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cosmópolis
ÁFRICA

Diário de Túnis
Por Tata Amaral

Faz calor. Sinto-me em casa. Todo mundo tem cara de brasileiro. Eu tenho cara de árabe.

17 de Outubro de 2002

Há horas estou no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, aguardando a conexão para Túnis. Serei júri da competição oficial das “Jornadas Cinematográficas de Cartago”, festival bienal de cinema árabe e africano que existe há mais de 30 anos. Destas jornadas pouco sei: nos anos 60 foi um importante fórum de discussões políticas e cinematográficas e para lá, certa vez, foram convidados o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes e sua esposa, a escritora Lygia Fagundes Telles.

Também apresentarei um programa de filmes brasileiros na programação especial deste festival, entre os quais o meu “Um Céu de Estrelas”. Na verdade, estou meio apreensiva, meio curiosa em apresentar este filme em um país árabe. Um dos seus temas é a independência feminina…

Meu primeiro longa-metragem conta a história de uma cabelereira, Dalva, que decide romper o noivado com Vítor e abandonar a mãe para tentar a sorte, sozinha, em Miami. Vítor não se conforma com o fora e vai até a casa de Dalva e, com a desculpa de devolver objetos e recordações do relacionamento, acaba sequestrando-a.

O filme é bem violento e tem uma cena de sexo que dura sete minutos. Correrei eu o risco de linchamento? Neste caso, convenço-me: morrerei gloriosamente, como mártir da liberdade feminina. Afinal, o mundo precisa andar para frente!


Ainda no saguão de embarque


O dia chuvoso de outono de Paris contrasta com o calor senegalês que fazia quando deixei São Paulo. Havia trazido alguns euros da última viagem. Um café, um sanduíche, um “Libération”… Cartões telefônicos para dar um alô aos amigos de Paris. Passar o tempo num aeroporto à espera de uma conexão não é tarefa fácil. O tédio me invade como a umidade lá fora toma conta das coisas. Em todo caso, Paris tem personalidade até na impessoalidade de seu aeroporto: fico embriagada de atmosfera, alimentada pela noite mal dormida no avião.

Na navete , aquele ônibus que nos leva até o avião, uma cena insólita: uma mulher senta-se ao meu lado. Chora. Evito olhá-la, não quero ser indiscreta. No entanto, alguém que chora, silenciosa mas despudoradamente, na navete, é difícil de ignorar. Do meu outro lado, um homem, ele negro. Parece que se conhecem, os dois trocam olhares. Somente então reparo em dois policiais. Um deles diz para irem sentar-se ao fundo. A mulher faz que não. O policial ordena, grosseiramente, que se sentem ao fundo. A mulher e o homem levantam-se, obedientes. Ela está bem vestida, ele não. Vão até o fundo da navete. Agora ouvimos os lamentos da mulher. Uma senhora ao meu lado explica: "Estão sendo expatriados".

No avião a mulher tem um ataque. Seu choro se intensifica, como se alguém estivesse aumentando o volume. Grita, começa a se descontrolar. As aeromoças tentam acalmá-la. O vôo vai atrasar. "Tem filhos em Paris, não quer deixa-los". O “diz-que-diz” se instala entre os passageiros. "Tem problemas políticos na Tunísia." As informações são contraditórias, todos especulam sobre a vida da mulher, que não pronuncia uma só palavra, em língua alguma. Só chora e balança o corpo.

Parece uma carpideira de um filme de Pasolini. Penso na tragédia grega e em como as mulheres do Mediterrâneo sabem sofrer com intensidade. Sinto vergonha deste pensamento, a mulher não parece estar representando nada. Não! Seu sofrimento é genuíno. Ponho minha mão no fogo! "Parece que é adúltera e na Tunísia os adúlteros cumprem pena de 40 anos." Logo aparece uma policial. "Não podem expatriar uma pessoa que não esteja passando bem. É a lei francesa." Qualquer que seja o motivo, ela não quer mesmo voltar para seu país natal. Seu desespero não combina com as belíssimas imagens que vi da Tunísia, na internet. Será mesmo um bom lugar para se ir?

A policial retira a mulher do avião. Para onde a levarão? Como isto me parece absurdo: um visto é mais importante do que o desejo intenso de viver em algum lugar.



Aeroporto Tunis-Carthago


Duas horas depois, um simpático brasileiro, Anuar Nahes, conselheiro da Embaixada do Brasil em Túnis, me espera no aeroporto para dar as boas vindas. O pôr do sol havia sido lindo, vi do avião. Faz calor em terra. Sinto-me em casa. Todo mundo tem cara de brasileiro. Eu tenho cara de árabe. Na alfândega, falam comigo neste idioma.


Chamem o marido!


Me afasto um pouco de Anuar, no saguão, para buscar fogo e acender um cigarro. O homem para quem pedi o isqueiro fala comigo, sorrindo, sedutor. Não dá para entender uma palavra, nem um som sequer é familiar. Mas parece que levei uma cantada. Num passe de mágica, Anuar aparece ao meu lado, protetor. Me conta que é melhor se fazer acompanhar de um homem. Se não tem homem ao seu lado, compreendem que o lugar está vago, disponível. O melhor é dizer que tem um marido. Na dúvida, fala do marido. Claro, a gente sempre sabe do islã, das mulheres, dos véus, da aberrração da burca. Até tomei cuidado em escolher as roupas mais discretas de meu guarda-roupas -o que foi um problema, nossas roupas de verão… Mas inventar um marido?

Delícias Tunisianas

Anuar me entrega aos cuidados de um funcionário do Ministério da Cultura, que me leva até o hotel: daqueles internacionais com muitas estrelas. Me instalo e, mais tarde, espero Anuar e sua irmã no saguão: vamos comer a melhor pizza de Túnis! Boa mesmo. No restaurante, sou apresentada às delícias gastronômicas locais: a pasta de pimenta. Cuidado! O azeite local. Maravilhoso! Evite os vinhos.


18 de Outubro


Já havia estudado nosso programa durante o festival: o júri assistirá aos filmes numa sala especial, concentradamente, sem a presença do público. O programa? Surpresa! Quatro filmes por dia durante sete dias. Raros os que duram menos de 2 horas. "Trop chargée" (Muito pesado). No entanto, as projeções só começarão no dia seguinte. O único compromisso que tenho hoje é estar no saguão do hotel, às 18h30, para esperar van que vai nos levar -os membros do júri- à cerimônia de abertura do evento. Este é, portanto, meu único dia livre até o final.


Dia livre


Telefono para o escritório do festival, digo que cheguei bem e que vou bater pernas, conhecer Túnis. "Claro, claro, mas espere pela pessoa que se ocupará dos membros do júri, Afifa. Ela te dará instruções." Que instruções, meu Deus? Há ainda mais instruções a receber? É preciso aproveitar a qualquer custo o dia livre!

Quero ir ao Museu do Bardo, o maior museu de mosaicos do mundo; a Sid Bou Said, uma aldeia medieval, perto das ruínas de Cartago, à beira do Mediterrâneo, onde habitou um sábio, hoje ponto turístico obrigatório; as Termas de Antonino, ao lado da antiga Cartago romana… (“Delenda Cartago Est”. Lembram? Assim anunciou-se a destruição da Cartago fenícia, depois das três Guerras Púnicas levadas a cabo pelos romanos, interessados no porto estratégico. Queimaram a cidade durante dias e depois jogaram sal na terra, para que nada ali brotasse. Francamente, é difícil não pensar em George W. Bush e o Afeganistão… Cem anos depois os romanos resolveram reconstruir Cartago, afinal, o ponto era bom. As ruínas de hoje são dessa Cartago, a romana).


A disponibilidade masculina


O enorme saguão do hotel de muitas estrelas é cheio de mesinhas de centro com poltronas em volta. Todos estes nichos estão lotados de pessoas. Como pessoas, entenda-se homens. Peço licença para sentar-me em um desses ambientes, com seis poltronas, ocupado apenas por um senhor de aparência distinta. O senhor me acolhe com um sorriso. Decido grudar os olhos no meu guia turístico, por via das dúvidas. O senhor puxa papo, pergunta o que eu estou fazendo lá etc. Conto para ele, amável, mas usando o mínimo de palavras possível. Ele não se intimida: se eu precisar de companhia, ele também está só no hotel, por três dias. Agradeço, afirmando que estarei muito ocupada.


Afifa e alguns membros do júri

Afifa demora a chegar no hotel e, quando chega, precisa cuidar de outros membros do júri que estão se instalando. Não há mais tempo para grandes passeios. Preciso estar de vota no hotel às 14h para a primeira reunião oficial de apresentação dos membros do júri -encontro, aliás, que não estava no programa.

O melhor é ir ao “souk”, na cidade antiga. Convido Imunga Ivanga e Hanny Tchelley, meus colegas de júri, que acabo de conhecer. Ele, do Gabão, intelectualíssimo, ganhou o Tanic de Ouro, com seu filme “Dole”, no último Jornadas Cinematográficas de Cartago (JCC). Ela, lindíssima, atriz da Costa do Marfim, também organiza um festival de curtas-metragens. Partimos animados para a cidade velha, eu decidida a não me afastar de Imunga, o único homem da pequena expedição.


O souk


Para quem, como eu, nunca havia pisado num país árabe: o “souk” é o mercado. Nas cidades árabes medievais era construído em volta da medina, a igreja muçulmana. Nas ruas estreitas, muitas vezes cobertas de alvenaria ou panos, centenas de lojas se amontoam numa profusão tentadora de formas, cores e cheiros. Misturadas às lojas, algumas portas fechadas que, quando abertas, revelam a intimidade dos tunisianos: os pátios pavimentados ladeados de arcadas onde ficam os quartos. Tudo é lindo! Colorido, fresco. O cheiro do jasmim está por toda parte. É quase que uma planta nacional.


Tudo azul


Olho muito e me contenho: já que tenho vontade de comprar tudo, melhor não comprar nada. Os próprios vendedores entendem este espírito: "Pour le plaisir des yeux!". Pedem que entremos nas lojas apenas "para o prazer dos olhos". Isso é um golpe, tenho certeza. Depois que você entra numa loja, difícil não sair com uma bugiganga. O que mais me encantou é o azul. Aquele azul turquesa inverossímil. Há muitos objetos nesta cor: porcelana, bricabraques, vidros…

Aprendo algo sobre "a mão de Fátima", que foi a mulher ou a filha de Maomé. Uma mão estilizada, hipertrabalhada em metal (geralmente pintada de azul), é um poderoso amuleto para evitar mau-olhado. A louça, os perfumes, a prataria, a ourivesaria… Tudo é um deleite para os olhos e os sentidos todos.


Duas sogras


Paro numa tenda, onde vendem um monte de vidros soprados -também estes hípertrabalhados- para guardar essências de perfumes. O jovem na porta insiste para que eu compre um. Não uso perfumes. Ele não desiste: "Pour votre belle mère". Claro, se você precisa ter um marido, fatalmente terá também uma sogra! Resolvo fazer uma provocação: "Tenho duas sogras, para qual delas levarei o vidro?". O jovem não acredita. "Não é possível ter duas sogras." "Pois eu tenho, fique sabendo." Abandono-o de boca aberta.


O júri do JCC


De volta ao hotel, pontualmente às 14h, conheço os outros colegas de júri: Aïcha Filali, artísta plástica tunisiana, Rashid Masharawi, cineasta palestino cujo filme, “A Ticket to Jerusalen”, será exibido fora de concurso, no encerramento do festival, e Edwar Al-Kharrat, poeta egípcio e nosso presidente. Claire Denis não virá. Parece que sou a única nada familiarizada com a África e o Magreb.


A prece de sexta-feira à tarde


Depois das apresentações, almoçamos e decido, finalmente, ir ao Museu do Bardo ver os mosaicos. Impossível, me diz Afifa: "Tudo está fechado sexta-feira à tarde!" Mas por quê? "É a prece", foi a resposta lacônica. Francamente! Aïcha vem em meu socorro: me explica que às sextas-feiras acontece a grande prece muçulmana. É o dia em que todos -os homens, é claro- vão à medina rezar. "Mas não rezam todos os dias, quatro vezes ao dia?", pergunto, desorientada. Será que a internet forneceu informações equivocadas? "Na tradição, deveriam", explica Aïcha. As pessoas trabalham, não podem ir à medina várias vezes ao dia. Mas às sextas-feiras à tarde é infalível! Por isso, tudo fica fechado. Sei. Encaminho-me, derrotada, para meu quarto no hotel. Pelo menos havia comido um bom cuscuz de peixe. Me esforço para me convencer de que havia ganho o dia. De fato, mal me instalo na cama do quarto, com um livro na mão, começo a ouvir o chamado da medina: uma voz, meio como um canto, meio como um clamor, chama os fiéis. Na cidade, nenhum outro som é ouvido, a não ser a voz do imã.


A abertura do festival

 
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