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CIÊNCIA

Nada contra a clonagem
Por Bernardo Beiguelman

Geneticista argumenta que o temor desta
técnica de reprodução é infundado

Professor emérito da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), da qual foi também pró-reitor de pós-graduação (1986-90), o cientista Bernardo Beiguelman foi recentemente agraciado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) com a Ordem Nacional do Mérito Científico, na classe de comendador.

A distinção é conferida pelo MCT desde 1993 a personalidades nacionais e estrangeiras que se destacaram por suas contribuições à ciência e à tecnologia.  Beiguelman, além de um dos principais nomes da ciência brasileira, é um dos  geneticistas de maior renome internacional.

Idealizador do Departamento de Genética Médica da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), da Unicamp, fundou o primeiro ambulatório de Genética Clínica do Brasil, em 1969, na FCM. Aposentado desde 1997, mantém vínculo não remunerado no curso de pós-graduação em Genética do Instituto de Biologia dessa universidade.

Na Unicamp, foi homenageado na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp em 1982 e em 1988, durante a inauguração de placa de bronze com o seu nome no Hospital das Clínicas, em comemoração aos 25 anos do Departamento de Genética Médica.

Tem mais de 400 trabalhos científicos, é professor titular do Programa de Pós-Graduação em biologia da relação patógeno-hospedeiro, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, e editor associado da publicação  “Genetics and Molecular Biology”.

Durante 20 anos (1972-1992) foi conselheiro da Organização Mundial da Saúde. Foi também membro do corpo de revisores da nomenclatura internacional de doenças do Cioms (Council for International Organization of Medical Sciences) e da Organização Mundial de Saúde, e incluído, por indicação dos seus pares, entre os cem cientistas e instituições científicas fundamentais que deram contribuições decisivas para o progresso do Brasil e da ciência.

Dentre as suas linhas de pesquisa, destacam-se  trabalhos pioneiros sobre a resistência e suscetibilidade hereditária à hanseníase, pesquisas sobre genética antropológica e a série de trabalhos que vem desenvolvendo mais recentemente sobre a epidemiologia de gêmeos, a qual pode trazer informações importantes sobre a biologia da reprodução humana.

No artigo a seguir, Bernardo Beiguelman desfaz equívocos e crendices sobre clones e clonagens, discutindo um dos temas essenciais da contemporaneidade.


A palavra “clone” foi criada em biologia para designar indivíduos que se originam de outros por reprodução assexuada. A “clonagem”, que é o nome que se dá à formação de clones, é o meio de reprodução mais freqüente e natural dos vegetais inferiores, mas as plantas superiores também podem se multiplicar desse modo, como é o caso da grama dos jardins, que geram plantas independentes ao formarem raízes nos nós dos ramos laterais junto à terra.

 Às vezes, como acontece com a bananeira e, geralmente, com a parreira e com a cana-de-açúcar, a clonagem é o único meio de multiplicação de uma planta. Quando um jardineiro obtém mudas de begônia a partir de uma folha ou usa estacas cortadas dos ramos de uma roseira para conseguir mudas plantadas ou enxertadas, ele está praticando clonagem. Aliás, foi dessa prática que surgiu o termo “clone”, porque, em grego, “klón” significa “estaca”.

A clonagem também ocorre naturalmente em animais, inclusive na espécie humana. De fato, em todas as populações humanas, ocorre que, de cada mil nascimentos, em média, quatro são de pares de gêmeos denominados univitelinos ou monozigóticos, porque se originam de um único ovo ou zigoto.

 Assim, em vez de o zigoto originar um único indivíduo, tem-se que, nos primeiros estágios do desenvolvimento embrionário, entre 1 e 14 dias após a formação do zigoto, ocorre uma subdivisão que dá origem a dois indivíduos. Essa subdivisão é, pois, uma reprodução assexuada. Por terem essa origem, os gêmeos monozigóticos são, indiscutivelmente, clones e, regra geral, geneticamente idênticos.

É essa identidade que faz com que os gêmeos monozigóticos sejam do mesmo sexo, isto é, pares do sexo masculino ou do sexo feminino. O nascimento de trigêmeos monozigóticos é bem menos freqüente e, mais raramente, ainda, nascem tetragêmeos ou quíntuplos monozigóticos.

Esses clones humanos naturais não devem, entretanto, ser confundidos com os gêmeos que resultam de poliovulação e que, por isso, não são necessariamente concordantes quanto ao sexo e podem ser dizigóticos, trizigóticos, tetrazigóticos etc., conforme se originem de dois, três, quatro etc. zigotos distintos.

Dissemos acima que os gêmeos monozigóticos têm, regra geral, o mesmo patrimônio genético (genótipo). Por que regra geral? Porque durante qualquer reprodução assexuada pode ocorrer alguma alteração do material genético (mutação), resultando um ser com genótipo um pouco diferente daquele presente no ser original. Mas, na ausência de mutação, os gêmeos monozigóticos, do mesmo modo que outros clones, são geneticamente idênticos.

Essa identidade genética, entretanto, não significa identidade na aparência física ou psicológica, porque todo o ser vivo é o resultado da interação da sua constituição genética com o ambiente e é por isso que os gêmeos monozigóticos têm aparência física semelhante, mas não são fisicamente idênticos, além do que, eles apresentam individualidade psicológica.

Parece interessante insistir nesse detalhe porque, lamentavelmente, existe uma tendência generalizada de enfatizar apenas a importância da constituição genética das pessoas e de menosprezar o efeito do ambiente, como se o ser humano não fosse mais do que o seu genótipo!

Tudo na sociedade humana, inclusive a criminalidade ou o uso de drogas, é apresentado pelos meios de comunicação como conseqüência de um destino genético, talvez para que muitos sejam levados a crer que os governos não podem ser responsabilizados pela “falta de sorte” de uma parte de sua população.


Dolly não foi um clone

Do exposto, pode-se concluir que, no início de 1997, os meios de comunicação denominaram incorretamente de clone a famosa ovelha Dolly, porque ela resultou da união de um ovócito de uma ovelha de cor escura, do qual foi retirado o núcleo (ovócito enucleado), com uma célula da teta de uma ovelha branca.

 Em outras palavras, a ovelha Dolly herdou da ovelha branca o material genético nuclear, isto é, o DNA contido nos cromossomos do núcleo da célula da teta, e herdou da ovelha escura o material genético citoplasmático, isto é, o DNA contido em organelas denominadas mitocôndrios.

Para gerar a ovelha Dolly alcançou-se, assim, o feito espetacular de fazer com que os genes nucleares de uma célula diferenciada originária da teta da ovelha branca passassem a funcionar como os de uma célula indiferenciada, isto é, como aquelas do início do desenvolvimento embrionário.

Visto que para gerar a ovelha Dolly foi essencial a contribuição de uma célula sexual feminina (ovócito), essa ovelha não deveria ter sido chamada de clone. Mas quem pode com os meios de comunicação, que também inventaram a designação estapafúrdia de “bebê de proveta”?

Foi, pois, assim, que a técnica empregada para produzir a ovelha Dolly, depois empregada com pequenas variações para outros mamíferos, inclusive, recentemente, para o ser humano, passou a ser conhecida como “clonagem” _e passaram a ser chamados de clones todos os animais ou embriões produzidos por essa técnica.

Se eu tivesse que dar um nome para essa técnica diria que ela é apenas mais uma dentre as diferentes técnicas de fertilização assistida, que procura unir uma célula sexual feminina enucleada com uma célula somática, isto é, uma célula não-sexual.


Temores infundados

A meu ver, a única e grande restrição que deve ser feita, no momento, à aplicação dessa técnica à espécie humana reside no fato de que, até agora, os resultados conseguidos com ela em outros mamíferos ainda estão longe de serem considerados bons.

De fato, seu rendimento é baixo, isto é, a razão entre os ovócitos necessários e os conceptos resultantes é muito alta, além do que, é alta a proporção dos conceptos gerados por essa técnica que apresentam anomalias congênitas, ou que vão a óbito neonatal por problemas respiratórios e circulatórios ou, ainda, que apresentam peso excessivamente alto associado a aumento do volume placentário.

Entretanto, assim que essa técnica estiver bem padronizada não vejo razões para que, em situações especiais, ela não possa ser aplicada à espécie humana, pois terá uma vantagem sobre a técnica de fertilização assistida que, em casos de esterilidade masculina, emprega doadores de espermatozóides. Visto que esses doadores permanecem no anonimato, sempre existirá o risco de pessoas geradas por um mesmo doador virem a se casar sem saber que são meio-irmãos e pondo, assim, sua prole em grande risco de nascimento com anomalias resultantes da consangüinidade próxima.

Evidentemente, as pessoas que se candidatarem a esse tipo de reprodução deverão estar sempre conscientes dos riscos de ocorrência de mutações indesejáveis na célula somática usada na união com o ovócito enucleado.

Considero que essa técnica de reprodução assistida, apesar de não estar bem estabelecida, longe está de ser considerada como uma ameaça à humanidade, como ela é apresentada em um número exorbitante de artigos, entrevistas, pesquisas de opinião nos meios de divulgação de todo mundo.

De fato, em que consistiria essa ameaça? Evidentemente, se esse tipo de reprodução fosse realizado em grande escala, está claro que a homogeneidade resultante poderia ser prejudicial. Em um clone, quando um indivíduo é suscetível a um microrganismo causador de uma doença, ter-se-á que, regra geral, todos os elementos do clone apresentarão a mesma suscetibilidade. Se a doença for letal, todos serão dizimados, com exceção dos que, eventualmente, forem portadores de uma mutação que confira resistência a esse microrganismo.

Esse risco de homogeneidade, entretanto, não existirá, na espécie humana, porque a maioria dos indivíduos de nossa espécie prefere o método clássico e agradável de reprodução, empregado desde os tempos imemoriais, que requer um homem e uma mulher. Portanto, os casos excepcionais dessa reprodução assistida, que tem sido chamada de clonagem, não poderiam afetar a estrutura genética das populações humanas de modo a ter um efeito significativo.

Impedir o emprego dessa técnica por causa do risco remotíssimo de sua utilização para a criação de uma sociedade homogênea, facilmente manipulável, não faz o menor sentido, porque já foi demonstrado à saciedade que a manipulação de populações humanas não exige identidade genética. Mais do que a improvável homogeneidade genética, devemos temer o ambiente homogêneo dos regimes totalitários, que conduzem ao fanatismo e ao ódio.

 

 

Bernardo Beiguelman
É professor emérito da Unicamp, professor visitante do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e membro do Conselho de Pós-Graduação do Hospital Albert Einstein.

 
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