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dossiê
NOVA LITERATURA

"Amigas"um conto inédito
Por Cristovão Tezza

Ao mover do trinco, ela sentiu: era como se as mulheres tentassem se esconder, mas, escravas da imagem, restavam a meio caminho, num jogo de estátuas. Ela entrou, um envelope na mão, e fechou a porta com violência. Imóvel, investigou em silêncio as figuras. Parece que havia mais alguém em algum lugar. Uma tela inacabada no cavalete. Ou seriam todas inacabadas? Pincéis, tinta, cheiro de solvente, sujeira, muita sujeira. O quarto fechado. Como se algo assustasse, a voz não saiu tão alta quanto desejava:

- Meu bem?!

Nenhuma resposta. Ele estaria morto - que o procurasse na rua, 39 andares abaixo. Passou pelos vultos coloridos que lhe davam as costas, cabisbaixas, e abriu lentamente a porta do quarto. Pôs a cabeça para dentro: ele dormia? Entrou na penumbra, trancou a porta à chave e sentou-se na beira da cama. Contemplava as sombras do seu homem, tensa - dois filhos concebidos e mortos: um por conta própria, em dois meses; outro pela mão de uma curandeira, que aconselhou: ele deveria tomar chá com água das abluções menstruais. Se tomasse dessa água, ela estaria salva - nunca mais se veriam. Ela estaria livre para viver. Depois, quando morta, seria recebida no pátio do Céu por um séquito de anjinhas brancas e flutuaria no espaço translúcido, sorridente, por toda a eternidade.

Ele se moveu, sem abrir os olhos. Cheiro de bebida no quarto. Ela levantou-se e foi à janela, esbarrando numa garrafa de uísque, que resvalou em pé. Abriu a cortina de um golpe e os anjos enviaram raios furiosos e cortantes de sol - ele enfiou a cabeça sob as cobertas, emitindo um ronco. Ela escancarou a janela e olhou para baixo com a lentidão de quem avalia a qualidade da água no fundo de um poço, e recuou, tonta. Ele mostrou a cara, acordando. Súbita, furiosa, ela rompeu o envelope e sacudiu o papel:

- Você pode me explicar isso? quer me matar? pensa que sou de ferro? que vou estar sempre aqui pra te salvar? que...

Ele esfregava os olhos:

- Polaca?

Ela voltou à janela, sempre furiosa - pondo-se na ponta dos pés, investigou de novo o fundo do poço, de onde subia uma zoada perdida.

- Marta?! Desculpe, maninha... a voz é a mesma... - e a mão suja de tinta tateava em torno atrás da garrafa. - O estilo também... - sussurrou, mas isso ela não ouviu.

Agora diante dele, que piscava os olhos sob o fogo da luz, leu a carta com uma entonação de tragédia e paródia:

- “Meu amor, paixão e horror: cheguei ao fim da linha. O mundo é cheio de almas perversas. Vou morrer como um pássaro doente no asfalto depois de um último vôo. Não temos salvação. Dor dor dor! Uma estrela cadente.”

Ele demorava a acordar, ela o sacudia:

- Não suporto mais essas brincadeiras de louco!

Era um poema, Marta não compreendia.

- Não foi trabalhar de novo, é claro. E continua bebendo?! Sabe de uma coisa?

Ao pintar, o gesto do braço era uma pontada na cabeça. Os quadros não acabavam nunca, cada vez mais coloridos, e ele cada vez mais cinza. Por que ela está gritando tanto?

- Eu não devia ter vindo! Eu não venho aqui nunca mais! Eu... - e fez o movimento de agarrá-lo pelos cabelos, que ele protegeu com os dois braços, afundando a cabeça no cobertor. Ela esmagou a carta e jogou-a contra a parede. - Eu fico me preocupando à toa com...

Voltou a sentar na beira da cama. Esticou a mão até a mesinha de cabeceira e pegou um cigarro. Mais cansada que gentil:

- Quer que eu acenda pra você?

Ele não respondeu. Ela segurou a mão dele:

- Você está tremendo.

Ele olhava para Marta tentando se fixar nos detalhes, mas os olhos não tinham pouso. Ficou quieto, sentindo a dor crescer em pontadas na cabeça, como todas as manhãs. Ela estendeu o cigarro aceso e ele deu uma tragada funda.

- Você precisa parar de beber e de fumar. E precisa voltar a trabalhar. - A voz quase se elevou: - Ou você acha que... - mas desistiu e se levantou, inspecionando o quarto, como quem vai tomar uma decisão definitiva: talvez limpar o chão, varrer as teias do teto, marcar uma consulta médica para ele, mas eram sopros da vontade que morriam. Aproximou-se de novo da janela, desta vez sem olhar para baixo - o horizonte se perdia numa bruma suja.

Alguém forçou o trinco da porta e bateu em seguida, com força, três vezes. Ele pediu:

- Abra, Marta.

Uma jovem mais gorda que magra olhava-os com serenidade. Não com timidez, apenas com uma espécie de respeito, estendeu um pacote na direção dele:

- Trouxe umas laranjas. Vou fazer um suco. E...

Marta interrompeu-a:

- Você é a tal Polaca?

Ela sorriu, fez que sim, e voltou para a sala. Marta bateu a porta e avançou para ele:

- Quem é essa agora? Pode me explicar?

Ele ficou imóvel.

- Eu vou embora! Que morra!

Dois passos e parou, atenta – ouvia o assobio de uma valsa e ruídos de talheres e copos.

- Essa Polaca é feia que é um bicho - e começou a chorar, irremediável.

Ele acolheu-a entre os braços, olhos nas teias do teto: estendido sobre ele, o corpo dela inteiro soluçava. Foi se acalmando em ondas mais lentas até a imobilidade. É hora de desfazer a vida que até aqui se fez: um trabalho difícil. As faces agora se contemplavam, duras e maduras, trituradas pela memória, e ele sentiu um fio de desejo, que deixou escapar sem luta. Marta se ergueu, numa espécie contrariada de decisão, ajeitou o vestido e mirou-se no espelho do armário, como quem prova uma roupa, uma blusa, um sapato, e confere a maquiagem. De perfil, gostou do próprio nariz, idêntico ao dele, mas lamentou não ter batom à mão para tirar a palidez dos lábios.

Ele espichou o corpo em direção à garrafa, num equilíbrio incerto, pernas na cama, mãos no chão, até alcançá-la. Deu um gole prolongado, como quem toca um berrante, e ajeitou-se de volta na cabeceira da cama. Puro teatro. Ela sussurrou sem pensar, olhos no espelho:

- Não beba tanto, meu bem.

E saiu do quarto, sentindo o choque das cinco mulheres - o cheiro da tinta - olhando para ela agora com uma curiosidade ostensiva, camadas e camadas de vermelho e amarelo, como que protegidas da Polaca, na pose dos cavaletes. Marta fez-se mulher da casa, sublinhando na voz alguma superioridade.

- Ele está muito mal.

A Polaca lhe estendeu uma cadeira, que ela aceitou. Cruzou as pernas e pediu:

- Você tem cigarro? Estou sem a bolsa.

A mão tremia segurando o cigarro, o gesto inseguro em choque com a voz autoritária, que também acabava por ruir:

- Não estou me sentindo bem...

A outra estendeu-lhe um copo d’água. Era como se esperasse dela uma palavra definitiva, uma explicação, uma história, uma biografia, uma ordem. Ela balbuciou:

- Eu acho que ele...

- Vou ver - disse a Polaca, e o olhar misteriosamente cúmplice acompanhou o passo decidido dela, que entreabriu a porta, olhou para dentro, fechou a porta e voltou-se, impenetrável.

- Ele morreu?

O olhar da Polaca, intrigado, perguntava: O que você disse?

- Ele dormiu?

Parecia entender. A Polaca colocou a mão no ombro dela, delicada.

- Não ainda.

Cristovão Tezza
É escritor, autor dos romances "Breve Espaço Entre Cor e Sombra" e "A Suavidade do Vento", entre outros, e do ensaio "Entre a Prosa e a Poesia: Bakhtin e o Formalismo Russo", todos editados pela Rocco.

 
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