nosso lado rural, sempre forte, aquele contraponto sagrado que nos enche de culpa e de sentimento de gravidade diante das coisas do mundo. Assim, para defini-lo numa imagem, o curitibano seria uma espécie de alemão protestante urbano com uma alma rural, católica e eslava.


 
Em outro momento de seu livro, numa metáfora que me parece muito feliz, Wilson Martins define Curitiba como a cidade da carteira de identidade, e não do passaporte. Em suma: o curitibano é, historicamente, um conservador. Para fazer um contraponto contemporâneo que reforça essa visão, ouvi recentemente numa entrevista um publicitário afirmar, comentando o resultado de uma pesquisa, que o curitibano consumidor é tipicamente alguém que não tem muito dinheiro, mas tem patrimônio. Em suma, ele não arrisca nada. O curitibano médio, nesta classificação impressionista que fazemos aqui, é alguém que se estabelece em algum lugar com a dimensão da eternidade, com a perspectiva familiar, com o desejo de uma profunda estabilidade da alma. O curitibano, desde sempre, parece que veio para ficar, tanto o alemão e o ucraniano de um século e meio atrás quanto o migrante dos últimos 50 anos, como eu.

Fazendo um pouco de poesia, é como se nós curitibanos ainda estivéssemos com um pé no século XIX, desembarcados nesta boa terra -Curitiba não tem morro, não tem enchente, não tem terremoto; e a lenda mais recente desse paraíso tropical sem os males do trópico, vai acrescentando até que é uma cidade fria, o que, rigorosamente, não é mais, ou que é um lugar sem assaltos, miséria ou problemas mais sérios. Bem, Curitiba sempre foi uma espécie de paraíso do projetista urbano, que em vários momentos da história via diante de si uma planura sem acidentes para ali desenhar o seu projeto abstrato. Prosseguindo: desembarcamos nesta boa terra com a esperança de aqui amealharmos algum dinheiro para consolidar algum patrimônio, um pedaço de terra, à custa de trabalho duro e honesto, obedecendo à lei e não criando problemas, e não nos misturando muito, porque o mundo é cheio de perigos e mais vale um pássaro na mão que dois voando.

 Alemães, poloneses, ucranianos e mais tarde italianos e outros povos foram ocupando essa terra e ao mesmo tempo definindo-a. Se os italianos criaram, entre outros, o enclave de Santa Felicidade (o mais famoso), que a rigor parece outra cidade, cabendo nela todos os chavões simpáticos que atribuímos a eles, o riso fácil, a comida farta, o espalhafato dos restaurantes, o gosto ostensivo pelas marcas folclóricas da origem e mesmo o kitsch poderoso que vai criando uma Itália imaginária de isopor e bandeiras para consumo de ônibus de turistas (parece que em Santa Felicidade há o segundo ou o terceiro maior restaurante do mundo, e milhares de turistas desabam lá tirando fotografias de castelos construídos a fórmica, néon, pedra e plástico), coube, como já disse, aos alemães e eslavos cuidarem do coração duro da cidade, aquela estranheza primordial, quase metafísica, de quem de fato não se sente em casa em lugar nenhum do mundo, porque o mundo é uma realidade permanentemente hostil.

Curitiba não tem carnaval. Na semana do carnaval há como que um esvaziamento sinistro da cidade, uma diáspora da alegria -multidões descem em desespero para o desconforto absurdo do litoral, entupido de carros, de falta d’água, de barulho, de gente, de caos, quase sempre de chuvas torrenciais, e desaparecem da cidade. Então, os verdadeiros curitibanos, como eu, passeiam por aquele vazio agradável e silencioso -andamos quilômetros, em plena terça-feira gorda, sem encontrar em lugar algum um mínimo signo do carnaval, uma criança mascarada, um balão, uma serpentina na calçada. Nada. Aqui e ali entrevemos o clarão de uma televisão ligada, em volume não muito alto, no carnaval da Globo, que assistimos com um espanto verdadeiramente curitibano. O que faz sentido: o carnaval na televisão é essencialmente a apoteose do não-carnaval, a expressão acabada da sua derrota, o nosso triunfo.

Essa sensação de estrangeiros -parece que nunca estamos em casa, exatamente como nossos antepassados não estavam ao chegar ali- foi acrescentando mais alguns traços ao temperamento curitibano. O principal talvez seja o traço conservador, naturalmente conservador -o curitibano não gosta muito de criar caso, gritar ou exigir aos brados alguma coisa; é como se ainda houvesse um substrato mental nos dizendo que aqui não é a nossa casa. Uma espécie de “comporte-se”, silencioso e poderoso, e, quem sabe, ainda com uma aura religiosa no ar, um certo instinto de missa. E é um substrato tão poderoso que qualquer “estrangeiro” -digamos, um carioca, um catarinense do litoral ou um baiano, acostumado a viver em voz alta- ao chegar em Curitiba levará sempre um primeiro choque: súbito, sente-se que há uma fina camada de gelo entre as pessoas, um sentimento de distância, invisível mas permanente.

 Em poucos dias o nosso estrangeiro já não dará tapinhas nas costas com tanta familiaridade e nem visitará ninguém sem nítidos, claros, ostensivos avisos prévios. O “apareça lá em casa”, essa mentira simpática, marca saborosa de todo brasileiro, não se ouve muito em Curitiba. Temos em geral de quatro a seis amigos, que duram uma vida inteira. Já vivi em cidades rodeado de 250 amigos, que desapareciam na primeira esquina. Observem o tom acusatório da expressão “que desapareciam na primeira esquina” -há aqui uma velada acusação contra as traições do mundo, sempre perigoso, falso e hostil, uma acusação essencialmente curitibana.

 
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