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ÁFRICA

Moçambique/Mozambique
Por Marilene Felinto

Maputo é uma triste Recife dos anos 60, a olhar desolada para o Oceano Índico

 


Voar pela primeira vez para a África, conhecer Moçambique, que dá para o Índico, que fala português, que é de onde também os portugueses arrancaram escravos (bantos), para suar, sangrar e morrer de trabalho forçado e banzo no Brasil colônia -e  Moçambique que Bob Dylan celebrou numa canção dos anos 70, de que eu gostava muito:

“I like to spend some time in Mozambique

The sunny sky is aqua blue

And all the couples dancing cheek to cheek.

It's very nice to stay a week or two.”

Vou pensando nisso durante um vôo da  Southafrican Airways rumo a Maputo, com conexão em Johannesburgo. Passo parte da viagem lendo sobre a história de Moçambique, sobre Samora e Graça Machel -ele, um dos fundadores da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), herói da luta pela independência em relação a Portugal e primeiro presidente do Moçambique independente e socialista, de 1975 a 1986, quando morreu num acidente aéreo nunca esclarecido. Ela, Graça Machel, viúva de Samora e atual mulher do líder sul-africano Nelson Mandela, foi ministra da Educação de Moçambique por dez anos, é consultora da ONU para assuntos de crianças vítimas de guerra e dirige em Maputo a ONG (organização não-governamental) Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), voltada para a defesa dos direitos das crianças.


 

Piloto negro

O avião da Southafrican Airways -aeronave muito mais confortável, de assentos mais largos e serviço de bordo mais simpático e mais eficiente do que os da Varig- aterrissa no aeroporto de Johannesburgo às oito e pouco da manhã do dia 14 (3h00, hora de Brasília), e o “jet lag” já se apodera do meu corpo como uma espécie de soco no estômago. Sempre passo um pouco mal nesses deslocamentos internacionais. A tripulação da Southafrican, uma maioria de comissários e comissárias de bordo negros, é meu primeiro contato com africanos na viagem. Lembro de um amigo meu, brasileiro e branco, que estranhou, numa primeira viagem à África, que o piloto fosse negro: “Quando vi que o piloto era negro, tive medo, e pensei comigo que o avião ia cair porque o piloto era negro. Eu nunca tinha visto um piloto negro, eis aí o tamanho do meu preconceito. Depois tive vergonha da minha reação”.


 

 

Capulanas

No aeroporto de Johannesburgo, enquanto esperamos o vôo para Maputo, sou apresentada, numa loja de artesanato, aos tecidos de cores fortes, cheios de mensagens e simbologia que o povo negro usa para se vestir. A vestimenta tradicional das mulheres africanas, os pedaços de panos ou cangas que enrolam no corpo como vestidos, se chamam, então, capulanas. O artesanato impressiona pela beleza da tessitura, pela complexidade de pontos. Me pergunto se os africanos gostam tanto de cores fortes para contrastar com o escuro da pele. No sertão do Nordeste também tem disso: as casas dos sertanejos brasileiros têm fachadas multicoloridas, desenhadas, que eu sempre interpretei como uma forma de animar a vida dura, a paisagem cinzenta da caatinga seca.


 

Futebol

Antes disso, num elevador do mesmo aeroporto, um funcionário sul-africano nota que sou do Brasil. Pergunta, entusiasmado, se a seleção brasileira ganhará a Copa. “Vamos torcer”, respondo, em inglês, ao seu inglês africanizado de sotaque peculiar, difícil de entender num primeiro momento. “Vamos torcer”, me pego respondendo, com aquela sensação de idiotia que tenho toda vez que sou interpelada por um estrangeiro sobre os sucessos do Brasil reconhecidos mundo afora. Não quero decepcionar o fã sul-africano com minha acidez crítica. Restrinjo-me à imagem que ele próprio faz do Brasil-bom-de-bola.


Propina em metical

A chegada ao aeroporto de Maputo surpreende logo na alfândega: o policial verifica a bagagem de mão de uma amiga brasileira que viaja comigo; avisa que ela precisa pagar uma taxa pelos panos comprados no aeroporto de Johannesburgo. Comunica o valor em dólar, mas ressalta, sem nenhuma reserva: “Mas se a senhora quiser me presentear com uma porcentagem de 20% apenas, deixo passar”. Minha amiga não aceita. Responde que prefere pagar o imposto e pede o devido recibo. O policial desiste da propina e da cobrança sem fundamento. Entramos no mundo do subdesenvolvimento.


 
A próxima etapa é trocar dólar por metical, a moeda local (US$ 1 = Mt. 24 mil). Mas deixamos para fazer a operação no hotel, com receio de outro pedido de propina. “Metical” é nome que vem do árabe mitqal, “balança, peso”. Era antiga unidade de peso dos otomanos e árabes para matérias preciosas (ouro, pedras etc.), que então comerciavam com os reinos locais de Moçambique (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).


Maputo (antiga Lourenço Marques)

Maputo é uma triste Recife dos anos 60, a olhar desolada para o Oceano Índico. A van do hotel nos espera no aeroporto. O trajeto é uma avenida marcada por longo trecho de esgoto a céu aberto na ilha central, ladeada por favelas de barracos de madeira cinza, cheia de lixo e gente vendendo de camas a baldes de plástico colorido nas margens.

Que Maputo é uma cidade suja, com grave problema de coleta de lixo, faz-se logo evidente. Grandes montes de lixo acumulam-se ou espalham-se pelas ruas esburacadas. O hotel Avenida fica no bairro da Polana, muito perto de Sommerschield, onde se localizam as embaixadas, as mansões dos diplomatas, dos poucos portugueses que sobraram depois da Independência em 1975 e dos negros da pequena classe média moçambicana. São os bairros nobres da cidade. Estranho o nome “Sommerschield” (alemão? sueco? suíço?, não sei). Mas reparo que as placas de trânsito correspondentes ao nosso “PARE” são todas em inglês (“STOP”) em Maputo. Primeiro sinal de que Moçambique não fala tanto português quanto eu pensava. O país, aliás, acaba de entrar para a Commonwealth, a Comunidade Britânica, provável influência da África do Sul, que também é do grupo.

 
“Senhora brasileira, senhora brasileira,

leve este, se me faz o favor”

O hotel Avenida fica no quadrilátero turístico de Maputo, hotel modesto diante de seus concorrentes mais luxuosos (o Cardoso e o Polana). Na porta de entrada, na avenida Julius Nyerere, um grupo de uns dez vendedores de artesanato avança sobre a van enquanto desembarcamos. Vendem peças esculpidas em madeira negra, batiques, objetos de todo tipo e de materiais diversos. “Senhora brasileira, senhora brasileira, leve este, por  favor”, insistem, todos ao mesmo tempo, uma estranha doçura no tom de voz, um olhar que julgo triste. O “jet lag” me confunde, misturo a cara dos artesãos negros com a de suas esculturas longilíneas, bonitas, de guerreiros africanos, pensadores acocorados, mulheres carregando bebês nas costas. Custo a crer que a África é real, de carne e osso, como se apresenta.


Mia Couto

A primeira visita que recebemos no hotel é a de Mia Couto, o grande escritor moçambicano, autor do consagrado “Cada Homem é Uma Raça” (1998), com quem eu tinha agendado uma entrevista antes de deixar o Brasil. Simpático, solícito e anfitrião dos mais especiais, Mia me dá importantes dicas sobre o que fazer e como fazer em Maputo. Ele agenda por mim, ligando de seu próprio telefone celular, vários dos contatos que preciso fazer na cidade. Tem olhos azuis, voz mansa e uma fala boa de ouvir. Marcamos um encontro no dia seguinte, domingo, pela manhã, no centro da cidade, onde ele vai me apresentar a Graça Machel.


 

Graça Machel

É inverno em Moçambique. Faz um leve frio pela manhã e ao entardecer em Maputo. O resto do dia faz sol (só choveu uma vez em dez dias), temperatura máxima entre 25ºC e 27ºC. No centro da cidade, perto da praça dos Heróis Moçambicanos, acontece uma marcha de crianças das escolas municipais contra o abuso infantil. As ruas estão tomadas pelo desfile, que traz bandas de música e demonstrações de ginástica entre os cartazes de “Denuncie a violência” etc.

A marcha é organizada pela FDC, fundação dirigida por Graça Machel. É ali, na rua, atrás do palco principal do evento, que Mia Couto me apresenta a esta heroína viva de Moçambique. Todo o carisma do falecido Samora, uma perda até hoje sentida pelos moçambicanos como irreparável para os destinos do país, foi transferido para Graça, líder respeitada e querida no processo de reconstrução do Moçambique pós-guerra civil.

Digo a Graça que gostaria de entrevistá-la para um jornal brasileiro. De início, ela recusa: “Entrevistar-me, por quê? Pois se eu não tenho nenhuma importância”. Discordo, insisto diante da mulher alta, risonha, voz firme, vestindo camiseta e boné com os slogans da marcha. Então ela cede. Marcamos a entrevista para a manhã da terça-feira. Atrás de nós, num canteiro central da avenida, uma garrafa de Coca-Cola de três metros de comprimento serve de monumento-propaganda à abertura para a economia de mercado. Em 1990, o governo da Frelimo renunciou ao socialismo e anunciou uma nova Constituição. Graça Machel estava em Maputo participando do 8º Congresso do partido (Frelimo), que aconteceu entre 14 e 17 de junho.



Cansados de guerra

Nos dias que se seguem, reforça-se em mim a sensação de que o povo moçambicano é triste, de poucos sorrisos. Os negros são quietos, calados, não sorriem os garçons nos restaurantes nem as balconistas nas lojas, embora sejam de uma doçura tocante, difícil de explicar no modo como surge, como se pronuncia ou se revela. Ou pode ser uma falsa impressão, eu que esperava encontrar aqui, não sei por quê, uma espécie de Salvador da Bahia e aquela aura de simpatia receptiva, de barulhenta ginga brasileira. Não. A gente moçambicana é mais introspectiva, quase nada mestiçada, muito negra e pouquíssimo branca.

Atribuo a tristeza à guerra civil que durou 19 anos, matou milhares de moçambicanos e destroçou a infra-estrutura do país. Só em 1992 foi assinado um tratado de paz com a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), guerrilha patrocinada pelos então governos racistas da África do Sul e da Rodésia (atual Zimbábue), que se opunha à Frelimo.

Sobre a guerra e a tristeza, converso uma tarde com Salomão, um motorista de van de cerca de 40 anos, que chegou a capitão da Frelimo, onde esteve por 24 anos. “O que tenho a dizer é que hoje sou um homem revoltado. Minha aposentadoria de militar não dá para viver. Não tenho uma casa para morar. Esse governo que aí está não me permite condições de sequer obter um financiamento para comprar uma casa. E eu lutei ao lado deles durante 24 anos. Mas todos eles, dirigentes da Frelimo, estão bem, cada um tem umas dez casas. Isso revolta as pessoas.”


O Capital e a Camisinha

Passo meu tempo a percorrer as avenidas de Maputo, cidade plana, onde é fácil caminhar a pé -pelas avenidas Vladimir Lenin, Frederich Engels, Mao Tse Tung, Salvador Allende, Samora Machel, Eduardo Mondlane, entre outras com nomes de personalidades do socialismo mundial-, em busca de fatos de interesse jornalístico e dados para uma pesquisa sobre a influência dos projetos de microcrédito no combate à pobreza em Moçambique, o quarto pior país do mundo no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, que engloba 172 países.

Visito órgãos de governo, sedes de ONGs e organizações humanitárias internacionais, entre elas a FAO/WFP (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação). Ouço dizer que Moçambique é o país com maior número de ONGs em atuação no mundo, a maioria estrangeiras, e que 70% do PIB do país vem de doações obtidas pelo Terceiro Setor. Custo a crer, mas pode ser verdade. Não chequei esses dados.

Entretanto, vou levantando números terríveis: que 57,5% dos 17,6 milhões de moçambicanos não dispõem de banheiro em suas casas e recorrem ao mato para fazer suas necessidades; que 515 mil passarão fome nas regiões centro e sul este ano; que a expectativa de vida caiu de 46 anos para 27 por causa da epidemia de HIV/aids que assola o país. O número de infectados no final de 2001 atingia 16,7% da população (quase 3 milhões de pessoas), sendo que 90% deles sequer sabem o que é aids (ou sida, como eles chamam) e desconhecem a camisinha (que chamam de “condom”, de novo por influência do inglês da África do Sul) como preservativo.



“Desconsegui”: o português

e as outras línguas de Moçambique

1 - Leia a letra completa no final deste artigo.


2 - Um trecho dessa entrevista com Mia Couto foi publicado na "Folha de S. Paulo" de 21 de julho de 2002, no caderno "Mundo". Trópico publicará a entrevista na íntegra na última semana de agosto.


3 - A entrevista com Graça Machel foi publicada na "Folha de S. Paulo" de 21 de julho de 2002, no caderno "Mundo".

 
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