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PARIS

Aqui é o império da morte!
Por Luiz Achutti



luiz achutti

Fotógrafo conta sua visita ao reino subterrâneo de seis milhões de parisienses


Em tempos de muitas mortes, mortes decorrentes de eventos visualmente espetaculares, em que não se pode ver os mortos -seja porque foram pulverizados por brutais explosões, ou porque estão perdidos na distante paisagem montanhosa dos brutais bombardeios cotidianos– há que se lembrar de outros mortos também sem visibilidade.

Caminha-se um quilômetro e meio no subsolo de Paris, desde a entrada próxima a estação Denfert Rochereau, até encontrar este aviso sobre a passagem que leva às catacumbas: “Pare ! Aqui é o império da morte”.

Os parisienses dizem, com certo orgulho, que o subsolo de Paris é como um queijo “gruyère”, sob a cidade-luz há vários caminhos escuros e esquecidos -que se justapõem aos conhecidos túneis do metrô- os esgotos, as vias de vigilância de prédios públicos, os quase 300 km de caminhos inúteis freqüentados, ilegalmente, pelos grupos de “neo-misérables”, e sabe-se lá o que mais.

Uma cidade muito antiga precisa de reformas de tempos em tempos. Os pequenos cemitérios do centro da cidade tiveram que ser removidos há uns 200 anos atrás. Esqueletos de seis milhões de parisienses não agraciados pela mídia, mas que ajudaram a fazer o nome desta cidade, foram transferidos, formando as catacumbas. Um administrador da época resolveu colocá-los de forma organizada, empilhados como lenha em calçada de padaria, e hoje os turistas pagam para visitar um verdadeiro labirinto feito de ossos e caveiras, as catacumbas de Paris.

O “passeio” não é dos mais agradáveis, deve-se descer muitas escadas, depois caminhar por corredores estreitos, úmidos e escuros, tendo uma curiosidade mórbida como estímulo. Mas, o pior de tudo, ao menos para os carecas ou semicarecas, é a quantidade de pingos gelados e de procedência duvidosa que vão aumentando a medida em que se vai cumprindo o percurso. Momento em que, a única solução é pensar sobre um possível aspecto positivo da coisa, pensar que talvez os pingos possam agir como uma espécie de tônico capilar.

A luz é difícil, alguns pontos apenas, em meio ao ambiente escuro, situação de fotografias inevitavelmente contrastadas para os fotógrafos que professam a não utilização do flash e do tripé. Ao chegar na grande galeria, o sentimento é de constrangimento e reverência, verdadeiro teste para os ateus convictos que se encontram diante da materialização do que restou da vida –mortos anônimos– lamenta-se a falta de seis milhões de biografias. Os esteios são apenas uma Nikon, três lentes e o velho Tri-X puxado para 1600 ISO.

Volto aliviado ao calor da luz do sol lembrando que ainda devo visitar o famoso cemitério Père Lachaise, onde estão enterradas os mortos ilustres. Dizem que é um cemitério riquíssimo, repleto de obras de grandes arquitetos e escultores. Mas preferi começar pelas catacumbas, depósito dos anônimos parisienses de antigamente. Penso que eles foram também importantes, porque se somadas as suas pequenas biografias, empenhos e sonhos passados, se poderia recriar uma grande parte do que é Paris hoje.


 

Luiz Achutti
É fotógrafo e fotojornalista, professor do departamento de artes visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro pesquisador do Laboratoire d'Anthropologie Visuelle et Sonere du Monde Contemporain da Université Paris 7.

 
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