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novo mundo
CAPITALISMO INFORMACIONAL

Sociedade anônima
Por Giselle Beiguelman

A9, programa da Amazon, e Gmail, do Google, indicam os rumos do capitalismo informacional

Se alguém tinha dúvidas sobre a precisão de Manuel Castells ao definir a nova economia como capitalismo informacional, vai dissipá-las rapidamente olhando com atenção as mudanças dos programas de busca na internet.

Apesar de continuarem funcionando como programas que servem para facilitar o encontro de informações, eles tendem a transformar-se em verdadeiras máquinas de coleta de informações sobre seus usuários.

É o que sugere o eficiente A9, programa de busca da empresa de comércio eletrônico Amazon.com lançado em abril, ainda em versão beta (de teste).

O A9 utiliza o sistema de pesquisa do Google, algumas ferramentas do Alexa Web Search (para visualização de informações sobre os resultados recebidos, tais como número de visitantes e quantos sites o linkam ) e o Search inside the book da própria loja de livros da Amazon.

A busca simultânea na web e dentro dos livros disponíveis no catálogo da Amazon é uma mão na roda para qualquer pesquisador. Os resultados são apresentados em duas colunas redimensionáveis, facilitando a visualização dos dados e beneficiando a navegação.

Além disso, o A9 elimina referências que se repetem dentro de um mesmo domínio, enxugando e otimizando os resultados. Traz, também, indicações de outros sites que quem costuma acessar essa indicação geralmente consulta (algo bem parecido com aquelas dicas: quem comprou esse livro, comprou também...). Para arrematar, indica ainda o tempo que o site indicado demora em média para carregar. Tudo isso somado pode poupar horas preciosas no trabalho e não tem equivalentes, nem similares na internet.

Maravilha, não? Mas tem mais. Nem é preciso abrir o site do A9 para fazer a pesquisa. Basta digitar o que procura na seqüência do endereço do A9, tipo “http://www.a9.com/lula+presidente” e pronto: 148 mil sites e 90 livros, com seu respectivo conteúdo relacionado ao assunto aparecerão em segundos.

É possível instalar a barra de navegação do A9 no Internet Explorer, recurso já oferecido por vários outros sites de busca, e ter um diário de pesquisa que arquiva suas consultas, indicando os sites que você visitou e quando. Esse histórico fica alojado numa terceira coluna, também redimensionável, e é acessível, para quem instalar, via a própria barra de navegação personalizado do A9.

O design da interface é realmente digno de nota: criativo, limpo e funcional, apesar de alguns analistas terem criticado a combinação de cores (pêssego e cinza), por serem muito claras.

Esse dois recursos, a barra de navegação e o histórico de pesquisa, no entanto, exigem que você seja um cliente cadastrado na Amazon. No caso da barra de navegação, exigem também que você seja usuário do sistema Windows e que utilize o Internet Explorer.

Como ninguém é obrigado a instalar a barra para utilizar o serviço, vamos deixar de lado a polêmica em torno do tema das estratégias para confinar o usuário no mundo Microsoft, sem lhe dar outra opção.

Quanto à vinculação do histórico de pesquisa à assinatura da Amazon, é bom lembrar que:

a) Tudo que for pesquisado estará diretamente associado ao seu número de cartão de crédito, endereço e perfil de consumo na Amazon.

b) Há quem diga que a Amazon pode estar pensando em um novo setor de negócios relacionado ao mercado de buscas, que venderia esse sistema para outros clientes.

c) Internet serve também para fazer compras on line, em outros sites, e as escolhas dos bens que você selecionou ou clicou também fazem parte desse conjunto de sites arquivados no seu histórico do A9.

O contrato de uso do A9 garante que as informações que transitam em sites seguros não são armazenadas. Contudo, só o vínculo entre cartão de crédito, perfil de consumo na Amazon e de navegação já são suficientes para ponderar que é muito dado sobre alguém circulando pelos bancos de dados da Amazon, não é?

E aí, sem querer dar uma de Polyanna moça, nem ceder à paranóia de que a sociedade de controle é inerente ao capitalismo informacional, aparece uma dúvida.

Um dos pilares de sucesso da Amazon é o requinte de sua política antispam. É um dos poucos sites em que se usa com tranqüilidade o e-mail pessoal. Sabemos, e os anos nos provam, que ele não se torna uma porta aberta para uma enxurrada de e-mails cretinos sobre cortadores de comprimidos e afins que nunca consumiremos.

Sabemos, também, que os agentes inteligentes da Amazon são bem programados e que as sugestões que são feitas de livros, discos, DVDs, a partir de um produto que escolhemos, geralmente enriquecem nosso acervo e empobrecem nossa conta bancária.

Isso posto, pode-se presumir que o A9 se torne um grande aliado dos consumidores da Amazon, que passarão a dispor de um sofisticado perfil armazenado na empresa capaz de filtrar com mais rigor suas sugestões de compras paralelas.

Mas dá medo. Principalmente porque o lançamento do A9 foi feito cerca de duas semanas depois da quase estréia do Gmail do Google, que foi anunciado, mas não tem data de início real prevista.

Resumindo o que foi exaustivamente noticiado, o Google anunciou um serviço de e-mail grátis com capacidade de armazenamento de 1 Gigabyte (ou seja 1000 Megabytes). É muito. Serviços equivalentes (de e-mail grátis, como o Yahoo e o Hotmail) oferecem no máximo 4 megabytes.

Os e-mails não seriam nunca apagados do servidor, e o usuário ainda disporia de busca especial para suas mensagens, um sofisticado sistema antispam para filtrar mensagens indesejadas e não teria que conviver com banners de anunciantes.

No lugar de pop-ups (aquelas insuportáveis janelinhas que se abrem automaticamente) e de figurinhas saltitantes, o usuário teria “apenas” que conviver com os delicados links patrocinados do Google, como já faz quando usa o programa de busca da empresa.

Esse apenas merece aspas por que é justamente na mecânica de colocação dos anúncios que residem as suspeitas sobre o Gmail. Ela funciona na base do AdSense, ou anúncio sensitivo em tradução aproximada, que combina palavras-chaves a determinados produtos.

O mesmo procedimento que organiza a distribuição das propagandas no programa de busca, fazendo com que links patrocinados para sites de jogos apareçam na pesquisa sobre jogos on line, migraria para a caixa postal do usuário, ligando anúncios aos comentários pessoais que alguém estivesse fazendo sobre um filme, um CD, um livro etc.

Foi o suficiente para que o serviço fosse acusado de violar a privacidade. O Google garante que tudo é feito por robôs e que ninguém leria as mensagens. Acreditamos. Até porque seria uma massa de mensagens que demandaria um exército global de funcionários. Mas ninguém está preocupado com quem lerá os e-mails. Isso só faria sentido na época mercantil do capitalismo. Não na informacional, em que a economia e as sociedades se organizam em sistemas de geometria variável, de acordo com o fluxo de dados.

O fato de ser um procedimento automatizado não minimiza o problema, pois o que importa é a massa de informações que é gerada e colada em circulação. Novamente, pode-se pensar que isso teria um efeito positivo no desenvolvimento de agentes inteligentes que personalizariam o marketing e a publicidade.

Pode-se, também, pensar parâmetros mais éticos que permitiriam ao usuário decidir se quer, ou não, transformar-se em doador de dados ambulante, o que provavelmente seria feito na base de um serviço pago em contraposição a um modelo gratuito mantido pelo fornecimento automático dessas informações.

Mas salta aos olhos que essa movimentação toda que põe o mercado de Tecnologia de Informação no âmbito do B2C (Business to Consumer), revertendo a tendência de concentração no do B2B (Business to Business), se faça a partir das ferramentas mais básicas de sobrevivência -ou inclusão- no mundo globalizado: programa de busca e e-mail.

Tudo bem. Ninguém dotado de um par de neurônios em boas condições acreditava que a internet consolidaria a civilização ciberhippie e que nos tornaríamos todos webirmãozinhos, dividindo um mundo livre, ou que o capitalismo informacional nos livraria da violência da exploração do homem pelo homem numa economia sem suor.

Contudo, a recusa da inocência não nos exime de pensar que esse sistema poderia estar fundado numa teia de relações em que nos tornamos consumidores consumíveis pelo que consumimos e que isso demanda elaboração de contrapropostas políticas que saibam lidar com as especificidades dessa “sociedade patrocinada” que faz o capitalismo informacional funcionar.

Caso contrário restam poucas alternativas:

a) acreditar que “capitalismo informacional” é uma balela inventada pelo neoliberalismo para ocultar a luta de classes.

b) acreditar que existem empresas superlegais e suicidas que oferecem produtos grátis para você ser feliz.

c) acreditar em duendes.

link-se
A9 - http://www.a9.com/
Gmail - https://gmail.google.com/

Giselle Beiguelman
É professora do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP. Autora de "A República de Hemingway" (Perspectiva), entre outros. Desde 1998 tem um estúdio de criação digital (desvirtual - www.desvirtual.com) onde são desenvolvidos seus projetos, como "O Livro Depois do Livro", "Content=No Cache" e "Wopart". É editora da seção "Novo Mundo", de Trópico.

 
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