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dossiê
NOVA LITERATURA

Quem é quem na nova prosa brasileira: conheça 26 autores de ficção do país
Por Carolina Stanisci

Nos últimos anos, a literatura brasileira viu surgir um bom número de escritores dispostos a renovar a ficção no país. A fim de oferecer ao leitor um guia da nova prosa brasileira, Trópico ouviu informalmente alguns críticos, que destacaram 26 autores. A relação a seguir não é exaustiva e está ciente de suas lacunas, mas permite uma aproximação introdutória e organizada a esses autores -novos ou ainda pouco conhecidos do público.

A chamada "Geração 90" está bem representada, mas não está só no rol de escritores abaixo. Veteranos como o pernambucano Raimundo Carrero, com mais de dez títulos publicados, marcam presença. Ou Luiz Alfredo Garcia-Roza que, psicanalista renomado, se tornou nos últimos anos um dos melhores autores de romances policiais do país. Há pouca coisa que unifique os escritores: a variedade de temas e de linguagens é uma das características da época. Evitar o encarceramento dos autores em grupos talvez seja a melhor forma de se aproximar deles. Alguns têm, porém, certos traços comuns. Pode-se afirmar, por exemplo, que uma constante é a prosa realista que brota do caos urbano e devassa as mudanças socioeconômicas das últimas décadas no Brasil, como ocorre nas obras de Marçal Aquino, Marcelino Freire, Fernando Bonassi e Paulo Lins, entre outros.

A vida urbana brasileira -e seus efeitos perversos- não explica, porém, a existência de obras como a do paulistano Juliano Garcia Pessanha, de difícil classificação, uma mescla de aforismos, ensaios e poemas. Ou a do carioca Bernardo Carvalho, que explora os limites da narração e a crise da identidade e do sujeito.

Amilcar Bettega Barbosa, Nelson de Oliveira e Joca Reiners Terron adicionam às narrativas urbanas pinceladas de fantástico. Luiz Ruffato e Bruno Zeni se caracterizam pela fragmentação do discurso literário. Milton Hatoum tem tecido romances que tratam de sua terra natal, Manaus, e do passado imigrante de sua família.

Para a realização desta lista, foram ouvidos os críticos Eliane Robert Moraes, Adriano Schwarz, Flávio Moura, José Geraldo Couto, Manuel da Costa Pinto e Samuel Titan Jr., dentre outros especialistas e professores, que preferiram não ter seu nome citado.

Ao leitor que se interessar em explorar a nova prosa brasileira, duas observações. Procure, com afinco, fora coletâneas lançadas com alarde, nem sempre o volume lançado no ano passado estará disponível nas livrarias. O leitor pode contar com uma certeza: o esforço não será em vão.

AMILCAR BETTEGA BARBOSA

Nasceu em São Gabriel (RS), em 1964. Vive em Orléans, na França, desde 2002. São dele os livros de contos de “Deixe o Quarto Como Está” (Companhia das Letras, 2002) e “O Vôo da Trapezista” (Editora Movimento, 1994). Em “Deixe o Quarto”, personagens convivem com o inusitado, como um homem que narra o dia em que acordou com um crocodilo em seu quarto. O jornalista José Castello, sobre o autor, observou: "Os contos de Bettega são narrados de modo desassombrado, sincero, com a mesma naturalidade de quem relata um evento cotidiano, ou um caso sem importância. É nessa atmosfera banal que o imaginário irrompe". O escritor já publicou seus contos em diversas revistas e suplementos literários e participou de coletâneas, como “Antologia Crítica do Conto Gaúcho” (WS Editor, 1998) e de “Geração 90: Manuscritos de Computador”.


ANDRÉ SANT’ANNA

Nasceu em Belo Horizonte, em 1964. Mora em SP desde 1992. É autor de “Sexo” (7 Letras, 1999), já editado em Portugal. São de sua autoria também “Amor” (Editora Dubolso, 1998) e “Minhas Memórias” (7 Letras, 2001). Participou de coletâneas como “Os Cem Melhores Contos Brasileiros” (Objetiva, 2000). “Sexo” traz uma série de histórias povoadas por tipos urbanos identificados como o Homem Engravatado, a Loira Gostosa ou o Homem Negro, que Fedia, entre outros que participam de aventuras sexuais descritas com minúcia. Sobre as narrativas criadas por Sant´Anna, observou o crítico literário Manuel da Costa Pinto: "Sintaxe hipnotizante de André Sant’Anna (cujo acúmulo de estereótipos explode a linguagem do mundo administrado) seriam suficientes para mostrar as singularidades dessa nova ‘geração’ frente às alegorias políticas dos contistas dos anos 70".


BERNARDO AJZENBERG

Nasceu em 1959, em São Paulo, onde atua como jornalista da “Folha de S. Paulo”. Publicou os romances “Carreiras Cortadas” (Francisco Alves, 1989), “Efeito Suspensório” (Imago, 1993), “Goldstein & Camargo” (Imago, 1994), “Variações Goldman” (Rocco, 1998) e “A Gaiola de Faraday” (Rocco, 2002, prêmio da Academia Brasileira de Letras). Participou de várias coletâneas, como “Ficções fraternas” (Record, 2003), e publicou textos em revistas, como “Ficções”, “Cult” e “Bravo”. “Variações Goldman” conta a vida do arquiteto judeu Silvio Goldman, que se apaixona pela tradutora Dorieta Mangano e com ela tem uma filha. "Tudo é brutalmente contemporâneo, da linguagem ao espaço urbano, uma São Paulo que aparece em seus detalhes de ruas e bairros (...) Tudo isso, entretanto, são os andaimes da obra. A grande força e a grande arte de Bernardo Ajzenberg já delineadas nos seus livros anteriores e agora plenamente realizadas, estão na natureza original do seu realismo, a capacidade de criar uma empatia permanente", afirmou o escritor Cristóvão Tezza, sobre “Variações”.


BERNARDO CARVALHO

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Colunista da “Folha de S. Paulo”, vive em São Paulo desde 1986. Publicou, em 1993, os contos de “Aberração” (Companhia das Letras). Pela mesma editora, lançou “Onze”, de 1995, “Os Bêbados e os Sonâmbulos”, de 1996, “Teatro”, de 1998, “As Iniciais”, de 1999, “Medo de Sade”, de 2000, “Nove Noites”, de 2002 (Prêmio Portugal Telecom 2002) e “Mongólia”, de 2003 (prêmio APCA). Suas tramas são recheadas de enigmas como em “Mongólia” e “Nove Noites”, que trata do suicídio real de um antropólogo americano no Amazonas. "Sua arquitetura é bem mais complexa e está assentada na alternância de uma dupla narração, muito diferente entre si -traço comum aos romances de Bernardo Carvalho (...). O leitor está obrigado a imaginar hipóteses precariamente capazes de dar sentido aos dados apresentados com minúcia alucinada", escreveu o crítico e professor de literatura Alcir Pécora, sobre “Nove Noites”.


BRUNO ZENI

Nasceu em Curitiba, em 1975, e vive em São Paulo desde 1989, onde se formou em jornalismo. É autor de “O Fluxo Silencioso das Máquinas” (Ateliê Editorial, 2002) e “Sobrevivente André du Rap” (Labortexto Editorial, 2002). “Sobrevivente” resultou de depoimentos colhidos pelo autor com sobrevivente do massacre do Carandiru, de 1992. Em “O Fluxo”, pequenos fragmentos de prosa surgem na voz de narradores que vagueiam por São Paulo: passageiros de metrô, mendigos, motoboys e outros -um deles comenta sobre a impossibilidade de amar na cidade. Sobre a obra, escreveu o jornalista Paulo Roberto Pires: "Zeni contempla principalmente a solidão das cidades, mas não aquela imposta pelo isolamento. Trata-se do convívio obrigatório, com a sujeira física e visual das ruas: a poluição do ar e das mentes, as velocidades que tocam o tal ‘fluxo silencioso das máquinas’ (...) A máquina não é a musa que foi para os futuristas, mas uma espécie de segunda natureza, tão bela quanto hostil". Zeni publica textos em revistas como “PS: SP” e “Ficções”.


CINTIA MOSCOVICH

Nasceu em 1958, em Porto Alegre, onde vive. Publicou o romance “Duas Iguais” (L&PM, 1998) e os contos de “O Reino das Cebolas” (Mercado Aberto, 1996) e “Anotações Durante o Incêndio” (L&PM, 2000). Seus textos integram várias coletâneas de escritores contemporâneos, como “Geração 90: Manuscritos de Computador” (Boitempo, 2001) e “Ficções Fraternas” (Record, 2003). A autora recebeu, entre outros, duas vezes o prêmio Açorianos de Literatura, por “Duas Iguais”. e “Anotações...”. Este livro tem personagens como a dona-de-casa às voltas com o extermínio de um rato no jardim, a costureira que fura com a agulha uma menina e um judeu dono de antiquário que recebe por uma mercadoria um "livro infinito", clara referência a Borges. "É esta orientação tanto para um olhar feminino (...) como para o masculino, vindo de um legado literário, que lhe permite dar continuidade a uma gramática narrativa na linha de Clarice Lispector sem cair no erro de imitá-la", afirmou o jornalista Miguel Sanches Neto, sobre a obra.


EVANDRO AFFONSO FERREIRA

Nasceu em Araxá (MG), em 1945. Vive em São Paulo desde 1964. Lançou em 2000 o primeiro livro, “Grogotó!” (Topbooks), de contos. Depois publicou o romance “Araã” (Hedra, 2002) e prepara para 2004 o romance “Erefuê” (Editora 34). Seus textos já integraram edições das revistas “Ficções”, “Cult” e “Coyote”. “Araã” narra a história do vendedor de enciclopédias Seleno Selser, um viúvo que padece de úlcera, artrite e outras doenças. Recheado de citações de verbetes, como o de Boccacio -"pobre, foi contratado para ler e comentar ‘Divina Comédia’ de Dante na igreja"-, o romance recebeu do crítico e professor de literatura Alcir Pécora a seguinte análise: "A maior parte desses verbetes faz jus a estar ali por certa graça que produzem, mas o conjunto da sua narração ressalta a homologia patética entre os seus acontecimentos". Sobre o personagem central, o vendedor de enciclopédias Seleno Selser, Pécora acrescentou: "Ele é (...) espécie de Velho do Restelo a vituperar os novos tempos sem virtudes: sem nexo, sem literatura".


FERNANDO BONASSI

Nasceu em 1962, em São Paulo, onde vive. Publicou os contos de “O Amor em Chamas” (Estação Liberdade, 1989), “100 Histórias Colhidas na Rua” (Scrita, 1996), “100 Coisas” (Angra, 2000), “Passaporte” (Cosac & Naify, 2001), “As Melhores Vibrações” (crônicas da “Revista da Folha”, Publifolha, 2002) e “SP/Brasil” (Dimensão, 2002); os romances “Um Céu de Estrelas” (Siciliano, 1991), “Subúrbio” (Scrita, 1994), “Crimes Conjugais” (Scrita, 1994), “O Amor é Uma Dor Feliz” (romance, Moderna, 1997), “O Céu e o Fundo do Mar” (Geração Editorial, 1999) e “Prova Contrária” (Objetiva, 2003). É autor de roteiros de cinema, como “Céu de Estrelas” de Tata Amaral, e também de ficções infanto-juvenis e poesias. “Prova” narra o diálogo de uma mulher com o marido que, morto pela ditadura militar, ressurge em seu apartamento. Sobre a obra, o jornalista Elias Fajardo observou: "A ambigüidade é um personagem tão presente quanto o narrador, o homem e a mulher (...) Os títulos são telegráficos e cinematográficos e nada é gratuito: o texto corta como faca ou acaricia como pluma".


JOÃO BATISTA MELO

Nasceu em Belo Horizonte, em 1960. São de sua autoria as coletâneas de contos “O Inventor de Estrelas” (Secretaria de Cultura do Estado de Minas Gerais, Prêmio Minas de Cultura, 1989), “As Baleias de Saguenay” (Rocco, 1995, Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte), “Um Pouco Mais de Swing” (Rocco, 1999) e o romance “Patagônia” (Rocco, 1998). Em “Um Pouco Mais de Swing”, há personagens como o trompetista Louis Armstrong às voltas com dois turnos de trabalho e a busca de consolo na música. Já “Patagônia” é centrado na aventura de um homem que caça, na região que dá título ao livro, um ladrão do bando de Butch Cassidy que teria assassinado seu irmão. Sobre a obra, registrou o jornalista Jefferson Del Rios: “Demonstrando seguro poder narrativo e elegância de linguagem, João Batista Melo constrói o seu faroeste metafísico, em que cada fato aventuresco tem sua contrapartida de indagação existencial”.


IVANA ARRUDA LEITE

Nasceu em Araçatuba (SP), em 1951. Vive em São Paulo desde 1958. Publicou os contos de “Histórias da Mulher do Fim do Século” (Hacker, 1997) e “Falo de Mulher” (Ateliê Editorial, 2002). E os poemas de “Quadrívio” (Massao Ohno, 1981). Ivana também participou de diversas coletâneas de escritores contemporâneos (“Geração 90: Os Transgressores” e outras) e de revistas literárias. Em “Falo de Mulher”, as histórias são narradas do ponto de vista de mulheres: a que deseja morrer durante cirurgia, a que dá receita de "devorar homem amado", a abandonada que se compara à mulher de Lot, personagem bíblico que não olhou para trás. "Ivana poderia (...) perder-se num discurso feminista", assinala o poeta e jornalista Manoel Ricardo de Lima. Mas prefere, continua Lima, "trabalhar com outro material, que é da vida mesmo, seja ela de onde vier, de qualquer ângulo de olhar que esteja lançado ou venha, apenas usa aqui como cartografia desse olhar o nome dessas mulheres, e uma ou outra condição de algumas delas".


JOCA REINERS TERRON

 
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