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cosmópolis
PARIS

Amélie e Loana
Por Rose Calza

O realismo ensaiado da cultura de massas e duas personagens para a nova raça de felizes

Duas personagens despontaram e se impuseram na mitologia francesa contemporânea, no último ano. No cinema, Amélie Poulain (do filme de Jean-Pierre Jeunet, “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”). Na TV, Loana, a principal participante do programa “Loft Story”, o “Big Brother” do país. Amélie, representando a antiga França, romântica, demagógica e “naïve” (alguns chegaram mesmo a chamá-la musa da extrema direita), através das lentes do olho mágico do cinema, subiu/desceu escadarias em Montmartre, com direito a “background” à moda da casa: o incontornável acordeão. O filme, dando as costas a estes tempos cínicos e triviais, nos fez amar as pessoas e a vida (mas não ganhou o Oscar).

 Por outro lado, Loana,  a rainha do “sitcom”, encarnando em tempo real a França musculosa e oxigenada de hoje, exibiu sem pejo sua fala oca , banal e descartável, seguida o tempo todo por webcams previamente instaladas no “loft” em que se aprisionou por longos dias.


Jean Baudrillard, em seu artigo “L’Elevage de Poussiére”, comentou enfurecido o moderno culto do nada e “a obscenidade radical” do programa. Intelectuais, sociólogos, formadores de opinião questionaram a condição da realidade e da ficção em tempos de "reality show".


Muito barulho por nada. Mais uma vez a discussão não é sobre Arte, Mídia, Comportamento, Sociologia, ou Filosofia. Amélie e Loana soam idênticas, moedas de duas caras, o mesmo produto. O assunto aqui é Marketing, e as fontes emissoras, TV ou cinema, funcionam como mercados com maior ou menor volume de recursos, no intuito de distribuir bens e serviços.


Trata-se, portanto, de estratégias de vendas, ou seja, Amélie , protagonizada por Andrey Tautou, foi vendida ao público de maneira retrô. Alcançou sucesso de bilheteria mundial protegida pelas paredes edulcoradas de emoção fácil através da evocação do passado, do conto de fadas. Loana , a mãe solteira, foi comprada como “realidade” exposta (entre outros) pela arquitetura devassada de um loft, de shortinho ou fio dental , escovando os dentes ou roncando, às vezes “coberta” por lençóis ou por um companheiro em sua cama (um qualquer Supla, ali , “por acaso”) .


 Na verdade, ela foi ensaiada e paga para fazer mais ou menos o que já fazia antes: mesmo cansada de tirar a roupa em sessões de strip-tease sobre palcos de bares da Côte d’Azur, conseguiu manter a audiência atenta a cada gesto seu, à queda possível do seu indefectível e simples bustiê . Já vimos este programa, e a repetição da receita se alastra como rastilho de pólvora.

  Um exemplo disso, no Brasil, é a  “Casa dos Artistas”; o mesmo acontece com “No Limite”. A diferença é que o big brother Roberto -que nem holandês é- anda preocupado com o inimigo mais fraco, o Sílvio que atualmente reage, tirando coelho de lata de lixo. Sem poder criar algo de impacto todo o tempo, idéias vão e vêm e voltam -já disseram que a recepção não tem memória.


Por isso vemos desfilar atemporalmente, transformado ou clonado, o “Homem do Sapato Branco” , a indignação do néscio Truman, ou o Show do Milhão, “Esta é Sua Vida” , monstruosidades do Ratinho, explosões obsediantes de um quase-exorcismo coletivo promovido pelo padre (“erguei as mãos”) Marcelo.


Não vamos perder tempo discutindo se são boas idéias, ou más. Seguindo o clichê , “boa idéia é a que vende”. Assim, slogans viram ordens: tudo por dinheiro, valendo ainda uma mãozinha dos universitários. Portanto, mesmo após o impacto da novidade, a repetição de idéias em Paris , no Brasil, nos EUA, se impõe à exaustão, empurrada à força, goela abaixo do público, que permanece atento e em eterna vigília, como a proverbial obesa comendo pipocas na poltrona solitária de sua sala de visitas.


No caso da atual e fashion “Casa dos Artistas”, à parte o cenho franzido dos guardiães da moralidade, a mídia se esbalda com chamadas descritivas do programa do tipo" de novo as insinuações sexuais entre Syang e Gustavo Mendonça ... Suzana fez Gustavo de cavalinho, no melhor estilo sado-masoquista. Eram mostradas imagens de Gustavo dizendo frases inaudíveis perto do ouvido de Syang, eram exibidas as seguintes legendas: "Quando a gente sair daqui vou fazer muito amor com você. Quero beijar muito a sua boca. Vou te amar na cama". E o Brasil, absolutamente imantado, aperta os olhinhos para espiar a vida alheia e não perder nada.


Qual a explicação para tal reação da audiência? Uma talvez seja: somos, ao que parece, mobilizados por coisas simples,  e se queremos descomplicar vamos ao  cinema rever “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni. Condenados para sempre a sermos felizes, ou mesmo a sermos voyeurs de felicidades alheias, cantamos com a Sandy: “Como eu poderei viver se você não está aqui” (esta frase está com todas as letras em “O Jardim de Inverno”, de Henri Salvador).


Nasce uma nova raça de “felizes”, de viciados em entretenimento, em todo e qualquer divertimento. Ora participam de correntes para ajudar cancerosos, desaparecidos, ora se lambuzam de escatologia e pornografia “for free”,  repassadas pela internet (mas, antes de tudo, estão sendo criados pelas correntes de catecismo do bom caratismo virtual).

Emocionam -se com  “la vie en rose” de Amélie Poulain ou se  excitam com o  quase obsceno, com a vulgaridade semi-aviltante, roteirizada, planejada, requentada pelo imenso "rechaud" que é o parque de diversões em que, escondendo e garantindo a impunidade, por exemplo, do(a) insuspeito(a), pedófilo(a), professor(a), médico(a), padre, freira, as telas de todas a mídias se transformaram.

Harry Potters adultos, entre o bem e o mal, aspiram ao estado  mágico da descontração,  que leva a um outro, o acritico, que age como uma  espécie de anestesia  relaxante anti-estressante.  E aí, tanto faz se perversão e derivados são também produtos  de consumo -babado forte, esse! Estão lá, na gôndola, vendem, faturam; estão lá, livre acesso, na prateleira, em fitas de vídeo, em cds, em mp3, na net, como filmes “X”, sado-masô, snuf...

Esse "métier", o do entretenimento, que visa ao gozo máximo, não faz mesmo diferença entre Amélie/Loana, MaryPoppins/ Lady Chatterley, Emanuelle/Madame Bovary ou Cinderela/Linda (Deep Throat) Lovelace (que descanse em paz). Ao mesmo tempo, tudo está sob controle e (como diz em  "Leichter als Luft", o poeta alemão Hans Magnus Enzensberger)  “as autoridades competentes declaram que a populaçao não está em perigo".

Rose Calza
É roteirista e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, autora de "O Que É Telenovela?" (Ed. Brasiliense) e "Entre Pedaços" (Sette Letras).

 
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