LITERATURA
Poesia presente: Tarso de Melo, por Heitor Ferraz
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entrevista
CINEMA

Um dândi entre dois tempos
Por Vitor Angelo

A diretora Monique Gardenberg fala sobre "Benjamin", adaptado do livro de Chico Buarque

“Benjamim”, o segundo longa da diretora baiana Monique Gardenberg, foi adaptado do romance homônimo de Chico Buarque, lançado em 1995. Conta a história do modelo fotográfico Benjamim Zambraia que, ao encontrar a corretora de imóveis Ariela Masé, começa a rememorar o grande amor de sua vida: Castana Beatriz.

Em uma narrativa suspensa em diversos tempos, Monique dedica o filme à memória de sua irmã, Sylvia Gardenberg (1960-1998). Juntas, elas fundaram, em 1982, a Dueto, uma produtora de eventos culturais de grande porte, que trouxe ao Brasil astros como Madonna e os Rolling Stones. Sylvia morreu aos 38 anos.

Neste filme, Monique muda seu cinema totalmente de registro. Se em seu primeiro longa, "Jenipapo" (1996), sua atenção se voltava para o mundo exterior e para a crítica social, em “Benjamim”, ela decide por uma interioridade caleidoscópica. Entramos dentro das angústias da personagem principal aos poucos, conforme a narrativa vai se solidificando.

Temos também, neste momento, uma diretora mais solitária, que não está tão presa aos ditames da classe cinematográfica. Em “Jenipapo” existia uma vontade de filiação a um cinema que fosse ao mesmo tempo militante e internacional. A trama que envolve sem-terras, um assunto do Terceiro Mundo que causa interesse ao Primeiro Mundo, e o fato de ser quase todo falado em inglês, faz desse filme um paradoxo, pois não é um produto nem brasileiro nem globalizado.

Com “Benjamim”, Monique abre espaço para um mundo mais interiorizado, para a busca da identidade, fato raro no nosso cinema de hoje, afoito para “desvendar” as camadas excluídas da nossa sociedade e estandartizá-las para o mundo, fazendo uma espécie de cinema novo amanhecido ou, como prefere a pesquisadora Ivana Bentes, uma “cosmética da fome”.

"Benjamin" traz também uma surpresa e um presente aos espectadores: a novata Cleo Pires, que interpreta Castana e Ariela no filme. Sua qualidade de atriz de cinema é inegável, e a tela brilha com a sua fotogenia. De expressão ímpar, Cleo promete ser uma das novas divas do cinema brasileiro.

Na entrevista a seguir, Monique Gardenberg fala de seu filme.


Quais foram os impulsos que levaram você a adaptar “Benjamin” para o cinema?

Gardenberg: “Benjamin” tem uma narrativa brilhante e foi isto foi o que mais me atraiu no livro: a possibilidade de realizar um filme cuja forma não fosse convencional. Chico Buarque criou uma narrativa extraordinária, um quebra-cabeças para contar esta história que se passa em dois tempos. De forma surpreendente, a cada volta no tempo, ele nos dá uma nova informação que muda inteiramente o que lemos (ou assistimos) até aquele instante, aumentando a tensão incrivelmente.


Como foi o trabalho de adaptação do livro para cinema?

Gardenberg: Adaptar uma obra literária para o cinema não é uma tarefa fácil e esta era especialmente difícil. Excelentes livros podem dar em filmes muito ruins. Para você fazer um bom cinema você tem que desrespeitar a obra que o originou. E não é fácil desrespeitar Chico Buarque. Junto com Jorge Furtado e Glênio Póvoas procuramos manter a narrativa elíptica do livro, secamos um pouco as histórias paralelas, mas mantivemos a essência.


Quais foram as discussões mais constantes que você teve com os roteiristas?

Gardenberg:Havia um consenso de que todos queriam contar uma história que ficasse clara, do início ao fim, por mais difícil que fosse a narrativa. Acho que procurei também proteger mais as personagens, cuidei delas de forma que a platéia sentisse simpatia, afeição ou compaixão por elas. Também procurei fazer de Benjamin um homem leve, apesar do seu passado, um homem vaidoso, um dândi fora do seu tempo, retirando algo de deprimente que sua personagem central tinha no livro.


Gostaria que você evidenciasse e exemplificasse as infidelidades do roteiro em relação ao filme.

Gardenberg: Não existiu nenhuma infidelidade. O que fiz foi criarcenas, ou modificá-las de forma a ajudar o perfeito entendimento da história ou a criar os climas, as atmosferas que queria que estivessem impregnadas na tela. No primeiro sentido tem o fato de eu deslocar o sonho que abre o filme para o passado, diferentemente do livro, onde ele acontece no presente. Tem também o fato de eu ter colocado a pequena Ariela dentro da casa dos pais no dia em que as Forças Armadas chegam até aquele sobrado.

Já no outro sentido, procurei trazer a política para mais dentro das cenas, criando um pano de fundo mais tenso e levando para a tela momentos que presenciamos nos anos de chumbo. Em Paris, em vez deles estarem se divertindo em cassinos, coloquei Castana interrompendo um beijo ardente em Benjamin para prestar atenção às notícias da televisão que transmitiam a explosão do movimento estudantil pelas ruas de Paris, o conflito entre estudantes e a polícia.

Em seguida, quando Benjamin busca Castana pelas ruas, ele avista seu grande amor no meio de uma passeata e se atira nos braços de um policial para salvar Castana da provável prisão e tortura. Esses dois acontecimentos não estavam no livro, mas não criam nenhuma infidelidade, ao contrário, ajudam a retratar aquele tempo.


Como Chico Buarque participou do processo criativo do roteiro?

Monique Gardenberg: Ele leu cada tratamento do roteiro e fez comentários de forma totalmente não possessiva. Chico sempre quis que o filme fosse o filme, que tivesse toda a liberdade. Mas eu pedi ao Chico, uma vez que foi ele quem deu a luz a toda aquela gente, que me ajudasse a guardar a coerência em cada cena que eu criava.


Qual foi a cena mais difícil, na sua opinião, de filmar?

Gardenberg: A cena final do filme. Precisava que a emoção estivesse no seu grau máximo, que os atores, Paulo José e Cleo Pires, estivessem exauridos pela tensão daquele momento da história. Decidi que seria a última cena de um dia bastante cansativo, levei caixas de som e toquei “Anos de Solidão” (um clássico do músico argentino Astor Piazolla) para ajudar a criar o clima de desespero que a cena precisava. Mas estava muito nervosa, nunca tinha dirigido uma cena com tamanha carga dramática e precisava que ela ficasse no tom absolutamente certo.


De certa maneira, “Benjamin” é um filme totalmente diferente do “Jenipapo”. Se este era um filme “externo”, tratava de questões políticas e sociais, "Benjamin” é um filme mais interior, íntimo. Você vê outras diferenças entre esses seus dois filmes?

Gardenberg: Concordo com o que você disse em certo grau, porque “Benjamin” é mais inteiro, mais visceral. Mas em ambos, falo de mim. Os dois possuem aspectos autobiográficos. Mas talvez um (“Benjamin”) seja mais carregado de paixão que o outro (“Jenipapo”).

“Benjamin” é para minha irmã, fala da saudade que sinto dela, fala da possibilidade inconcebível da “reencarnação”, das emoções de poder estar diante do ser amado que perdemos, das memórias que se misturam o tempo todo com a realidade presente. É um grito de amor para ela, do início ao fim.

“Jenipapo” é a busca do figura paterna. Por mais que eu não me pareça nada com o jornalista, por mais que as temáticas sejam externas como você mesmo colocou (sem-terras, mídia, ética...), às vezes eu sou ele, nem que seja na sua última bíblica frase: "Pai, por que me abandonastes?”.


Como você chegou até Cleo Pires e como sentiu que ela era ideal para os dois papéis que interpretou?

Gardenberg: Eu tinha uma verdadeira fixação pela Cleo Pires. Observava a Cleo de longe. Cruzava com ela em vários lugares do Rio e sempre ficava impressionada com a sua presença, forte, sua sensualidade à flor da pele, seu jeito de menina e ao mesmo tempo cheia de mistério, o que é difícil encontrar em alguém de 19 anos.

Cismei que tinha que ser a Cleo, cismei que a aparição de Ariela para Benjamin tinha que ser também uma grande aparição para a platéia.

Minha intuição não estava errada. A Cleo é um talento nato. Tem perfeita noção do que é atuar para o cinema, onde você não pode representar de forma alguma, onde não deve fazer nada, no sentido de que tem que tentar interiorizar aquilo, vivenciar aquilo e deixar que a platéia faça o resto por você. Cleo fez cinema como uma veterana.


E no entanto ela é praticamente uma iniciante... Como foi o trabalho de direção de atores?

Gardenberg: Prometi a Cleo que iria prepará-la para o papel. Percebi que fora o nervosismo dela que tinha feito, até aquele momento, com que ela fosse reprovada em todos os testes dos quais havia participado, para cinema ou para comerciais. Trabalhamos devagarzinho, aos poucos, durante um mês e meio. Comecei com as cenas mais simples, Ariela escrevendo as cartas, Ariela ao telefone, e depois de uma semana ensaiamos a cena em que ela conta ao marido que foi estuprada. Quando ela terminou (eu estava deitada com uma câmera no rosto como se eu fosse o personagem Jeovan), eu estava bem emocionada. Ali eu tive certeza de que tinha a minha protagonista.


Como foi trabalhar com Paulo José? Como foi a composição do seu personagem Benjamin e como ele contribuiu nessa construção?

Gardenberg: Precisava de um ator com a densidade do Paulo, que pudesse dar ao papel toda a complexidade que ele exigia. O Benjamin é um sujeito que nunca está onde ele vive, está sempre no mundo das memórias. É meio perplexo perante a vida, tem a alegria de uma criança, mas a melancolia de um homem maduro.

Tudo isso o Paulo José vive de forma comovente, com todos os matizes que Benjamin precisava para existir na tela. Durante o processo de ensaios, percebi que o Paulo sempre mexia o corpo, sempre dançava quando estávamos conversando, ou provando os figurinos. Comecei a incorporar isso ao personagem. Também utilizava músicas para filmar as cenas sem diálogos e depois fiquei sabendo que ele próprio tinha sempre uma música na cabeça para dar mais leveza ao personagem. Tínhamos esta mesma compreensão do Benjamin, queríamos ambos que ele fosse leve, apesar da culpa, que ele fosse adorável, apesar de patético, que ele fosse alegre, apesar da melancolia que sempre deveria aparentar, mesmo depois de um sorriso. O nosso entendimento de Benjamin é o mesmo, e isso foi fundamental para o resultado final.


No filme, o passado é mais glamouroso que o presente e tem um clima nostálgico. Como você chegou a decidir esteticamente as separações temporais?

Gardenberg: A fotografia e a direção de arte foram cuidadosamente pensadas por mim, pelo Marcelo Durst, Marcos Flaksman e Marcelo Pies para que elas retratassem de forma clara não só os tempos diversos em que o filme se passa, como também o sentimento que cerca cada uma das épocas.

O passado era colorido, cheio de alegria, glamour, o presente deveria ser triste, como se tivesse perdido a cor, perdido a graça. Então, usamos o positivo para filmar o passado e revelamos como negativo, com isso, o filme dá uma pirada, literalmente, produz cores exuberantes e resultados incontroláveis.

Para o presente usamos negativo comum, cores frias e luz fria. Além disso, o passado é filmado todo sobre tripé, com plano e contraplano, enquanto o presente foi todo feito com câmera na mão, como se antigamente a gente dispusesse de mais tempo, mais calma e hoje tudo fosse mais urgente.


A música tem um papel importante no seu filme. Como você a trabalhou?

Gardenberg: Benjamin é um sujeito nostálgico, que não vive onde está, e sim nas memórias de um tempo que passou, mais glamouroso, mais cheio de graça, mais ingênuo.

Por isso, a presença da música é muito importante, porque além dela nos dar este dado sobre Benjamin, ela surge como recurso para evocar a memória emotiva da platéia. Com as músicas, eu consigo criar uma sentimento de nostalgia na tela e na platéia. Assim, usei músicas dos anos 60, como se eu estivesse "sampleando" no cinema, ou seja, pegando um pedaço de uma música e colocando-a a serviço do resgate de uma emoção perdida.

Também usei trilhas de filmes que “emprestariam” o sentimento que eu queria passar, o sentimento que já estava contido no filme que as originou: "Um Homem, Uma Mulher", "Morte em Veneza"... A idéia era trazer a emoção deum tempo, através da música, ou “roubar” a emoção de uma obra, através das trilhas originais desses filmes.

Já no tempo presente procurei usar a música eletrônica do Goldie, Craig Armstrong, Gotan Project e o tema “Benjamin”, criado por Arnaldo Antunes e Chico Neves. Como se na música o processo se repetisse: saem as canções e entram as batidas eletrônicas.


Fale um pouco de seus próximos projetos para cinema.

 
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