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Da arte de citar à arte de copiar
Por Susani Silveira Lemos França

Na sua celebrada obra “Cartas a Lucílio”, Sêneca, ao defender, no Livro II, que o verdadeiro enriquecimento não está no acréscimo de patrimônio, mas antes na diminuição de desejos, busca respaldo em Epicuro. Até aí nada de novo, dado que são incontáveis as vezes em que o filósofo recorre a ele ou a outros pensadores. Todavia, é nessa altura que Sêneca se sente impelido a advertir ao seu destinatário que não julgue que as sentenças que cita sejam propriedade de Epicuro, antes “pertencem a todos”.

O “filósofo da condição humana”, bem entendido, não advogava em prol da apropriação pessoal ou oportunista de idéias, dado que revela o nome do autor da sentença, confere-lhe os créditos devidos e reafirma seu prestígio. Seu propósito ao incluir Epicuro e outros no seu texto era preservar aquilo que tão bem já tinha sido dito.

Tal prática de citação teve vida longa, porém, na Idade Média, dividiu espaço com uma forma que depois da invenção da imprensa passou a ser no mínimo questionável: o ajuntamento de escritos sem preocupação em referir o autor primeiro. Num mundo em que a oralidade e uma noção documental dos escritos -dado que em sua maioria se reduziam a um manuscrito único- dividiam terreno, não causava estranhamento que o autor fosse, sobretudo, um mero compilador de materiais propostos pela tradição. Seu papel era especialmente preservar aquilo que o passado tinha legado como “verdadeiro”.

Diante dessa função que os autores se atribuíram e lhes foi atribuída, era bem aceito que reproduzissem páginas inteiras de escritos que estivessem sob o risco de perder-se por desgaste material. A idéia de copiar era, de certa forma, legitimada na Idade Média. Vários historiadores têm ressaltado como a obra medieval não era valorizada pela originalidade: por um lado, porque o escritor aspirava a ser o transmissor da Palavra divina; por outro, porque a tradição era o que determinava a sua qualidade.

Não era, pois, condenável apropriar-se de uma formulação do que se tomava como “verdade”, porque esta era vista como patrimônio comum dos homens conferido, em primeira instância, pelo “Senhor”; do mesmo modo, dado o peso da tradição e da memória no pensamento da Idade Média, o anseio do escritor de então era inscrever-se nos limites de um conhecimento que lhe era anterior, importando-se menos com o seu tempo de existência do que com o prestígio alcançado no correr dos anos.

Exemplos desse apego à tradição encontram-se dispersos nos textos e manifestam-se tanto na forma quanto no conteúdo, incluindo desde os títulos dos capítulos, compostos por frases que sumariam o assunto a ser narrado, até os prólogos e intervenções dispersas de caráter metalingüístico, os traços ressaltados nos retratos físicos e morais de certas personagens históricas e, entre tantos outros, a concepção pedagógica de escrita herdada das tradições grega e romana.

Ajuntar, interpretar, reunir, desenvolver, comentar, selecionar, aumentar o que já havia acerca de determinado assunto eram, pois, verbos bem mais correntes do que criar e inventar, que o século XIX viu se imporem com vigor. D. Duarte, rei português quatrocentista que legou dois tratados importantes no seu tempo, deixa bastante claro em um deles, o “Leal Conselheiro”, como a originalidade era menos decisiva que o proveito do já escrito, ao confessar que não via problema em trasladar no seu tratado capítulos de outros livros que melhor do que a sua pena esclareciam sobre os pontos que abordaria. E nem sempre indica a proveniência desses ditos tão certeiros.

Citar o autor, pelo que se nota nos diversos gêneros medievais, só quando o peso do nome o impusesse. E, embora os critérios de ocultação ou revelação de fontes fossem pouco estáveis, parecia ser justificada a indicação quando as idéias apreendidas provinham de uma “autoridade” consagrada, ou seja, de alguém tido reconhecidamente como um modelo a ser imitado graças ao “valor de verdade” de sua obra, como era o caso dos autores gregos e latinos ou dos Santos Padres. Nesse caso, a citação do nome próprio servia como forma de respaldo às teses apresentadas.

À parte esse critério de “autoridade”, no entanto, torna-se bem mais difícil perceber por que razão algumas apropriações não foram mencionadas ou chegaram a ser, mas sem especificação de proveniência. Uma possível causa deve ter sido a freqüente circulação de textos anônimos nessa época em que a noção de autor se encontrava em processo de construção.

Tal dado, apesar de explicar apenas em parte o porquê de as reproduções não virem acompanhadas da referência autoral, reafirma a vaguidade do conceito de autor e adianta algo acerca da pouca importância da posse particular das idéias, que só ganha força na Renascença e graças à expansão da imprensa com suas potencialidades de reprodução em série dos escritos. Na época anterior, ao contrário, em que os escritos eram acima de tudo mantenedores da tradição -iniciada por Deus, segundo a crença-, o autor era ou aquele que recolhia escritos passados e procurava dar-lhes forma nova ou aquele que disponibilizava um texto antigo que se encontrava ameaçado de cair no esquecimento ou perder-se definitivamente.

Mas por que retomar essas questões hoje, em que são tantas e tão diversificadas as formas de preservação e circulação de um texto e em que tão facilmente se pode reproduzi-lo? Talvez justamente por isso, dado que, por excesso e já não por falta de divulgação de idéias e textos, especialmente com a Internet, novamente se diluem, agora a contragosto de autores conscientes do seu lugar e ciosos do seu direito sobre determinadas idéias, os critérios de citação.

Para não pecarmos, porém, por generalização, recurso que em geral nos leva a descambar no fatalismo e na inércia, é bom que se diga que essa nova forma de desapropriação das idéias é experiência generalizada entre os estudantes, porém, não legitimada como as reproduções/preservações medievais.

As práticas do recortar e colocar ou do apenas imprimir sem referência bibliográfica não são aceitas indiscriminadamente e muito menos são louváveis; mas, ainda assim, não deixam de ser praticadas. Os próprios sites surgem às vezes como referência única, sem indicação de autoria, nos trabalhos escolares e até naqueles supostamente acadêmicos. A internet passou de veículo a fonte. A nova “autoridade”. Difícil, agora, será trabalhar para a retomada de posse dos “bens” dispersos na rede, ou melhor, trabalhar para a revalorização da autoria. Tarefa inglória, sem dúvida, já que muitos estão demasiadamente seduzidos pelas facilidades e conveniências da arte de copiar.

Susani Silveira Lemos França
É doutora em cultura portuguesa pela Universidade de Lisboa e professora visitante do Programa de Pós-Graduação em História da Unesp de Franca.

 
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