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cosmópolis
BUENOS AIRES

Passeios pelo suave autoritarismo
Por Luiz Henrique Horta

O peronismo ainda atende, sozinho, à
totalidade da vida política na Argentina

 

 

 


Plaza Italia, bairro Palermo

Entre o centenário Jardim Botânico e os bucólicos bosques, sutilmente franceses, urbanismo amável e fin-de-siècle de largas vias margeadas por árvores, brancos monumentos marmóreos de exaltação aos continentes, à paz.

No centro da praça, Garibaldi  cavalga rumo à unificação da bota italiana, cercado por correntes de elos tão grossos e negros que parecem ferraduras, um peso que destoa da leveza geral do ambiente. E, sustentando essas correntes, num largo semicírculo, postes que são em realidade “fasces”, feixes, esse símbolo fascista da união fazendo a força, de quase um metro de altura cada.

Ninguém se importa muito, apenas um detalhe. Sempre há a desculpa de ser um antigo símbolo romano.  Mas, quando o mesmo motivo decorativo enfeita o Tribunal de Justiça do país, isso já começa a incomodar. Feixes enormes ornam o Tribunal, na Plaza Libertad.



Plaza El Salvador, bairro Nuñez

Emoldurados pelo Monumental -o estádio do River Plate-, meninos brincam calmamente em seus uniformes, provavelmente saídos de uma escola de classe média do bairro. Não me desagrada vê-los de  guarda-pó e gravata. Fazem lembrar a infância, não a minha propriamente, uma idéia de infância genérica, de escola primária e ansiedades simples.

A Argentina ainda cultiva os valores de uma formação sólida no primeiro grau. Só que também se ensina aí sobre uma pátria isolada, ideal, uma pátria-ilha, altiva e auto-suficiente. E, quando a ilha vai se mostrando cada vez menos verdadeira, como agora, a confiança vai se tornando rancor xenófobo.

O aluno mais destacado, o melhor de cada escola é “abanderado”, ou seja, tem o direito e a honra de carregar a bandeira nacional nas cerimônias escolares. Mas como fazer quando cabe a um estrangeiro este destaque, o de levantar os valores da nação embutidos na flâmula azul celeste?

Aconteceu, e apesar de parecer risível,  isso despertou grandes discussões no país inteiro, ocupou capas de jornais, destaque nos noticiários da TV. Poderia o estrangeirinho carregar a bandeira? No final, conseguiram uma solução.  Poderia sim, ele era naturalizado, não era mais estrangeiro. Mas há um detalhe importante: o menino era chileno, nem mesmo um alienígena, de hábitos exóticos e contra uma suposta “argentinidad”. Um simples menino, um simples vizinho.



Plaza del Abasto, bairro Balvanera, quase Almagro


Aqui, no antigo bairro do mercado de abastecimento, uma estátua de Gardel zela por um bar em tudo distante da boêmia portenha. Apenas três anos atrás esse bairro era perigoso,  aluguéis baratos e  cortiços atraíam todos os imigrantes indesejados, os bolitas (bolivianos), cabecitas (cabecitas negras, os de cabelo escuro), negritos (qualquer pessoa que não seja um italiano do norte, bem louro) e chinos (orientais ou índios de olhos repuxados).

A transformação do mercado em gigantesco e luxuoso shopping center expulsou os feios, sujos e malvados. Surgiram torres de flats ao gosto dos ricos novos da metrópole. E foram eles no seu oportunismo que colocaram Gardel ali, num dos lugares sagrados do tango. E agora as lojas estão fechando, a decadência reocupando seu espaço. Em algum momento voltarão os malandros e os imigrantes, o canivete brilhará, imperando na noite escura, os entreveros nas esquinas, o tango recuperará seu lugar, a vingança da verdade contra o mito.


 

Plaza Miserere, em pleno bairro do Once


Um cruzamento de milhares de pessoas todos os dias, ponto convergente de linhas de ônibus, estação de trens, vendedores ambulantes e desocupados. O campo perfeito para manifestações políticas e religiosas, pequenas aglomerações, pequenas promessas de salvação, da alma ou do bolso. Alto-falantes gritam, com esta urgência metálica e rachada do seu som, a marcha “Los Muchachos Peronistas”:

“¡Perón, Perón, qué grande sos!

¡Mi general, cuanto valés!

¡Perón, Perón, gran conductor,

sos el primer trabajador!”

A Plaza Miserere é um resumo da condição argentina, um confuso cruzamento de pessoas sem rumo e uma ideologia aparentemente indestrutível que parece ter personificado para sempre o caráter nacional, um flerte continuado com o autoritarismo e a violência.



Plaza San Martin, Centro

Nos três anos em que morei em Buenos Aires, este era um local favorito. Gostava de ficar ali num banquinho, vendo o pôr-do-sol sobre o rio de La Plata, pensando sobre este estranho país.

Não conseguia disfarçar o riso ao ver a torre do relógio, logo ali em frente, que depois da guerra pelas Malvinas passou a se chamar Torre dos Combatentes Tombados nas Malvinas, ou algo assim, mas que todo mundo continua chamando mesmo de Ex-Torre dos Ingleses, numa explicação nominalista satisfatória para o que é ser argentino,  ambigüidade insolúvel entre a Europa e a América.

Mas o peronismo sempre foi minha constante de fascinação. Sozinho, ele ainda atende à totalidade da vida  política argentina. Ou se é peronista, ou antiperonista, não há escapatória.  Gardel -se diz- canta cada dia melhor. Poderíamos dizer que Perón discursa cada vez com mais talento e que continua sendo candidato à Presidência, com chances.

O fascismo é o encontro da biologia com a política (como sugere Carlo Ginsburg) ou da estética com a política (como sugere Susan Sontag). O  peronismo é o encontro eficaz da política com a psicologia. O impasse argentino é este: os alto-falantes não pararem nunca de tocar a marcha peronista...

“Por ese gran argentino

que se supo conquistar

a la gran masa del pueblo

combatiendo al capital”.


 

 

Luiz Henrique Horta
É crítico de cultura, viajante interessado em comida e autor de "O Costume de Viajar".



 
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