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dossiê
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Pós-guerra digital
Por Gilson Schwartz

As próximas guerras voltarão a ser comerciais. No campo de batalha, a mobilização é grande em torno das tecnologias de informação e comunicação e, de modo geral, da chamada "sociedade da informação". A agitação nos bastidores da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, a ser realizada em dezembro, é crescente. O governo brasileiro retoma o processo de decisão sobre o futuro da TV digital no país e defende uma expansão significativa da educação a distância. Direitos de propriedade intelectual são questionados.

Há uma agenda econômica ou, para usar uma expressão mais adequada, uma economia política da informação que salta aos olhos e ocupa espaços. Na OMC (Organização Mundial do Comércio), ganha força a defesa da liberalização dos serviços, com evidente destaque para os serviços educacionais (assuntos como a atuação de grupos educacionais estrangeiros e a aprovação de cursos a distância precisam de reformas nas leis nacionais). Se, no Brasil, já ocorreu nas telecomunicações, porque não ocorreria na educação, ainda mais "à distância"?

A resposta a essa questão virá da prática, do embate entre lobbies e da qualidade do debate nacional em torno do tema. O Brasil pode tornar-se um exportador de conhecimento?

Projetos como o da Cidade do Conhecimento ganham portanto uma dimensão que talvez não estivesse tão clara há três ou quatro anos, quando teve início a nossa mobilização em torno do fortalecimento de mídias públicas e democráticas, com foco no investimento social na produção de conhecimento mediada por tecnologias de informação e comunicação.

Se o país não desenvolver capacidade de medir e organizar essas redes públicas e democráticas, terá ainda mais dificuldades para crescer e se desenvolver. Nesse emparedamento coletivo, a TV digital será apenas mais um detalhe na reiteração secular da dominação elitista.

A capacidade de "medir e organizar", ou seja, de produzir conhecimento sobre essa nova forma de produzir conhecimento, não surge do nada. É preciso fazer pesquisa teórica e aplicada sobre a economia da informação. O desafio para os que organizaram o Fórum de Políticas Públicas sobre a TV Digital na USP, em outubro, era contribuir para a identificação dessa agenda de pesquisa. Sem reflexão crítica, vai imperar o darwinismo.

Imagine-se a situação: a OMC e o FMI denunciando a Lei de Diretrizes e Bases (regulação do sistema educacional brasileiro) por dificultar a instalação de empresas estrangeiras no país. Um governo que depende financeiramente desses organismos seria levado a uma nova geração de reformas, pressionando o Congresso para mudar a legislação.

Quais serão os critérios da mudança? No setor de telecomunicações, argumentava-se em geral a favor da liberalização em nome da demanda reprimida. O mesmo argumento já surgiu no caso da educação. Para alguns lobistas, o processo de regularização de cursos no Brasil é muito lento e, portanto, a estrutura atual não atende à demanda. Se o bem público é "formar mais mestres e doutores", como fazer isso com programas de mestrado que só aceitam 20 alunos? A abertura para instituições estrangeiras seria uma solução: a oferta encontrando a sua demanda.

Esse é apenas um dos tópicos em que uma "nova" economia política da informação e do conhecimento tem algo a dizer. Temas como "sociedade da informação" ou "economia do conhecimento" assumiram nos últimos anos o caráter de projetos estratégicos de governos, empresas e outras organizações, transversalmente, em todo o mundo. A difusão de mídias digitais interativas ampliou os espaços de trocas econômicas, sociais e simbólicas.

A economia da informação se descortina não apenas como disciplina acadêmica, mas também como um novo campo na instituição social e do imaginário. O pós-guerra digital é uma nova guerra pelo conhecimento.

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Cidade do Conhecimento - www.cidade.usp.br

Gilson Schwartz
É diretor acadêmico da Cidade do Conhecimento (www.cidade.usp.br) e professor convidado do curso de pós-graduação do departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

 
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