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novo mundo
IDENTIDADE

"33": decifro-me e você devora
Por Marcus Bastos

Filme do diretor Kiko Goifman é um documento da nova cultura dos blogs e webcâmeras

Em "33", filme de Kiko Goifman que estreou recentemente em São Paulo, o diretor mineiro é personagem e autor do documentário em que busca, por 33 dias, sua mãe biológica, com auxílio de detetives bastante particulares, um diário publicado na internet e entrevistas para programas de televisão.

Do ponto de vista da linguagem, "33" é um filho do vídeo, adotado pelo cinema. Basta lembrar da seqüência em que o diretor, após entrevistar detetives no centro de São Paulo à procura de dicas para sua missão parte para Belo Horizonte em busca de sua mãe biológica.

A estrada em closes extremos, o ritmo difuso, as luzes que estouram, a chuva que borra a tela, quando o foco desmancha, remetem ao universo do que poderíamos chamar de “road video”. Sem a invenção dos equipamentos digitais e sua portabilidade, "33" não seria possível.

Contudo, a ligação desse filme com a cultura digital vai muito além do instrumental técnico. O que chama a atenção no filme é o modo como revela o quanto a construção da identidade e da intimidade hoje estão relacionadas às formas pelas quais nos projetamos por meio de câmeras.

Desse ponto de vista, o filme de Goifman indica uma mudança de atitude em relação às câmeras de pequeno porte que se tornaram equipamentos de uso voluntário, deixando de ser apenas "olhos ocultos" que nos espionavam em recintos fechados.

Afinal, nos anos 80 e 90, elas funcionavam, basicamente, como aparelhos invasores, instalando uma cultura da vigilância em que os circuitos internos em bancos, metrôs e condomínios são exemplos recorrentes.

Esse uso ainda sobrevive, mas já foi atualizado por outros mecanismos de controle, recentemente discutidos no artigo "Coleiras Digitais" (leia aqui), publicado em Trópico, abrindo espaço para um outro modelo de utilização desse tipo de câmera, catalisado pela popularização do uso pessoal de webcams.

Os usuários desse tipo de equipamento expõem sua intimidade, com ajuda de sites de internet em que a tônica é tornar público o que antes ficava entre quatro paredes. Em vez de servir a estratégias de vigilância, essas câmeras servem à exposição e à revelação da intimidade.

Não há mais segredos. Blogs e webcams ocupam o ciberespaço e criam novas formas de elaboração e de "publicização" de inúmeras identidades provisórias.

A arte contemporânea, especialmente nas vertentes ligadas aos meios eletrônicos e digitais, encontra nessa ruptura entre público e privado uma de suas temáticas mais recorrentes, como fica claro no caso do polêmico site de Mouchette, uma holandesa, supostamente adolescente, vítima do abuso sexual de seu pai.

Não se sabe quem é Mouchette, se ela existe ou se é invenção... Porém, é importante notar que ela não é apenas um provável personagem de ficção. Mouchette habita um espaço sempre em construção e tem sua personalidade alterada e seu cotidiano dirigido pela comunidade de usuários de seu site que funciona como interface de compartilhamento de sua (s) identidade (s).

A estratégia de construção ecoa, por exemplo, no blog "Brasileira Preta" (2001-2003), de Clara Avebuck. A semelhança entre o relato de uma personagem de ficção e de uma escritora de carne, ossos e peircings, permite que se reflita sobre os limites entre o documental e o fictício e sobre as formas de construção de identidade na sociedade mediatizada.

Os dois casos fazem-nos interrogar não apenas qual é o lugar do "eu" e do "outro" no espaço público, mas, acima de tudo, no espaço do trânsito entre as mídias, um dos temas subjacentes a "33", já que é um projeto pontuado pelo uso das narrativas orais, dos diários on line e dos programas televisivos.

É esclarecedora, nesse sentido, a confissão de Goifman no final do seu diário de bordo on line, publicada em 12 de outubro de 2001 no site "NO". Diz o diretor-personagem e tema de “33”: "Em vários momentos eu disse que liguei, visitei todos os locais e encontrei pistas. Mentira. Claudia, minha mulher, dividiu a busca comigo. Em outros momentos, optei por marcar aqui uma solidão. Confesso que exagerei. Contei também com Jurandir, em São Paulo. Liguei para ele nos momentos de desespero. Não foram poucos".

Esse tom confessional predomina no projeto, jogando, contudo, com a revelação e o ocultamento, em movimento paralelo à seqüência de descobertas e pistas falsas com que ele se depara no filme.

Por isso, o diário on line e a presença em programas de televisão são partes que têm mais que uma importância contextual. As aparições na mídia reforçam a multiplicidade de papéis que Goifman assume. Ele é personagem de seu filme, detetive em busca de si próprio e diretor do documentário que relata essa procura.

No plano das imagens, essa multiplicação é representada pelos reflexos do diretor em vidros e espelhos, assim como pela alteração da imagem nos closes da lupa de detetive que se coloca entre a lente e o filmado, em diversos momentos de "33".

Essa multiplicidade de papéis que Goifman desempenha é semelhante à exploração de personalidades alternativas, comum na internet em ambientes virtuais e salas de bate-papo, em que o usuário assume o lugar de um avatar.

Afinal, o que é o avatar se não uma personalidade virtual que o usuário veste, enquanto participa daquela interação, e troca por outra, como quem troca de roupa?

Goifman explora, assim, a sedução que o estar na mídia suscita e cria uma identificação diferente com o espectador, estimulando e sendo estimulado pelo voyeurismo coletivo, que é um dos traços marcantes da emergente sociedade dos blogs e webcams, em que a identidade e a intimidade se constroem em circuitos de comunicação distribuída.

link-se
33 - http://www.uol.com.br/33
Mouchette - http://www.mouchette.org
Brasileira Preta, de Clara Avebuck - http://www.brazileirapreta.blogspot.com/

Marcus Bastos
É jornalista sampleado em professor do curso de Tecnologia e Mídias da PUC-SP. Foi meio-campo reserva do Bauru Tênis Clube, na temporada 1996 da Helsinki Cup (Finlândia). Às vezes, anda de bicicleta no Ibirapuera.

 
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