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dossiê
MONSTROS

Caninos na carótida:uma breve história dos vampiros no cinema
Por Walnice Nogueira Galvão



Bela Lugosi em "Dracula" (1931)

A passagem de Roman Polanski pelo Brasil, a propósito do festival de seus filmes, quando mais não fosse teve o mérito de retirar da obscuridade esses seres tão injustiçados, os vampiros. “A dança dos vampiros” (1967), exibido na mostra, dialoga com uma considerável tradição cinematográfica, que se alçou ao patamar de gênero autônomo embora cult. Dados dos anos 90 computam no patrimônio da humanidade 156 filmes, 120 curtas, 20 novelas de TV, 19 séries televisivas e 600 histórias em quadrinhos; faltam estatísticas para os videogames. O gênero seria responsável pelo surgimento de um bestiário e de sua iconografia.

Oriundos do terror ancestral que os mortos suscitam nos vivos, sabe-se que as religiões e os ritos se encarniçam em exconjurá-los para que permaneçam em seu lugar e dele não saiam, deixando-nos em paz. O medo básico é o de que eles voltem: alma-do-outro-mundo em francês é revenant, ou aquele que volta. Em nossa língua, “alma penada” é a que cumpre pena de vagar pelo mundo dos vivos em vez de ficar bem quietinha onde lhe compete. Não é outro o sentido do Dia dos Mortos, de Halloween, das celebrações de defuntos, das cerimônias de sepultamento, tão importantes em qualquer sociedade.

Entes como esses, antes de chegar ao cinema provêm da literatura -do romance gótico e do Romantismo, que explorou a face noturna da psique, deleitando-se tanto no decadentismo quanto no satanismo- e em alguns casos até do folclore. Há seres sobrenaturais dos dois lados. Do lado do bem, das luzes, da esfera solar: fadas, duendes protetores, elfos, Papai Noel. Do lado do mal, das trevas, da esfera lunar: lobisomens, avantesmas, fantasmas, assombrações. Pertencem os vampiros à tribo dos mortos-vivos, juntamente com Frankenstein e com o Médico/Monstro, os três arquétipos principais.

Frankenstein, que nasceu da inspiração de Mary Shelley no livro homônimo (1818), é um ser humano criado em laboratório, a partir da montagem mal feita de pedaços de cadáveres. De certo modo, é precursor do transplante de órgãos e da engenharia genética, bem como da plastificação de corpos para estudos de anatomia. Implica na usurpação de uma prerrogativa de Deus, até então o único Criador. Concorre para isso o pressentimento de que as forças da natureza liberadas pela Revolução Industrial, de que o livro é contemporâneo e conterrâneo, podem, como o gênio em “As mil e uma noites”, atender a todos os desejos dos amos, mas nunca mais regressar à garrafa, uma vez destampada.

Estudo da dupla personalidade, “O médico e o monstro” já foi refilmado inúmeras vezes e se origina de um romance de Robert Louis Stevenson (1886), igualmente inglês. O médico fabrica e bebe uma poção que o transforma no oposto, numa de suas experiências científicas. Escrito na época vitoriana, quando imperava o puritanismo, ilustra, na cisão entre as duas pessoas, uma um bondoso médico e a outra um assassino, a dificuldade de integrar numa só personalidade as forças recalcadas do instinto, como a sexualidade e a agressividade. É o esquema dos contos de fada, onde convivem uma mãe boa e uma madrasta má, duplicação que a criança opera porque não pode aceitar que ambas sejam aspectos complementares da mesma pessoa: a mãe que alimenta e afaga, a madrasta que se enfurece e castiga. Ou dos mitos de irmãos inimigos, um bom e outro mau, como Caim e Abel. Observa-se, como na saga de Frankenstein, o temor às conseqüências da ciência e da tecnologia.

O primeiro “Frankenstein” (1931) tem como protagonista Boris Karloff, numa caracterização a tal ponto notável que influenciaria toda a seqüência. Nas histórias em quadrinhos vemos que é seu fenótipo, perfeitamente reconhecível, que prevalece. Em qualquer filme de monstro, lá está ele, mesmo que com outro nome e em entrecho alheio, por exemplo em “A família Adams”: estatura de gigante, cabeçorra e testa ainda maior, olhos esgazeados, cicatriz de costura riscando a testa em linha paralela à do cabelo, com porcas e parafusos de metal atravessando o pescoço de lado a lado, tudo isso vestígios da montagem de que resulta.

Para o vampiro, o livro de base é “Drácula”, do irlandês Bram Stoker (1897). No filme de mesmo título (1931), a cara de Bela Lugosi no papel do protagonista ficou igualmente impregnada em toda a produção posterior. Ele quase não fala, mas sua máscara é notavelmente expressiva: sobre o fundo branco, uma boca de lábios finos enegrecidos pelo batom roxo, olhos escuros que brilham malevolamente na cercadura também negra, a calota de cabelo cor de azeviche alisado para trás com brilhantina. Quase sempre as reedições mesmo recentes trazem Bela Lugosi na capa.

Quando até um seriado juvenil como “Buffy, a caça-vampiros” passa há anos na televisão, ninguém mais ignora as características dos vampiros. Dormem de dia num esquife e perambulam à noite, já que a luz do sol lhes é nefasta. São imortais, a menos que tenham o coração trespassado por uma estaca de madeira. Podem ser afugentados por alho, cruzes e água benta. Sua imagem não se reflete nos espelhos. Ostentam caninos hipertrofiados, de rigor para o close nas cenas em que mergulham no pescoço das vítimas. Infectam os incautos e ao sugar-lhes o sangue passam adiante sua condição. Metamorfoseiam-se em morcegos: esses hematófagos foram uma fonte de inspiração para a criação dos vampiros humanos.

Não faltou uma interpretação materialista, que neles vê simbolizada a super-exploração dos servos pelos senhores feudais. E tiveram um modelo histórico no príncipe Vlad, o Empalador, da Romênia (século XV), alcunhado Drácula, ou O Demônio, imortalizado por uma gravura em que se banqueteia à vista dos coitados que mandou empalar.

Grandes cineastas, experimentando a mão, como Francis Ford Coppola em “Dracula de Bram Stoker” (1992)., dourariam periodicamente os brasões de um gênero menor que nunca passou de cult. Afora os filmes de concepção mais tradicional, sem maior graça, resultariam algumas linhas bem interessantes, e que se beneficiaram sobretudo desses diretores. Uma explora a crise existencial, outra o erotismo e ainda outra a paródia.

Dois filmes ilustram a primeira. Em “Entrevista com o vampiro” (1994), que passa com freqüência na TV a cabo, Brad Pitt, do lado do bem, perde seu tempo e sua lábia tentando convencer Tom Cruise a substituir o sangue humano por sangue animal. E em “Fome de viver” (1983), Catherine Deneuve e David Bowie, com todo o seu charme, vivem vampiros entediados e altamente conscientes, condenados a alimentar seu vício pela eternidade.

Os que carregam nos acentos sexuais chegam a resultados bem curiosos. Um deles é “Rosas de sangue” (1960), de Roger Vadim, cujo título original, “Et mourir de plaisir”, dava uma idéia melhor de suas más intenções. Outro, o de Werner Herzog, “Nosferatu, o vampiro da noite” (1979), assim intitulado em homenagem ao ilustre antecessor compatriota, abriu oportunidade para que o grande Klaus Kinski desse um show de interpretação, especialmente quando assediava a beleza vulnerável de Isabelle Adjani.

A paródia viria a ser inevitável, tal a carga de terror e de melodrama, a exigir algum grau de catarse. Entre outros, Mel Brooks dedicaria sua verve farsesca a “Dracula, morto mas feliz” (1995). E é aqui que se inscreve “A dança dos vampiros”, derivando seu interesse do fato de ser visualmente belíssimo, graças a uma notável direção de arte, e ter o próprio Roman Polanski como protagonista. Sendo uma paródia, permite ao diretor o desmantelamento dos clichês do gênero, havendo até um vampiro gay. E o final constitui a piada maior: o desastrado professor à caça desses seres rapta do castelo duas pessoas infectadas, ou dois novos vampiros, não mais trancafiados, mas soltos no mundo por suas próprias mãos. Ou seja, fica insinuado o futuro de um mundo só de vampiros.

Não se pode falar neles, é claro, sem prestar homenagem à produtora inglesa Hammer, a Peter Cushing e a Christopher Lee, que estrelou nada menos que oito filmes de Drácula. Depois, faria toda uma carreira falando da experiência, sobretudo em documentários para TV, tal sua identificação com a personagem. Sua efígie seria aproveitada em campeões de bilheteria, como “Guerra nas estrelas” e “O senhor dos anéis”, nos quais é ator de proeminência.

Numa das maiores fases que o cinema já conheceu, o expressionismo alemão, surgiram filmes inaugurais como “O gabinete do Dr. Caligari” (1919), de Robert Wiene, “Nosferatu, o vampiro”, de F.W. Murnau (1922) e “O Vampiro de Düsseldorf”, de Fritz Lang (1931). Neste último o termo é usado metaforicamente: não se trata de um vampiro propriamente dito, mas de um assassino serial que estupra e mata menininhas. Na literatura, como vimos, o gênero constituíra uma resposta ficcional possível à angústia despertada pela Revolução Industrial. Sua penetração no cinema da própria Alemanha coincide com a ascensão do nazismo, com as doutrinas de eugenia e com a paranóia nutrindo fantasias sobre seres impuros ou mistos, ou seja, não-arianos (como vampiros, como Frankenstein, como o Médico/Monstro). Delineiam-se no horizonte, logo depois levadas a cabo, as experiências médicas com seres humanos, com o objetivo de intervir na programação genética, que implicariam nas horripilantes práticas de mutilação e tortura do gabinete do dr. Mengele em Auschwitz, insinuadas nesses filmes.

Ou bem os pesadelos mudaram, ou bem a realidade os ultrapassou, com vantagem. O cinema, por sua vez, embrenhou-se numa escalada de violência cujo termo não se divisa. Hoje os vampiros, e outras projeções fantásticas, parecem encantadoramente datados. Surgem à distância para nós, agora, e podemos encará-los até com afeto.


Walnice Nogueira Galvão
É professora titular de literatura na USP. Foi responsável pela edição crítica de "Os Sertões" (Ática), de Euclides da Cunha. Publicou 22 livros, entre eles "No Calor da Hora" (Ática), "O Império de Belo Monte" (Fundação Perseu Abramo) e "Guimarães Rosa" (Publifolha).

 
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