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cosmópolis
TRAUMA

A nova Nova York
Por César Braga-Pinto

Segundo John, Don, Rod, Jessica, Michael, Gabriela, Jorge, Leslie e Kerry


De Manhattan ao Queens, do Bronx a Staten Island, Nova York ainda se encontra superpovoada de fantasmas. Já no dia seguinte ao ataque ao WTC, o prefeito aparecia na TV pedindo aos nova-iorquinos que voltassem ao normal. Mas cada um parece ter uma imagem do que Nova York era antes do ataque e, logo, o que deveria voltar a ser.

O próprio prefeito, Rudolph Giuliani, já vinha, antes mesmo da tragédia, tentando normalizar a cidade, com medidas do tipo proibição de casas noturnas, strip-tease, prostituição e bebidas alcóolicas nas festas de rua. Agora, o republicano Michael Bloomberg, eleito novo prefeito de Nova York, promete a reconstrução da cidade e, ao mesmo tempo, dar continuidade ao projeto normalizador de Giuliani.

Depois do trauma, cada um tenta recriar sua própria cidade, inventar a memória de uma Nova York que, no fundo, nunca existiu fora do desejo de cada um. Talvez o que tenha mudado seja simplesmente os fantasmas, agora mais próximos e de certo modo mais incômodos.

Saí pela cidade perguntando às pessoas que encontrava o que teria mudado em Nova York desde o dia 11 de setembro, tentando conhecer um pouco dos fantasmas de cada um. Muitos ainda não conseguem dizer o que pensam ou sentem, outros pareciam estar aguardando desesperadamente uma oportunidade para poderem se expressar.

Procurei falar ainda com pessoas que, ainda hoje, fogem das entrevistas e evitam conversar abertamente, seja sobre Nova York, seja sobre qualquer outro assunto. Mas que fiquem registrados também os seus silêncios. Como o de um homem árabe, dentre os milhares que vivem em meu bairro no Brooklyn, que, quando pedi que falasse sobre o que mudou em Nova York, me respondeu: “Eu hoje só quero o anonimato”.


Jorge Ignacio Cortiñas

Dramaturgo cubano-americano, nascido na Flórida. Vive há três anos em Nova York. No dia do ataque, estava dormindo, quando foi acordado pela irmã, que lhe perguntava se ele ainda trabalhava naquele escritório no World Trade Center. Mora no bairro do Queens, em Nova York.

“Ontem eu tomei um trem lotado. Sentei-me num dos únicos assentos vazios, abri um livro que estava lendo e me perdi ali dentro. É assim que geralmente eu lido com transporte público em Nova York. Eu me perco na leitura e finjo que não estou nesses trens lotados e vagarosos que vão para os bairros, para fora de Manhattan, e que podem demorar até uma hora.


Apesar de não fazer muito tempo que moro em Nova York, eu já desenvolvi essa camada protetora típica da vida urbana. Não olho para as pessoas diretamente, e se alguém me pergunta alguma coisa, eu faço uma cara feia, pois quanto menos você parecer vulnerável, menos você será incomodado.


Mas ontem, quase dois meses depois do ataque, com partes de ‘downtown’ ainda com cordões de isolamento, com as velas dos altares para os bombeiros mortos ainda acesas e as ameaças de antraz, minha leitura foi interrompida por uma senhora de meia idade, de poder aquisitivo óbvio. Ela estava carregada de sacolas de lojas onde eu não poderia fazer compras, vestida impecavelmente com roupas de grife, sapatos pretos italianos, cabelo cheio de laquê e um lenço no pescoço. Enfim, o tipo de pessoa que eu geralmente acuso pelo fato de o centro da cidade ter preços muito além das minhas condições financeiras. O tipo de pessoa que me causa desconfiança por votar em Giuliani, com suas medidas racistas e contra os pobres. O tipo de pessoa para quem eu faço cara feia, antes de retornar à minha leitura. Mas dessa vez não. Dessa vez eu perguntei ‘perdão?’.


Ela então me disse que queria sentar na cadeira ao lado da minha, eu dei espaço, perguntei se estava tentando chamar minha atenção há muito tempo e ela disse que não, não se preocupe, tinha sido só um minutinho, mas ela estava preocupada se eu tinha ficado ofendido quando ela me chamou de senhor, eu disse que não, que apenas não tinha ouvido, e que de qualquer maneira não faria mal, ela poderia ter me chamado de senhor, ou dito ei, você aí, e então nós demos risada, e ela perguntou o que eu estava lendo, e eu disse o que era, e ela falou que já tinha lido, e falamos sobre o livro durante um tempo antes da parada dela (e não é que eu estava certo, a estação era no Upper East Side, um bairro muito acima dos meus poderes aquisitivos), e ela disse tchau, tenha uma boa noite, e eu disse muito obrigado, cuide-se, nos vemos por aí, e ela disse, sim, espero que sim”.

John K.

Nasceu em St. Louis, Missouri, “centro geográfico e coração dos Estados Unidos”, e mora na área de Nova York há seis anos.


“Antes do dia 11 de setembro de 2001 podia aparecer, ocasionalmente, aqui em Nova York, algum memorial improvisado em homenagem a pessoas famosas ou que tinham sido vítimas de uma tragédia (Amadou Diallo, Tito Puente etc.). Agora, multiplicam-se por todas as cinco regiões de Nova York, restos de inumeráveis memoriais, cartazes de ‘procura-se’ já rasgados; são ilhotas de cera, restos de velas queimadas na frente do corpo de bombeiro, nas delegacias, nos parques, nos pontos de ônibus.


A reputação da cidade mais suja dos Estados Unidos continua imbatível, apesar das medidas de Rudolph Giuliani (verdade que a cidade tenha se tornado mais segura) . Mas esses pequenos monumentos não chegam a ser lixo. Eles são como as bandeiras dos Estados Unidos, enfeitando as fachadas e os pára-brisas, como se fossem uma nova epiderme, marcos da imensa e incomensurável perda sofrida pela maior cidade do país. O que era a fábrica de fortuna para muitos, agora é um espaço de luto e de tristeza, de feridas físicas, psicológicas e econômicas que repercutem em todo o resto dos Estados Unidos.


Eu moro no lado oposto do Hudson, em Jersey City, conhecido como a sexta região de Nova York. Da sacada de minha casa eu podia ver, o ano inteiro, as torres gêmeas do WTC, assim como a torre do Empire State e o prédio da Chrysler. Elas anunciam a grandeza de Nova York em noites de inverno. Sua destruição e a transformação do local do WTC em um enorme mortuário e crematório me acompanham, não só por causa dessa nova visão de uma paisagem deformada, mas também por causa do ar carregado de cinzas, dos olhares tristonhos de milhares de pedestres, das portas fechadas das lojas, dos restaurantes vazios.


As ruas de Nova York já retomam seu ritmo frenético, mas as barreiras policiais, as tropas nas pontes e túneis, e a corrente (invisível, mas palpável) de medo que atravessa cada aspecto da vida cotidiana, anunciam que as coisas mudaram, talvez irremediavelmente. Em Nova York, eu me sentia sem medo; agora, não posso dizer que me sinto seguro.


Nova York sempre pareceu diferente das outras cidades dos Estados Unidos, sempre foi como uma terra estrangeira. Seu ritmo frenético, sua fascinante diversidade, seu tamanho e densidade vertiginosos, sua riqueza e pobreza chocantes e talvez sua auto-proclamada confiança, muitas vezes vista como arrogância pelo resto do país, sempre a situou em um lugar à parte. O poeta John Ashbery uma vez a chamou de “o logaritmo de todas as cidades”.


Como as Nações Unidas, cada nação do planeta tem filhos e filhas representados aqui, o que faz com que as atrocidades do ataque terrorista signifique um prejuízo em nível global. Ironicamente, o dia 11 de setembro trouxe Nova York para mais perto do resto dos Estados Unidos, e sua persistente tolerância em relação a diferenças pode ainda oferecer um modelo para o país. Mas, mesmo aqui, o racismo, os ataques contra muçulmanos e árabes e a ignorância se espalham. Nova York é diferente e, ainda assim, de várias maneiras, completamente americana, talvez a quintessência da America.


Ontem mesmo, no metrô que liga Nova York a New Jersey, um homem, que orgulhosamente exibia seu cheque do governo americano, com um cordão no pescoço e um crachá, começou a resmungar sobre a morte de sua namorada nos ataques terroristas, logo depois de entrar no trem em Manhattan. Esse resmungar logo se transformou em obscenidades contra árabes e Laden. Depois, em ameaças de vingança através de balas, bombas ou qualquer outro meio necessário. Antes de 11 de setembro, esse tipo de loucura certamente teria provocado menos ansiedade do que indiferença. Desde então, tomou um ar grave e um tanto amedrontador.”


Don Rozemberg

Consultor financeiro, seguradora Merryll Lynch

“Eu, particularmente, para morar, prefiro a tranquilidade do campo, o interior de New Jersey. Nova York, para mim, era o lugar onde eu ia para trabalhar ou me divertir. Claro que para mim muita coisa mudou, começando por toda a minha rotina de trabalho. Todos os nossos colegas aqui da empresa foram transferidos para outras cidades: Boston, Midtown, Princeton.


Há um clima de incerteza, e sabemos que a própria Merryll Lynch deve despedir grande parte de seus funcionários. Mas o mais chocante é passar pelo local onde ocorreu o ataque. Fora isso, já não se nota tanta diferença, e acredito que Nova York esteja voltando ao normal. Apesar de que entrar e sair de Manhattan agora está muito mais complicado.


Além disso, ficou muito difícil olhar para um avião e não sentir medo. Acho que em geral todos nós estamos muito mais cuidadosos. As pessoas nas ruas estão mais gentis, mais atenciosas, mais compreensivas. Acho que pela primeira vez nos vemos vulneráveis, com medo de bombas, com medo de antraz. Pode levar um tempo ainda, mas se não houver outro ataque, Nova York voltará logo a ser o que era sim, tenho certeza.”



Gabriela Dias

Comissária de bordo da Continental Airlines. Nasceu no Rio de Janeiro e mora em Manhattan

“Não tenho medo de morrer. Tenho medo é de viver, nessas condições. Medo de abrir cartas. Hoje tenho medo de ir a minha faculdade, que fica ali perto de onde ficavam as torres gêmeas. Quando vou às aulas, eu não consigo me concentrar. Fico sentindo aquele cheiro, fico lembrando do dia do ataque.


Eu estava no metrô, indo para lá. De repente o metrô parou e as portas ficaram fechadas. Quando finalmente nos deixaram sair, só se via pessoas cobertas de poeira. Não se podia dizer quem era branco e quem era preto. Essa é uma cidade maravilhosa, e não sei o que eles, os terroristas, querem. Eles não nos pedem nada, não sabemos o que fazer.


Como comissária de bordo, não estou tão assustada, mas sei que as coisas são muito mais sérias do que dizem na mídia, que anda escondendo informação. Muita gente na minha empresa foi afastada, ninguém foi despedido, mas foram ‘afastados’; ou seja, vão ficar sem salário, mas continuam recebendo seguro de saúde, passagens etc. Mas eu não posso ficar sem trabalhar. Se eu perder esse emprego vou para a Itália, pois eu já estava mesmo querendo ir estudar lá. Adoro essa cidade. NY é minha cidade predileta, diferentemente do Rio de Janeiro, por escolha; mas sem emprego não tenho como sobreviver aqui.”

Roderic Crooks

Web designer, mora no East Village, em Manhattan

“Nos últimos anos, com Giuliani, Nova York tinha ficado bastante ‘user friendly’ e movimentada, mas parece que agora algumas coisas estão ficando decadentes outra vez. Outro dia eu vi vários ‘break dancers’ na rua, apresentando-se por um trocado qualquer, ali onde, algumas semanas atrás, eles teriam sido obrigados a sair. Antes, havia muito mais polícia em cada esquina, mas agora parece que eles têm coisas bem mais importantes para fazer, e já não os vemos tanto.


Para mim, a vida está tão normal quanto é de se esperar; mas talvez não esteja para as milhares de pessoas desempregadas. Acho que é natural na vida de uma cidade que as coisas às vezes declinem ou se deteriorem, mesmo se, nesse caso, as condições que precipitaram essa decadência não tenham sido nada naturais. Mas acredito que a maioria dos nova-iorquinos esteja determinada a reagir e a lutar contra qualquer adversidade.”


Jessica

Vendedora de produtos da Avon na Wall Street. Mora no Bronx.

“Agora vendo produtos da Avon aqui, na rua. Hoje é meu primeiro dia e por enquanto não vendi nada. Eu trabalhava no Deustche Bank, ali, bem ao lado do World Trade Center. Antes eu vendia esses produtos para os amigos, era uma renda a mais, mas agora resolvi vir para cá, afinal tenho que comer. Muita gente do banco foi despedida, outros foram para New Jersey. Mas tudo vai voltar ao normal. Espero que sim. É que neste momento, sentimos muito medo, medo de pegar o metrô, ninguém quer sair de casa.

 
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