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E por que eles coletaram ali? Porque, na verdade -e essa é uma das coisas que tento desenvolver neste livro-, depois do advento da informação digital e genética, o campo do virtual tornou-se mais importante que o campo do atual. Isso significa que, tanto do ponto de vista da tecnociência quando do capital, o que pode vir a existir é mais importante do que aquilo que já existe.

Um exemplo: quando, na década de 80, descobriu-se que havia a extinção em massa de espécies, que se deu em função do próprio desenvolvimento da sociedade moderna, o que se fez para coibir essa perda gigantesca de biodiversidade? Praticamente nada. Em vez de tentar mudar o modo de exploração e o relacionamento com o meio ambiente, os países industrializados começaram a constituir bancos genéticos ex situ, isto é, fora dos lugares onde essa biodiversidade existe ameaçada, para que, após o desaparecimento completo daquelas espécies, eles tenham os elementos, os tijolos moleculares, para reconstruir aquilo que julguem necessário ou aquilo que interesse.

Trata-se de um processo de seleção...

Laymert: De apropriação, seleção e controle ao mesmo tempo. De que forma isso se dá? Exercendo-se controle sobre essa riqueza que desaparece, controlando-a não como recurso biológico, mas como recurso genético, já num plano da informação constitutiva desses recursos, dessa vida.

Ao mesmo tempo em que havia esse movimento para superar o desaparecimento das espécies, evoluía o Projeto Diversidade do Genoma Humano, cuja ambição era, com relação às minorias, a mesma que com os recursos biológicos. Ou seja, já que as populações tradicionais estão desaparecendo -elas que são portadoras de patrimônios genéticos específicos, que podem eventualmente servir para algo num futuro próximo-, a tecnociência trata de perenizar a existência desse patrimônio em bancos de dados genético, em vez de garantir o não-desaparecimento dos próprios indivíduos contemporâneos portadores dessas características.

Garante-se a disponibilidade dos anticorpos de uma população indígena específica para servir aos escolhidos para sobreviver, mas não para servir àqueles que não poderão sobreviver, incluindo-se aí a própria população da qual se tomou tais dados genéticos.

Essa é, de fato, a essência do celebrado mundo das virtualidades.

Laymert: Um mundo no qual trabalho, vida e linguagem não são considerados em sua existência, mas como virtualidades daquilo que poderá ou não ser concretizado no futuro. Quando esse se torna o objeto principal da riqueza, quando o capital e a tecnociência se aliam para explorar esse campo, o que se tem é um direcionamento da ponta do sistema para o futuro. E a grande discussão é: quem terá acesso a essas virtualidades e como elas serão exploradas? Isso inclui desde a biodiversidade amazônica, tratada nos primeiros capítulos do livro, até a questão do direito de exploração das virtualidades do humano.

Abarca inclusive o campo da arte?

Laymert: Sim. Nós nos perguntamos, hoje, por que a arte contemporânea é objeto de tanto interesse por parte da alta finança. É porque a elas interessa, de fato, o território das grandes virtualidades. Mais que as inscrições relevantes na história da arte, interessa saber como a virtualidade está sendo explorada na ponta, inclusive pelos artistas.

Isso tudo estaria conectado a um processo de seleção muito acirrado, a uma extrema especialização?

Laymert: A melhor palavra é seleção, pois o que está em jogo na aceleração total -econômica e tecnocientífica- é a relação entre vida e sobrevivência. Do ponto de vista de quem se encontra na ponta do trem-bala, a questão é: vamos garantir a nossa sobrevivência, antecipando o futuro e nos apoiando nas virtualidades que podem nos servir mais adiante. Opondo-se a essa posição de sobrevivência, ou dos sobreviventes, encontra-se tudo aquilo que apenas vive: todas as outras formas de vida, todas as outras temporalidades, as minorias e espécies que de uma ou outra maneira estão fora da aceleração e são objeto de pura especulação por esse grupo na ponta do processo.

Desse grupo altamente especializado.

Laymert: Sim, desse grupo muito especializado, que detém a informação e a torna exclusiva sua, de modo a transformá-la em valor. E, na medida em que esse grupo sabe perfeitamente que sua exploração é predatória, pois pactua com a destruição de muita coisa, temos, obviamente, o projeto de garantia de sobrevivência de uma elite mundial.

Quem, na literatura, anteviu esse quadro radical?

Laymert: Uma das coisas que gosto em Müller é a sua antevisão desse processo. Ele dizia, generosamente, “ou todos ou nenhum”, o que configurava, de certo modo, uma posição anti-seleção. Porém, no ultimo texto de meu livro, “Tecnologia e Seleção”, há uma referência a uma jovem filósofa francesa brilhantíssima, Barbara Stiegler, autora de “Nietzsche e a Biologia” (Presses Universitaires de France, 2001). Nessa obra, ela recorda que a questão foi apontada por Nietzsche muito claramente, já em suas duas vias: a da constituição de uma nova eugenia, a “grande política”, e a da afirmação da vida, a “grande saúde”.

Nietzsche já havia pensado nisso quando politizou a biologia, na “Genealogia da Moral”. Ele afirmava pensar para aqueles que viriam 100 ou 200 anos depois dele. Efetivamente, do modo como ela o analisa, percebemos que ele tinha razão em dizer isso, e que ela tem razão em apontar. Pois os dilemas colocados hoje pela biogenética são dilemas a respeito não da criação de uma raça superior, mas de uma nova eugenia, de um quadro no qual existem aqueles cujo patrimônio será melhorado, e existe, de outro lado, o resto.

A diferença entre esses pólos já começa a se construir e em breve será tão grande que percebemos claramente que o discurso da obsolescência do humano prepara, na verdade, o advento de um humano superior, que evidentemente dominará os demais. Instaurada no plano molecular, a eugenia assume dimensões assustadoras.

Então a ficção científica estava certa?

Laymert: Eu nem trato disso no livro, mas, por exemplo, no início do novo livro de Fukuyama, sobre o futuro do homem, quando ele analisa a forma como a biogenética destrói as bases da democracia (e olhe que ele está pensando a democracia norte-americana...), diz que Huxley estava certo, que estamos de fato às portas de um admirável mundo novo.

A ficção científica adquiriu um interesse novo, e as ciências humanas se ocupam cada vez mais dela, porque se trata de uma literatura de antecipação. E hoje assistimos à antecipação no mercado financeiro, no tratamento das questões ambientais, na tecnociência, na arte e na guerra. Quando Bush desencadeou sua operação não foi contra uma agressão iraquiana -ele antecipou um “possível” ataque aos EUA com armas de destruição em massa. O vocabulário utilizado nesse episódio vincula-se claramente a estratégias de antecipação da realidade.

O escritor Philip K. Dick tem um texto maravilhoso, no qual explica por que escreve ficção científica (reproduzido em “Politizar as Novas Tecnologias): ele diz que não escreve para explorar as tecnologias do futuro, mas para pensar aquilo que a sociedade não é, ou aquilo que ela ainda não é: suas virtualidades e os possíveis tratamentos ou concretizações dessas virtualidades.

Você fala em tecnociência, um termo cujo significado parece sofrer transformações.

Laymert: Refiro-me a um modus operandi que não separa mais a ciência como um conhecimento desinteressado e a tecnologia como aplicação. Ao contrário, a tecnociência já indicia, de modo intenso e imanente, o conhecimento das aplicações, e assim temos a alimentação mútua entre ciência e tecnologia. A tecnociência já se constitui enquanto sistema, e isso é algo relativamente recente. Ela possui sua lógica própria e sua ética é subordinada, de certo modo, à afirmação de que “o conhecimento não tem limite”, ou de que não existe limite externo que possa ser contraposto a esse sistema.

Trata-se, então, de uma não-ética?

Laymert: O cientista dirá que está buscando o bem da humanidade, o bem-estar de todos os humanos e o florescimento da humanidade. Qualquer questionamento é taxado de obscurantismo. É um dogma que não se discute: não se pode sequer sugerir politizar a tecnociência. O dogma é “nenhum limite para a tecnociência”, da mesma maneira que o capital exige. A aliança entre esses dois termos não admite, igualmente, nenhum questionamento.

Esbarra-se, assim, na questão religiosa?

Laymert: Acredito que podemos questionar, isto sim, o que informa a fé na tecnologia. Isso é possível perguntar. Existe uma ambição desmedida por parte da tecnociência, e aí sem dúvida os territórios se misturam.

Seu encontro com Heiner Müller, em Berlim, parece ter sido uma experiência muito forte.

Laymert: Sim, pois foi algo totalmente inesperado. Consegui a entrevista por um estalo, e ela foi realizada na casa dele. Após esse encontro, percebi claramente o caráter não só da divisão entre Oriente e Ocidente, advinda da Guerra Fria, mas também, e principalmente, consegui entender o sentido da História. Müller tinha uma consideração muito forte sobre a História: ele a enxergava como tragédia, ou seja, achava que a maneira como existimos no mundo atual é uma maneira de carregar a História como nossa tragédia. Não temos mais os deuses que decidem os nossos destinos, mas uma História que trama o nosso destino muito além da nossa vontade. Essa seria a nossa tragédia.

E onde se coloca a criação nesse panorama? Como se pode escolher o próprio destino? O futuro do humano, para Müller, não pode ser estabelecido pela tecnociência. Para ele, aquilo que existe de virtual no ser humano, o que ainda poderá ser realizado, deverá acontecer ao largo da História, escapando dela, ou desvencilhando-se dela.

Qual seria o agente desse processo à margem da História?

Laymert: Ora, trata-se daquilo que está vivo e ainda não foi capturado. Seria aquilo que existe de virtual no humano, mas ainda não pôde ser colonizado pela História, ou pelas forças da História. Isso é escapar da História, mas de certa maneira também significa construir outras possibilidades de História.

Seriam instâncias mais sutis do que aquelas já identificadas e armazenadas, novas formas de resistência?

Laymert: Exatamente. Onde estão as resistências de hoje? Estão, também elas, no campo das virtualidades, e é aí, justamente, que se encontram mais ameaçadas, uma vez que a aliança entre o capital global e as tecnociências projetam a colonização do virtual. O embate se dá no próprio lugar onde se encontra a fonte da resistência, onde se encontra a vida.

Por isso, o que existe atualmente é o embate entre a sobrevivência e a vida. Os que estão trabalhando para se estabelecer como aqueles que sobreviverão no futuro, aqueles que buscam a supra-existência, encontram-se em uma linha de tensão com aqueles que querem simplesmente viver, e não criar uma sobrevida. Porém, estes portam virtualidades que são objeto de apropriação por parte daqueles que querem sobreviver. Basta ler o livro de Susan George, “O Relatório Lugano”, para entender isso.

Você tem viajado bastante para conferências e seminários, no Brasil e no exterior. Vê alguma sociedade comportar-se de forma criativa para superar esse impasse global?

Laymert: Não vejo isso. Na Europa, a questão se coloca de forma diferente. Nosso foco de visão é diverso porque somos os perdedores desse processo de aceleração, embora não queiramos reconhecê-lo. Fazemos um esforço gigantesco para nos mantermos no trem enquanto nacional, como um todo. Por outro lado, a sociedade deles está toda no trem.

Desde essa perspectiva, o positivo e o negativo são percebidos de forma diferente. Para eles, não faz sentido a frase “Nós somos todos descartáveis”, do sub-comandante Marcos, pois aqueles que se encontram no interior do trem em movimento não se julgam de forma nenhuma descartáveis. Isso faz toda uma diferença, e é preciso entender que eles raciocinam desde um outro ponto de vista.

Alvaro Machado
É jornalista, colaborador da "Folha de S. Paulo", autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador de "Aleksandr Sokúrov" (ed. Cosac & Naify) e de "Mestres-Artesãos" (ed. Sesc-SP). Coordena o site-catálogo da editora Cosac & Naify (www.cosacnaify.com.br).

 
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