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dossiê
NOVA LITERATURA

Boas novas nas livrarias
Por Flavio Moura

O final de 2003 foi pródigo em lançamentos de autores da safra jovem, como Mirisola e Bressane

À medida que esfria a polêmica em torno da “Geração 90”, vai ficando possível procurar afinidades entre escritores enfeixados sob esse rótulo sem que isso implique uma adesão à idéia. Os últimos meses de 2003 foram pródigos em lançamentos de autores da safra, muitos deles já no terceiro ou quarto livro e num processo de consolidação da obra que os livra da pecha de meras promessas.

Curva de Rio Sujo (ed. Planeta), de Joca Reiners Terron, Céu de Lúcifer (ed. Azougue), de Ronaldo Bressane, Bangalô (ed. 34), de Marcelo Mirisola, e Corpo Presente (ed. Planeta), de João Paulo Cuenca, estão entre os livros mais visíveis publicados nesse período. Os três primeiros autores, incluídos na famigerada coletânea de Nelson de Oliveira, andam pela casa dos 30 e poucos e há tempos passaram da condição de estreantes.

A exceção é Cuenca: aos 25 anos, o escritor carioca ganhou notoriedade poucos meses atrás, quando participou, ao lado de Chico Mattoso e Santiago Nazarian, de livro encomendado para a Festa Literária de Parati. Lidos juntos, os quatro oferecem amostra representativa do que vem sendo produzido de novo e contribuem para consolidar um segmento da nova prosa de ficção brasileira.

De imediato, é possível estabelecer alguns pontos em comum. Em todos os livros, há uma instabilidade de formato -são compostos de fragmentos mais ou menos interligados que não se assumem como contos, mas dificilmente configuram capítulos de um romance. Do mesmo modo, nota-se uma instabilidade de tom -os quatro parecem buscar uma dicção que mistura prosa e poesia, e o fazem menos pela busca da musicalidade do fraseado do que de imagens de impacto. Igualmente instável é o mundo interior de seus protagonistas, em sua maioria imersos em álcool, sexo, e inclinados, em graus variáveis, à perversidade e à autodestruição.

O leitor que já tiver se deparado com Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, O Herói Devolvido ou O Azul do Filho Morto, os três primeiros livros de Mirisola, não estranhará Bangalô. De férias num chalé com vista para a Lagoa da Conceição, em Florianópolis, com ódio de seu senhorio (Frank, “a bicha dos acrílicos”), o narrador mergulha num hedonismo às avessas, em que o sexo parece aprofundar a solidão. Do alto de seu chinelo Rider tala-larga, ele dispara sua misantropia contra o mundinho de artistas plásticos, arquitetas lésbicas, folhados de maçã e paisagens de revista que o circunda.

Estão aí as mesmas referências à classe média acabrunhada (Raul Gil, praça de alimentação), escatologias (“por que ela sorvia merda e lágrimas copiosamente?”) e outros índices do universo que ele vem delineando desde seu primeiro livro. Agora, porém, a dicção parece mais uniforme, depurada das excessivas quebras de cadência de textos anteriores. As referências cultas estão mais abundantes, como numa demonstração do quanto seu aparente desleixo é estudado. E aqui e ali surgem imagens que, se não atenuam o ceticismo, ao menos qualificam sua descrição: “A vodca mata pela lâmina, divide almas em nacos prateados e molda o rancor em cristais de esmeralda”, lê-se a certa altura.

Assim como Bangalô, Corpo Presente, de Cuenca, é ambientado num universo restrito, o bairro de Copacabana, e seu narrador está às voltas com a necessidade de escrever e expurgar fantasmas. Não há progressão narrativa, de modo que o enredo não fica delineado. O que põe o texto em movimento é a figura de Carmen, a um só tempo mãe, amante e prostituta, que escapa ao narrador na mesma medida em que torna urgente sua escrita.

O livro foi elogiado pelo engenho da construção. Designados por números primos (divisíveis por um e por eles mesmos), os capítulos refletem o movimento dos personagens, que desempenham papéis intercambiáveis conforme o fragmento em que se encontram. A estratégia confere sentido próprio a cada uma das unidades, o que favorece o exercício de uma prosa aberta a devaneios e iluminações.

Aí residem, ao mesmo tempo, os achados e os pontos cegos de seu romance. Passagens como a do capítulo 89, em que um velho é sugado para dentro das entranhas de Carmen, indicam um escritor seguro das liberdades cabíveis em seu universo ficcional, povoado de porres inconseqüentes, boates “indie” e transas sórdidas. Em outros trechos, contudo, um freio não faria mal. Veja-se, por exemplo, exclamações como “Poetas, porra!”, do capítulo 101, ou as “fantasias insanas” de Alberto, do 97.

Ao contrário de Mirisola e Cuenca, Bressane e Terron não reivindicam o rótulo de romance para seus livros. Os textos que os compõem são mais independentes, principalmente a partir da segunda metade, mas tampouco se enquadram no esquema padrão do conto. Confessos admiradores de Agrippino de Paula, de Panamérica, os dois lidam com “estilhaços de linguagem e ritmos alucinatórios”, na expressão de Sérgio Sant´Anna, autor da orelha do livro de Bressane.

As motivações de ambos, contudo, soam bem diferentes: Terron traça, nos primeiros textos, um retrato sentimental de sua infância em Mato Grosso, ao passo que Bressane desfia uma fauna de jornalistas em crise, camelôs, publicitários cheiradores e taxistas nos escombros do WTC. A herança pop é bem visível aqui: os cenários são em sua maioria urbanos, expressões em inglês misturam-se a epígrafes de Jim Jarmusch e Radiohead, personagens se perdem em eventos de música eletrônica.

Num contexto em que a brevidade é a regra, Bressane é quase caudaloso: “Jornal do Caos” e “Assassinato em Matutu”, entre os melhores textos do livro, têm mais de 20 páginas. No primeiro, em que um jornalista passa uma semana em greve de notícias, é notável o sarcasmo com que retrata o circuito “sofisticado” paulistano, aí incluídos os freqüentadores de vernissage e os da Daslu. No segundo, vale registrar o modo como esquadrinha a solidão do publicitário “ganhador de 20 leões em Cannes” e como articula, em paralelo, a história de um assassinato.

Comparado aos três, Curva de Rio Sujo, de Terron, é o que mais destoa. Os dias de juventude no Mato Grosso são um idílio perto da saturação de estímulos dos outros livros. E ainda sobra espaço para delicadezas: “Do olho do avô espanhol despenca uma catarata azul e cristalina. O intenso do brilho varia conforme ele lembra da Revolução de 32 ou do filho que sumiu na vida”, lê-se num dos fragmentos do primeiro texto.

Terron é, dos quatro, o que demonstra mais gosto pela sonoridade das palavras -o uso que faz de termos indígenas e paraguaios em “Monarks Atravessam o Apa” dá testemunho disso. Mas nos textos do fim do livro, como “Fuga para Ônibus” ou “Um Drive-in sob o Céu da Boca”, os experimentalismos, a realidade urbana e o universo pop voltam à tona. Isso ajuda a identificar o autor de Não há Nada Lá e Hotel Hell, suas obras anteriores e carregadas desse universo, mas contribui para trazer certo desequilíbrio ao conjunto.

Seria possível implicar com a preocupação em transpor limites de classe, que se faz notar na maioria dos autores (Terron e Bressane mimetizam a fala de camelôs e favelados em alguns textos, e Cuenca descreve um baile funk no Morro do Pavão). Ou perguntar sobre o sentido da iconoclastia que pretendem operar num contexto em que a idéia de transgressão foi incorporada pelo establishment cultural. Ou ainda indagar se, mais que uma atitude estética, a opção pelo fragmento e a recusa da linearidade não são máscaras para fôlego curto ou timidez de projeto. Ou ainda enxergar uma falta de acabamento decorrente da pressa em publicar. Ou ainda, ou ainda. Mas achar que hipóteses assim lhes retiram a condição de boas novas no panorama literário brasileiro seria de uma pobreza de espírito indigna de comentário.

Flavio Moura
É jornalista e crítico literário.

 
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