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novo mundo
ARTE ROBÓTICA

Ken Rinaldo e a computação emocional
Por Roberta Alvarenga



"Mediated Encounters", de Ken Rinaldo/Divulgação

O ciberartista defende interação com as máquinas que não sejam puramente lógicas

Durante muito tempo, conceitos como vida artificial e inteligente estiveram confinados aos diálogos entre cientistas. Mas o que era exclusividade da área de pesquisa e da especulação ficcional é hoje também objeto da reflexão e prática artística.

Estamos em 2004, e os artistas parecem estar deixando os ateliês para ocupar os laboratórios... Cabos coloridos, microchips e peças eletrônicas espalhadas pelo recinto, livros, pilhas e baterias de todos os tipos, tamanhos e formatos decoram o ambiente. Não há sinais de cavalete, tinta a óleo e pincéis. Eles foram substituídos pela caixa de ferramentas e o Machintosh G4 cinza, com monitor de 19 polegadas.

Artista e teórico americano, Kenneth Rinaldo é um emblema desse novo cenário. Um dos mais renomados artistas contemporâneos envolvidos na criação em novos meios, ele é professor do departamento de arte e tecnologia da Ohio State University, em Columbus, EUA.

Rinaldo constrói robôs e cria instalações interativas que exploram as relações entre o orgânico e o inorgânico. Trabalhando no campo da bioarte, o artista se expressa levantando questões que envolvem vida artificial, vida inteligente, simbiose homem-máquina e comunicação entre espécies, sejam elas naturais ou artificiais.

Entre suas obras mais conhecidas, destaca-se “Mediated Encounters”, de 1996, em que dois peixes-de-briga siameses controlam duas esculturas robotizadas ao se olharem através de aquários distantes, desencadeando um processo tecnológico que os impede de brigar até a morte.

Já em sua famosa série robótica de vidas artificiais, “Autopoiesis, a-life robotic installation”, de 2000, o ambiente humano afeta o comportamento da obra de arte robótica, que, por sua vez, afeta o comportamento do espectador. A instalação construída com galhos de parreiras de uva (cabernet) consiste em 15 esculturas robóticas e musicais que interagem com o público, tendo seu comportamento modificado pela presença dos visitantes da exposição e na comunicação entre elas.

Em entrevista à Trópico, Rinaldo comentou as características de sua produção e o que vem definindo como “computação emocional”, base, segundo ele, da pesquisa contemporânea no campo da arte robótica, que privilegia a simbiose entre a natureza e a tecnologia, em detrimento das relações lógicas e dos pressupostos de dominação do inorgânico sobre o orgânico.


Quando você começou a trabalhar com instalações de escultura robótica?

Rinaldo: Comecei a trabalhar com instalações em 1984 e com instalações robóticas em 1987. Meus primeiros trabalhos foram ruminações metafóricas a respeito da natureza do tempo. Passei a me interessar pela robótica quando comecei a criar trabalhos cinéticos narrativos que se revelavam com o tempo. Depois de uma crítica desafiadora, comecei a trabalhar com robótica. Percebi que o observador poderia tornar-se um participante ao revelar a mensagem da obra. Isto permitiria uma revelação interativa da idéia e do conteúdo, e o observador se tornaria atuante. O fato da pessoa passar de observadora passiva à participante ativa acrescenta um aspecto emocional ao recebimento das idéias.

Quais são as idéias por trás de suas instalações?

Rinaldo: Os trabalhos artísticos variam enormemente, com base na função e nas idéias que são exploradas. Meu interesse principal é observar as idéias que cercam nossa concepção de sistemas vivos e pensar como elas se relacionam à co-evolução de humanos e máquinas inteligentes. As máquinas e os sensores artificiais tornaram-se extensão e mediação de nossos sentidos. Isso de ver através de uma máquina tem implicações importantes sobre o que e como nós vemos. Além de impor um movimento estrutural na direção de certas narrativas, surgem idéias sobre nossa maneira de ver.

Quais tecnologias você usa em seus trabalhos artísticos?

Rinaldo: Uso uma série de tecnologias para revelar as idéias por trás do trabalho. O trabalho é sobre compreender a natureza, o uso e a existência da tecnologia em nossas vidas e como essas tecnologias têm implicações no que somos e como interagimos uns com os outros e com o mundo natural ao nosso redor. É sobre criticar as implicações das tecnologias à medida que elas se inserem sem obstáculos em nossas vidas diárias e nos níveis mais profundos de nosso aparato sensorial.

Geralmente, escolho a tecnologia do mesmo modo como escolheria qualquer material como escultor. Todos os materiais têm um idioma, que é criado através de nossas associações com cada material, condicionadas em grande parte por nossas associações culturais. Cada tecnologia também tem seu idioma, que é culturalmente e, às vezes, biologicamente associado. A imagem e o tremular do vídeo na televisão ou filme projetado é bem diferente dos personificados aspectos físicos que você encontraria em um trabalho robótico ou cinético.

Os materiais que uso nos trabalhos, como parreiras, galhos, plantas e peixes vivos são maleáveis e biológicos, e isso é mais abordável e amigável para os humanos, por pertencer ao campo biológico. Também ressalta o subtexto de boa parte do trabalho, que é a co-evolução.

Quais são algumas de suas influências artísticas e científicas?

Rinaldo: Minhas influências são muitas e variadas e vêm de articulações escritas sobre ciência, ecologia, arquitetura, biologia, teoria e arte contemporânea. Fui influenciado pela filosofia da ciência de escritores que falam sobre as narrativas da ciência e como informam nossas noções da verdade. Também fui influenciado por escritores como Rachel Carson, de "Silent Spring".

Comecei a estudar sistemas vivos com James Greer Miller, na Universidade da Califórnia, Santa Bárbara. Esta foi uma influência importante para mim, já que usávamos modelos de sistemas vivos para analisar a saúde de organizações. Pensar em organizações como um sistema vivo era uma epifania. Estávamos investigando os fluxos de informação, matéria e energia das organizações, para determinar sua saúde relativa.

Mais tarde, quando comecei a estudar belas artes, fui inspirado por artistas como Marcel Duchamp, que nos diz que o contexto é tudo. O contexto é o começo para compreender que todas as situações sociais são sistemas de significadores que estruturam e criam contexto. O sentido, na maioria das artes, é transmitido através de sistemas de significados que evoluem com a cultura.

Estudando artes midiáticas contemporâneas, tornei-me mais interessado em artistas que trabalham o uso e as implicações da tecnologia dentro de um sistema sociopolítico, como Rafael Lozanno Hemmer, Simon Penny e Lynne Hershman. Esses artistas não estão muito preocupados com "beleza", no sentido clássico ou formal, mas situam seus trabalhos no contexto mais amplo da observação e crítica da tecnologia e da cultura dentro de um contexto de artes midiáticas. Meu trabalho é um pouco diferente porque não joguei fora todas as lições que aprendi, como escultura, então ainda acredito que você precisa seduzir o corpo, antes que possa seduzir o olho.

O que significa para você a frase "computação emocional"?

Rinaldo: "Computação emocional" define uma necessidade de encontrar outras maneiras de interagir com nossas máquinas que não sejam puramente lógicas, mas sim emocionais. Também permite o projeto e a manifestação de interfaces sob medida que vão além do teclado e do monitor e situam o trabalho na esfera física, de modo que viria a ser mais corpóreo.

Estudando pesquisa de comunicações, fiquei entusiasmado quando descobri que a maioria das mensagens que emitimos e recebemos uns dos outros na comunicação face a face são transmitidas através de linguagem corporal. Freqüentemente, não é o que dizemos, mas como dizemos, que carrega a maior parte da mensagem e, portanto, do significado.

Em sua maioria, os computadores são dispositivos lógicos, baseados em uma lógica digital, sim ou não, e isto faz com que sejam inflexíveis para determinar a natureza maleável e imprecisa da comunicação humana e biológica. Nós, humanos, desejamos interagir analogicamente com um mundo e a computação emocional é uma tentativa de dar aos nossos computadores a capacidade de entender modos emocionais de interação.

Por exemplo, não seria maravilhoso se nossos computadores entendessem quando estamos deprimidos e ajustassem nossos monitores para emitir uma luz mais balanceada com a do dia? Ou computadores que entendam nossas linguagens emocionais ou linguagens corporais e pudessem determinar se estamos nos sentindo excitados ou felizes? A questão, então, passa a ser o que as máquinas fazem com essa percepção do computador. Usam-na para nos controlar ou em vez disso permitem que comecemos a criar uma nova forma de ecologia, com humanos e máquinas co-evoluindo.

Esse é o começo da compreensão de como criar uma melhor simbiose ente os humanos e suas máquinas inteligentes. Claro que, você pode ter certeza, se temos computadores que sentem nossas linguagens corporais ou descargas hormonais, teremos anunciantes e profissionais de marketing nos vendendo produtos com base nesse conhecimento, e suponho que essa seja a parte assustadora. Recebemos suficiente spams de empresas que rastreiam nossos cookies da internet sem que os anunciantes saibam também que estamos descarregando outros hormônios.

É perigoso criar trabalhos de vida artificial?

Rinaldo: Sim, em alguns sentidos, e não em outros, e é aqui que o contexto é mais importante. Em seu livro "War in the Age of Intelligent Machines", Manuel DeLanda fala sobre a tendência de delegar cada vez mais controle às máquinas inteligentes que tomam decisões por nós. Situações em que demos à máquina inteligente a capacidade de sentir e reagir ao mundo e, às vezes, de nos aniquilar. Exemplos seriam os tanques militares que encontram outros tanques militares e os destroem ou mísseis cruise que encontram seus alvos e os destroem. O lado triste, claro, é que geralmente há pessoas dentro dos tanques e a máquina não tem nenhum conhecimento emocional do luto da família do ocupante do tanque.

Tenho um verdadeiro problema com culturas mundiais que acreditam que violência é a solução para o conflito e usam máquinas para executar essas construções sociais deformadas, freqüentemente à distância. É fácil apertar um botão e ver de longe os resultados, mas não é fácil encarar a vítima ou sua viúva enquanto você aperta o botão. Sempre pareceu uma estranha ironia que tenhamos a inteligência para criar sistemas de armamentos sofisticados e semi-inteligentes, mas não tenhamos a inteligência para analisar as implicações do que significa deixar que máquinas nos matem.

Se eu sinto que há um perigo em criar autômatos que permitem úteis manifestações pró-sociais? Certamente que não. Isso é parte de nossa simbiose com nossas máquinas inteligentes. Um robô ajudante que passa o aspirador no chão ou nos carrega escada acima é uma coisa boa. Precisamos lembrar que a economia "just-in-time" ou o movimento sincronizado de nosso mercado global são resultado da coordenação de relógios computadorizados em todo o mundo.

Mas precisamos simultaneamente entender as questões ecológicas das máquinas, que podem criar ininterruptamente outras máquinas, para que elas possam ser conduzidas a uma estratégia co-evolucionária que permita um "tecnótopo" co-evolutivo. Um bom exemplo seria o uso de materiais que sejam biologicamente mais compatíveis, e que sejam degradáveis. Computadores que degradem dentro da mesma estrutura de tempo da lei de Moore seriam uma possibilidade.

Recentemente, descobrimos um meio de fazer plásticos condutores, mas no processo eles também degradam mais facilmente. A tarefa de futuros artistas e projetistas não será criar as máquinas novas e mais rápidas, mas sim entender como criar uma ecologia de máquinas que permita que elas se interliguem com as ecologias naturais existentes que já existem há 3,5 bilhões de anos. Suponho que possamos dizer que estas ecologias foram testadas pelo tempo.

Se você tivesse o dinheiro, a tecnologia e os recursos, o que gostaria de criar? E por quê?

Rinaldo: Estou entusiasmado com uma série de idéias que se ligam em meu cérebro. A primeira surge de nossa dependência pouco saudável dos carros e a poluição que eles criam, ligada à nossa superpopulação da terra e ao nosso desejo de viver em subúrbios para nos vermos em ambientes mais "naturais".

 
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