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A astúcia dialética de Zizek lhe permite demonstrar como tal paixão pelo Real inverteu-se necessariamente em seu contrário, anulando seu verdadeiro potencial corrosivo. O desejo de destruição da aparência, desejo animado pela crença na possibilidade do advento de uma nova experiência da ordem do Real, realizou-se em paixão pelo efeito espetacular de destruição. Ou seja, uma das grandes lições do século XX (e 11/09 talvez nos sirva para lembrarmos disto) consistiu em mostrar como a violência criadora da política do Real normalmente acabou por acomodar-se à produção da imagem teatral de aniquilação. “A autêntica paixão do século XX em penetrar na Coisa Real (em última instância, no Vazio destrutivo)”, dirá Zizek, “culminou na emoção do Real como ‘efeito’ último, buscando nos efeitos especiais digitais, nos reality shows da TV e na pornografia amadora, até chegar aos snuff movies” (p. 26). Ou seja, a paixão pelo Real acomodou-se à estética da violência.

Mas, sendo assim, o que resta para uma política feita em nome do Real e que teria como seu motor central uma crítica radical capaz de dar conta da extensão das coordenadas capitalistas de produção fetichista da aparência? Para Zizek, não se trata de abandoná-la. Trata-se, surpreendentemente, de compreender que “o problema com a ‘paixão pelo Real’ do século XX não é o fato de ela ser uma paixão pelo Real, mas sim o fato de ser uma paixão falsa em que a implacável busca do Real que há por trás das aparências é o estratagema definitiva para evitar o confronto com ele” (p. 30).

Talvez este ponto fique claro se estivermos atentos a maneira com que Zizek recupera a temática da crítica da ideologia. Longe de compartilhar a crença contemporânea no advento de um horizonte pós-ideológico onde, por todo posição ser ideológica, nenhuma crítica é possível, Zizek engajou-se desde a primeira hora em uma reatualização da crítica da ideologia que pressupõe a mutação do próprio sentido de “crítica”.

Neste ponto, sua peculiaridade consistiu principalmente em aproximar o conceito de ideologia das elaborações psicanalíticas a respeito da fantasia. Assim, a fantasia transforma-se em categoria central do político. Mas o que se ganha com esta aproximação entre ideologia e fantasia que leva Zizek a falar em uma “fantasia ideológica”?

Aproximar fantasia e ideologia implica em uma ampla reconfiguração do conceito de crítica da ideologia. Lembremos como a psicanálise compreende a fantasia como uma cena imaginária na qual o sujeito representa a realização de seu desejo e determina um caminho em direção ao gozo. Sem a ação estruturadora da fantasia, o sujeito não saberia como desejar e estabelecer uma relação de objeto. Ele seria assim jogado na angústia produzida pela inadequação radical do desejo aos objetos empíricos.

Ao definir a fantasia como modo de defesa contra a angústia, Lacan vê, nela, o dispositivo capaz de permitir que o sujeito invista libidinalmente o mundo dos objetos e que os objetos possam adquirir valor e significação. A fantasia é assim o que estrutura a determinação do valor dos objetos. Nota-se que tudo o que Zizek precisou fazer foi insistir na existência de uma fantasia social que estrutura a determinação do valor e da significação da realidade socialmente compartilhada. Fantasia social capaz de produzir uma “objetividade fantasmática” que tem um nome próprio: ideologia.

Duas conseqüências derivam-se desta estratégia de compreensão da ideologia como fantasia social. Primeiro, a ideologia deixa de ser vista simplesmente como construção reificada que impede a “descrição das estruturas que, em última instância, definem o campo de toda significação possível”, como aquilo que bloqueia o acesso ao Real da economia política onde encontraríamos a totalidade dos mecanismos de produção do sentido e de reprodução da realidade social. Sai de cena a leitura sintomal da ideologia como distorção de uma realidade positiva primeira recalcada que deve vir à luz através de processos “hermenêuticos” de interpretação.

Assim como sai de cena a noção clássica do fetichismo como processo de fascinação pelo que aparece, processo de fascinação que impede a apreensão da totalidade das relações sociais. Pois a fantasia não é construção de uma aparência que seria distorção ou recalcamento de uma realidade psíquica positiva primeira; ela é modo de defesa contra a experiência angustiante da inadequação entre o desejo e os objetos do mundo empírico.

Em outras palavras, a fantasia é modo de defesa contra a impossibilidade de totalização integral do sujeito e de seu desejo em uma rede de determinações positivas. Isso permite a Zizek operar um curto-circuito e ver na fantasia um modo de desmentir a negatividade radical do sujeito (em sua versão lacano-hegeliana) e, com isto, de criar uma realidade consistente na qual nenhum antagonismo Real, nenhuma inadequação intransponível pode ter lugar e tudo se dissolve na positividade harmônica de um gozo sem falhas.

Neste sentido, a crítica da ideologia deixará de ser feita em nome da economia política ou de algum “conteúdo latente recalcado” que sirva como princípio de descrição positiva para ser feita em nome dos direitos universais da negação no interior da esfera do político. Daí porque Zizek precisa afirmar paradoxalmente que “a ideologia não é tudo; é possível assumir um lugar que nos permita manter distância em relação a ela, mas esse lugar de onde se pode denunciar a ideologia tem que permanecer vazio, não pode ser ocupado por nenhuma realidade positiva determinada; no momento em que cedemos a essa tentação, voltamos à ideologia”.

Mesmo quando Zizek recorre à noção de “luta de classes” para nomear o Real do antagonismo que funda a experiência do político, ele toma cuidado de lembrar que luta de classes não pode funcionar como princípio positivo de descrição que nos autorizaria a apreender a sociedade como totalidade racional. Ao contrário: “A luta de classes não é nada mais do que o nome do limite imperscrutável que é impossível de objetivar, situado dentro da totalidade social, já que ela mesma é o limite que nos impede de conceber a sociedade como uma totalidade fechada”. A luta de classes é apenas o nome do ponto cego intransponível do social que a paixão pelo Real procura desvelar.

Só um discurso negativo poderia pois escapar da ideologia. O que não significa necessariamente que colocamos os dois pés no niilismo ou na estetização da violência. Pensemos, por exemplo, em Claude Lefort e sua maneira de lembrar que o único discurso feito em nome da invenção democrática contra o totalitarismo das construções ideológicas é o discurso de defesa do lugar do povo como um lugar vazio que nunca pode ser corretamente preenchido: “A legitimidade do poder funda-se sobre o povo; mas à imagem da soberania popular junta-se a imagem de um lugar vazio, impossível de ser ocupado, de tal modo que os que exercem a autoridade pública não poderiam pretender apropriar-se dela”.

Esta não-saturação do lugar do povo na democracia, esta negatividade própria ao povo como conceito político indica como o reconhecimento do desejo popular só ocorre quando reconhecemos que nenhuma ordem jurídica pode falar em nome do povo. Assim, a verdadeira política do Real não é aquela animada pela tentativa violenta de purificação de toda opacidade do social, mas é aquela feita em nome da irredutibilidade dos antagonismos que fundam a experiência do político. Pensar um ato capaz de suportar as consequências de antagonismos que não se deixam apagar é, segundo Zizek, uma tarefa que está apenas começando.


O livro

“Bem-vindo ao Deserto do Real”
Autor: Slavoj Zizek
Tradução: Paulo Cezar Castanheira

Editora: Boitempo, 191 págs.


O texto acima é o posfácio do livro "Bem-vindo ao Deserto do Real"

Vladimir Safatle
É professor do departamento de filosofia da USP e encarregado de cursos no Colégio Internacional de Filosofia – Paris.

1 - Cf. Marx, "O Capital".


2 - Prado, Bento, "A Sereia Desmistificada", em "Alguns Ensaios", São Paulo: Paz e Terra, 2000, p. 210.


3 - Zizek, Slavoj, em "Um Mapa da Ideologia, Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 23.


4 - Ibidem, p. 27.


5 - Até porque, como Zizek faz questão de lembrar: “Se há uma lição ético-politica da psicanálise, ela consiste na compreensão de como as grandes calamidades do século (do Holcausto ao désastre Stalinista) não foram o resultado de uma atração mórbida pelo vazio, mas, ao contrário, do resultado do esforço em evitar uma confrontação com isto e em impor a regra direta da Verdade e/ou Bondade” (Zizek, Slavoj; "The Ticklish Subject", op. cit., p. 161).


6 - Lefort, Claude, "A Invenção Democrática", São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 76.

 
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