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AUDIOELETROVISUAL

A TV para os analfabetos
Por Alcino Leite Neto

Num filme fundamental, "Mulheres Diabólicas", o diretor Claude Chabrol realiza uma crítica clara e dura ao modo como a televisão se associa a mecanismos de ressentimento e alienação. Uma empregada doméstica francesa que esconde obsessivamente seu analfabetismo só encontra conforto às aflições diante do aparelho de TV.

O filme, de 1995, na época espantou a crítica européia por dois motivos. Primeiro, porque apresentava uma personagem analfabeta na república iluminista da França. Segundo, porque Chabrol fazia, à sua maneira, uma leitura imprevisível da famosa "luta de classes" -como se o conceito não tivesse sido desacreditado.

Assim, enquanto a empregada se trancava em seu refúgio no sótão da mansão para ver programas de auditório, a família burguesa se reunia na sala elegante para assistir a vídeos de ópera. Os entretenimentos variavam, mas ambos mergulhavam as diferentes classes em igual isolamento e cegueira social. Não seria diferente, hoje, com o home theatre e o DVD.

Como se trata de uma história de crime e violência, tudo acaba em tragédia no filme. A catarse derradeira, no entanto, não ofusca o poderoso esboço político de Chabrol, que nem sequer é marxista.

"Mulheres Diabólicas" (no original "La Cérémonie", disponível em vídeo) deveria fazer parte do currículo das escolas de comunicação e ciências humanas no Brasil. Sobretudo por tocar nesta relação frequentemente menosprezada nas análises sobre a TV: a relação desse meio com o analfabetismo.

Para que tudo fique mais concreto, vamos aos números brasileiros. Segundo o IBGE - Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (dados de 2000), 13,6% da população brasileira com idade acima de 15 anos é analfabeta. Pior é o índice do chamado "analfabetismo funcional": 29,4% dos brasileiros que têm 15 anos ou mais cursaram menos de quatro anos de estudo e dominam apenas rudimentos da escrita e da leitura.

Essa catástrofe, que é nossa, é também uma espécie de sintoma agudo de um conjunto de mudanças no plano mundial, quais sejam: (a) a desistência quanto ao projeto de educação literário-humanista de todo o gênero humano; (b) o aumento da segregação social, baseada agora no acesso restritivo ao conhecimento e aos meios de informação -por outro lado: o acesso mercantil irrestrito aos de entretenimento; e (c) a dominância da televisão sobre todas as mídias como "ambiente" privilegiado de compartilhamento midiático da população analfabeta.

Uma das aspirações essenciais da cultura humanista era a alfabetização universal. Por meio dela, todos os homens poderiam ser reunidos num espaço abstrato comum (a humanidade ilustrada), cujos valores de justiça, liberdade e equidade seriam transmitidos pelos livros e os saberes.

Esta utopia já não existe. Assim como deixamos de crer em valores comuns transcendentes, não acreditamos mais na leitura como fundamento civilizatório. A escrita passa por evidente expansão graças à internet, mas no mundo virtual ela tem função oposta à que tinha no humanismo -atende às trocas informativas de uma sociedade fragmentada.

Apesar disso, a rede mundial de computadores é uma garantia para os que dela usufruem de associação a um universo de comunicação formalmente unificado. Mais do que isso: ela permite o domínio, hoje, sobre uma parte do sistema produtivo.

Por isso, a alfabetização eletrônica é cavalo de batalha de humanistas recalcitrantes. Os melhores dentre eles defendem a democratização do acesso à internet não como forma de agregação transcendental dos homens, mas a fim de evitar a segregação social superior que se configura entre os que compartilham a Web e os que não.

Ajunte-se o analfabetismo digital ao analfabetismo propriamente dito e estamos num mundo em que uma superelite magnifica seu domínio sobre os meios de produção e comunicação. Combater esse quadro pessimista exige, portanto, o redobrado esforço de vencer dois analfabetismos de uma vez só.

É mais provável que isso não ocorra e que milhões, ou bilhões, permaneçam chafurdando cada vez mais fundo na obscuridade. Para esses, a TV poderia ser um meio essencial de auto-espelhamento e transmissão de valores.

Não é impensável, nem condenável, um futuro em que parte das pessoas desse mundo, tendo sido elas marginalizadas da linguagem escrita e informacional, passem a utilizar a linguagem televisiva para forjarem sua cultura.

A TV poderia até mesmo se transformar em instrumento de desalienação e mídia alternativa à da classe dominante pós-letrada. Isso, se as emissoras já não estivessem sob o controle de gigantescos oligopólios e, no Brasil, de políticos do interior do país -os novos coronéis eletrônicos.

A ambos só interessa conter a violência advinda do ressentimento que resulta da marginalidade com a ajuda de espetáculos midiáticos de conciliação. Estes liberam cada vez maiores doses de brutalidade, atendendo ao sentimento desagregador, para depois aplicarem como ideologia as vantagens da irmanação no mercado audiovisual.


O texto acima é uma versão de artigo publicado na “Folha de S. Paulo”

Alcino Leite Neto
É jornalista, editor de "Trópico" e editor de "Domingo" da "Folha de S. Paulo", jornal onde já exerceu as funções de correspondente em Paris, editor do "Mais!", da "Ilustrada" e de "Especiais".

 
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