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cosmópolis
EUA

A perspectiva do estrangeiro
Por Sergio Micelli

Os atentados vistos da Universidade de Stanford

     
Pelo fato de estar vivendo um período na Califórnia, tive a oportunidade de presenciar os eventos funestos do dia 11 de setembro último na qualidade de um visitante procedente do Terceiro Mundo, de onde teriam saído os terroristas responsáveis pelas cenas de horror transmitidas ao vivo pela televisão. Em vez de tentar, em tão curto espaço, esboçar uma análise do acontecimento, prefiro chamar atenção para certos padrões de reação e diagnóstico adotados por americanos e estrangeiros, num ambiente acadêmico altamente sofisticado e diferenciado como o vigente na Universidade de Stanford.

Tomemos primeiro algumas linhas de força das interpretações formuladas por colegas norte-americanos, devendo-se, óbvio, fazer as distinções entre os que foram socializados numa cultura política de esquerda, a maioria deles procedente da costa leste, diversas mulheres, docentes e pesquisadores em Nova York, Rutgers, Brandeis, Harvard, Columbia, quase todos antropólogos, sociólogos e historiadores, e outros colegas atuantes em universidades do meio-oeste, do sul, praticantes de uma ciência social de perfil aplicado, de inclinação mais conservadora, economistas e cientistas políticos dando o tom da mentalidade desse sub-grupo.

Enquanto os primeiros se mostravam mais sensíveis a uma elaboração menos reativa e imediatista do ocorrido, discutindo, por exemplo, as conseqüências desastrosas da política externa norte-americana, pronta a qualquer arreglo numa luta descabelada contra a União Soviética e, portanto, a sementeira dos franskensteins cultivados nos quatro cantos do mundo, inclusive certas alas islâmicas radicalíssimas no Afganistão e no Paquistão, havia nas falas dos demais o travo cortante da raiva, da decepção, do hiperrealismo, estágio de maquinação de respostas e políticas do tipo “olho por olho”, como que deixando à mostra, pelo teor das lamúrias e reiteração da tábua sacrossanta de valores democráticos, o quanto eles não estavam levando em conta outros valores e formas de organização social e política. Houve debates intensos entre partidários de ambas vertentes do espectro, devendo-se ressaltar, ainda, que os remédios acenados para enfrentar a crise foram, como era de esperar, gritantemente divergentes.

Passemos agora às posturas do pequeno grupo de cientistas sociais estrangeiros, com graus bastante desiguais de intimidade com a cultura política norte-americana. Quase todos eram unânimes em pontuar a virtual ausência, tanto na mídia impressa como, sobretudo, no rádio e na televisão, de qualquer tipo de análise política do que estava acontecendo. Era como se houvesse uma cesura cortante entre a vida real e o mundo acadêmico: os únicos consultados eram assessores pertencentes a “think tanks” conservadores ou altos funcionários do governo.

Muitos de nós não podiam deixar de enxergar o etnocentrismo enfurecido de certas análises e questionamentos, as dificuldades dos nativos para atinar com as raízes históricas seculares desse sentimento quase universal de ressentimento e inveja, que passa por vezes pelo rótulo genérico de “antiamericanismo”, por uma inequívoca desvalorização de qualquer tábua de valores que não reitere a ladainha de princípios alardeados pelos líderes políticos do chamado “Ocidente desenvolvido” na mídia.

Todavia, o momento de choque, engolido em seco por todos, autóctones e forasteiros, seguiu-se à intervenção de um visitante que formulou a hipótese de, quem sabe, fosse de alguma utilidade buscar enxergar tais atos insanos como uma forma descabelada e paroxística de trazer a globalização para o território dos seus principais formuladores, principais artífices e grandes beneficiários. Mesmo que se trate de uma fórmula, que atira no que vê e acerta no que não imaginou, teve o condão de despertar todos para os muitos flancos e dimensões por meio dos quais era possível apalpar o terror.


Palo Alto, 30 de setembro de 2001.


 

Sergio Micelli
É professor titular de sociologia na Universidade de São Paulo e autor, entre outros, de "Intelectuais à Brasileira" (Companhia das Letras).

 
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