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EUA

A teologia política de Bush
Por Igor Gielow

No novo governo republicano, Cristo substituiu como herói o Rambo da era Reagan

Na cena final de ‘‘A paixão de Cristo’’, de Mel Gibson, um Jesus triunfante volta dos mortos e prepara-se para ganhar o mundo. Mudando o tom bíblico tradicional, esse Cristo sai do Santo Sepulcro com um brilho vingativo nos olhos, como se estivesse pronto parar dizer: ‘‘Now it’s time to kick some asses’’.


Cada época tem seu ícone e uma forma artística para representá-lo. Os anos Bush, que podem mudar de condutor e talvez até de tom nas eleições norte-americanas de novembro, já têm o seu. É o Cristo de Gibson, preconizando um modelo político-cultural que tomou de assalto esse começo de século 21. É o cristianismo “kick ass”, uma espécie de teologia política de resultados.


‘‘To kick ass’’, ‘‘chutar bunda’’, é como os americanos adoram definir ações incisivas de resolução rápida de problemas. De cunho militaresco, o termo espalhou-se na cultura do americano médio como um sinônimo de virilidade, eficiência. Serve para etiquetar o que é ‘‘cool’’, bacana. Se uma banda de rock ‘‘kick asses’’, ela é boa. Se um sujeito ‘‘kick asses’’ na vida empresarial, ele é o máximo.


George Walker Bush virou presidente em 2000 amparado na venda da imagem do republicano compassivo. Seria uma forma de diferenciar-se da imagem dura do republicanismo dos anos Reagan, a era do individualismo exacerbado, do governo mínimo, dos yuppies.


A ‘‘compaixão’’ defendida por ele nada mais era do que a adoção de um ideário de igreja de domingo, de um senso de comunidade que mais tem a ver com os valores da paróquia rural de uma América profunda, mais xucra.


Em vez de uma frieza calculada dos engravatados de Wall Street ou dos ratos políticos de Capitol Hill, para ficar em dois estereótipos explorados à exaustão, a compassividade do paizão racista e antiquado do interior, que vai ao culto e que preza seu vizinho _desde que ele não seja negro ou esteja de olho na sua filha.


Do ponto de vista imagético, um contraponto forte à caretice ongueira, dissimulada, ‘‘mundializante’’ e meio “hipponga” de seu oponente democrata na ocasião, Al Gore. O então vice-presidente de Bill Clinton é uma espécie de chato-mór da política americana. Sempre tem um conselho ecológico ou ainda uma dica sobre como criar seu filho. Não por acaso, sua mulher Tipper é um símbolo vivo da censura aos "abusos pornográficos que ameaçam nossas crianças" da indústria cultural.


Bush encarnou outro tipo de careta. Potencializou seu conservadorismo com anabolizantes cristãos. E, ao que parece, não é apenas uma questão de oportunismo: o cronista-em-chefe da Casa Branca atual, Bob Woodward, já disse que Bush acredita piamente estar imbuído de uma missão divina e que ouve poucos conselhos que apontem soluções diferentes daquelas que "sente" serem as corretas. Poucos discursos seus não citam Deus e as virtudes do desapego frente à missão maior, civilizatória por assim dizer. Não por acaso, Samuel Huntington e suas teorias que beiram o racismo de Chamberlain foram alçadas ao status de farol de pensamento.


E Bush cercou-se de companheiros de fé. O fundamentalismo cristão propugnado por essa base conservadora é um fenômeno ainda em curso. Levantamento feito no começo do ano pelo periódico da chamada direita religiosa, o ‘‘Christian Statesman’’, diz que 36% dos diretórios estaduais republicanos são controlados por políticos "alinhados" à facção, o dobro do registrado há dez anos.


Majoritariamente protestantes, filiam-se a correntes milenaristas e fundamentalistas. Um de seus ramos, a Reconstrução Cristã, prega algo como um regime análogo ao do Talebã estendido ao mais importante país do mundo e à maior máquina militar em operação.


É capitaneada por gente como Howard Ahmanson Jr., um milionário do ramo de software que alimenta teorias conspiratórias por controlar boa parte dos sistemas de apuração eleitoral do país. Nesse registro, amparado em textos bíblicos, há quem acredite que Israel tem que ser defendido com unhas, dentes e F-16s porque sua existência é uma pré-condição para que o Messias volte. Para tanto, financiam campanhas de políticos como Bush e seu Rasputin, o vice-presidente Dick Cheney. Dê-lhes dinheiro, eles garantem a Segunda Vinda.


O contato com Tel Aviv é focado no Israel dos partidos religiosos aliados à raposa Ariel Sharon. Um grupo de ponta do cristianismo “kick ass”, o Christian Coaliton, lançou uma campanha chamada ‘‘Stand for Israel’’, em que sua chefe, Roberta Combs, pede apoio aos ortodoxos da coalizão que sustenta Sharon e o esmagamento da Intifada. Nada parecido com a colorida amizade entre democratas e os judeus liberais de Manhattan, tão bonitinha em filmes de Woody Allen. Não, os cristãos “kick ass” estão preocupados com o fim dos tempos. Época do “kick ass” final.


Para os interesses corporativos das principais figuras dos EUA de Bush (e não se engane: um eventual Estados Unidos de John Kerry terá os mesmos personagens, embora com atores diferentes), esse arcabouço ideológico caiu como uma luva.


 Macaqueando o papa Urbano 2º, que em 1095 conclamou a primeira Cruzada contra os infiéis numa missão tanto econômica quanto ideológica, Bush espalhou sua ‘‘guerra ao terror’’ lucrativa e igualmente política ao chamado ‘‘Iraquistão’’, a cada aeroporto do mundo, sabe-se lá onde mais. É certamente um exagero, mas não totalmente despropositado ver na Ordem Templária uma Halliburton avant-la-lettre.


Como o cinema é a arte norte-americana, industrial e industrializada, nada melhor do que buscar nele a representação do cristianismo “kick ass’’. É possível achar um pouco dele em vários exemplos da produção recente, tanto como referência quanto como alerta.


Para ficar com os blockbusters do verão americano, é difícil não notar o Império em plena ação quando os autômatos NS-5 tomam o poder para "proteger os humanos" em "Eu, robô", adaptação livre e totalmente “kick ass” do questionamento tecnofilosófico proposto por Isaac Asimov nos anos 1940-50. Talvez torcendo por uma vitória democrata em novembro, o filme acaba por enxergar a salvação no individualismo _ainda que esse ego redentor seja um andróide chamado Sonny.


Nestes anos de imperialismo incipiente, para o desespero de brilhantes conservadores, como o historiador britânico Niall Ferguson, ainda está em teste a eficácia do cristianismo “kick ass”. O "Iraquistão" é só um projeto-piloto. O máximo que se consegue de contraponto dentro do "sistema" é o histrionismo de um Michael Moore, que é tão “kick ass” quanto os alvos de seus libelos.


Nesse contexto, não há mais a ‘‘boa nova’’ do Novo Testamento. Não há mais ‘‘amem-se uns aos outros’’. O Jesus de Mel Gibson parece anunciar, após duas horas de mortificação, que está na hora do troco _não por acaso, título de outro filme de Gibson, ator e diretor que recheou seus trabalhos com referências ao martírio cristão como redenção e também como incentivo para a vingança (‘‘Máquina mortífera’’ e ‘‘Coração valente’’ são exemplos fáceis).


Uma faceta interessante é que Gibson, católico integrista, acaba servindo a uma causa que pode ser identificada como protestante. No fundo, tanto ele quanto Bush são adversários da igreja de Roma pós-Concílio Vaticano 2º. E um detalhe intrigante é a penetração de sua mensagem estética do sofrimento como redenção em agremiações como as dos neopentecostais e católicos não-praticantes _citando aqui o caso específico do Brasil.


Talvez a confusão de valores dissolvidos após o agudo século 20 tenha a algo a ver com isso. Talvez o Cristo de Gibson seja uma resposta adequada ao anseio por um Deus vingativo e justiceiro. Será o caso de esperar por ‘‘Cristo, o retorno’’ para ver a consumação de sua missão?


Mantendo o registro globalizante, podemos achar em outro não-americano (Gibson é da Austrália) uma reflexão dos motivos por trás da ética da purificação destrutiva encontrada em "Paixão". Trata-se do dinamarquês Lars Von Trier e seu "Dogville".


O epílogo do filme traz a personagem Grace deixando seus grilhões e pedindo para seu pai destruir a cidade que a havia seviciado. Como um Cristo alternativo, ela desce da sua cruz e pede ao Criador que extermine uma humanidade sem saída. ‘‘Go and kick some asses, Father’’, seria uma frase aplicável. Passou perto. Acabe com todos, pede então a personagem vivida por Nicole Kidman no filme-teoria-crítica de Von Trier. Qual Pai melhor para ouvir isso do que James Caan, o colérico Sonny Corleone do primeiro ‘‘Poderoso chefão’’ (1972) em pessoa?


Grace havia chegado ao mundo, aliás, a ‘‘Dogville’’ como uma pecadora disposta a redimir-se, e assim redimir seus moradores, por meio da bondade. É progressivamente humilhada e abusada. Termina seu périplo arrastando um artefato, sua cruz estilizada. Von Trier bebe em outro Jesus transviado, aquele que sonha durante a crucifixão de ‘‘A última tentação de Cristo’’ (1988).


O Messias de Martin Scorsese, num delírio, também deixa a cruz e vai viver sua vida. A diferença é que, hoje, Von Trier não vê espaço para o comedimento, para o recolhimento a um cotidiano ‘‘dentro de suas fronteiras’’. Ele vê a guerra, o caos, o bombardeamento do Afeganistão e do Iraque, os ataques terroristas. Seu Cristo-Grace tem que pedir ao Pai que desça o sarrafo nessa humanidade ignara. É o ritual da purificação pela destruição, a ira de Deus, tão presente na mesma Bíblia que traz a ‘‘boa nova’’.


A súmula de resultados dessa associação entre política de Estado e releitura fundamentalista do cristianismo é volumosa e, não raro, obscurantista. Em quatro anos, vimos beligerâncias despontarem, liberdades civis serem tolhidas, limitações à pesquisa e à inovação médica, desrespeito ambiental, o recrudescimento da guerra contra o aborto _a lista é longa. Das reservas petrolíferas do Alasca aos laboratórios de pesquisa sobre células-tronco, as trincheiras se multiplicaram diante da força do movimento corporativo-fundamentalista.


Nos republicanos anos 80, o ícone estético-ideológico por excelência era o soldado Rambo, aquele que sozinho cauterizou todas as feridas morais de duas décadas de incertezas americanas sobre seu papel no mundo.


Havia já ali o quesito "kick ass", mas ele tinha pouco ou nada a ver com cristianismo fundamentalista. Era uma reação amarga às desilusões e um abraço afetuoso de boas-vindas a um mundo no qual apenas o indivíduo, pouco importa se um militar neurótico ou um operador da Bolsa, fazia sentido, com sua busca pela auto-afirmação, a prosperidade.


Já a amoral e confusa década de 90 acabou passando em branco, não menos pelo fato de a pujança econômica e a falta de rumo do pós-Guerra Fria terem reavivado a tradição de isolamento norte-americano. O escândalo clássico dos anos de Bill Clinton na Casa Branca não poderia ser outro do que uma pequena sacanagem no Salão Oval. Erotismo de drive-in, embalado por um desapego com a famosa liturgia do cargo.


 Em favor de Clinton, um ‘‘bon vivant’’ casado com uma mulher com fama de megera, esse olhar para dentro foi algo menos danoso ao mundo como um todo _exclua-se aí os poréns de praxe, como o bombardeio do Sudão e afins. Ensaiou-se ao fim da Guerra Fria o reforço de instituições como a ONU, as "intervenções humanitárias". Criaram-se imagens políticas como a de Tony Blair e seu Novo Trabalhismo, tão "marquetáveis" e imitadas quanto vazias.


Chegamos então aos anos Bush. Fim da bolha da internet, ponto final na bonança financeira, atentados de "infiéis" mostrando como a lassidão clintoniana desprotegeu os EUA e, por extensão, o que chamamos de Ocidente. Um Blair subserviente a George W., caricatura do político enérgico de dez anos atrás.


 Em favor dos conservadores, é preciso dizer que eles entregam uma agenda pronta para um público desorientado e sedento de norte. Deixaram de lado a baboseira humanitária que permitiu a ex-Iugoslávia sangrar até a morte (depois fizeram uma guerra de mentirinha em Kosovo para expurgar culpas, mas essa é outra história).


 A sociedade-líder do Ocidente, a americana, é bem mais matizada do que fazem crer os discursos de seus líderes _republicanos durões ou democratas fracotes, ou ainda republicanos compassivos e democratas firmes. É nisso que se pode amparar a noção de que o momento atual seja apenas parte de um movimento cíclico, com picos mais ou menos agudos.


Com ‘‘A paixão de Cristo’’ como porta-estandarte e "Dogville’’ como divã, o que se pode dizer com certeza é que essa mistura de Novo e Velho Testamento está reclamando o trono, tanto nas telas como fora delas. O Rambo da era Bush é Cristo.


 

Igor Gielow
É jornalista, secretário de Redação da Sucursal de Brasília da "Folha de S. Paulo".



 
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