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O grande momento da TV digital
Por Esther Hamburger

A iminência de decisões estratégicas sobre a TV digital coincide com o esgotamento do modelo de produção e difusão de TV atualmente em vigor. A conjunção de mudanças na estrutura da TV convencional com determinadas opções de TV digital pode operar uma verdadeira transformação nas formas de produzir e consumir cinema, televisão, internet, jornal, revista etc.

A discussão gera por vezes cenários futuristas. O seminário interdisciplinar “TV Digital”, promovido pelo Fórum de Políticas Públicas da USP entre 29 e 31 de outubro de 2003, ilustra elucubrações que beiram a ficção científica, mas os fatos não estão tão distantes assim.

A crise financeira de emissoras de TV aberta e a falência do sistema de TV a cabo abrem espaço para antigas reivindicações democratizantes. Embora ainda localizadas e tímidas, há experiências de produção independente em andamento nas principais emissoras de TV aberta.

“Cidade dos Homens”, na Globo, “A Turma do Gueto”, na Record, e o programa de Marília Gabriela, no SBT, são exemplos dessa que pode vir a se confirmar como uma tendência que possibilitaria a diversificação e descentralização da produção.

As modificações na lei que regulamenta a produção regional coincidem com a dinamização de mercados locais. Programas simplórios, produzidos em emissoras afiliadas no estado de São Paulo, ganham outras regiões e estados simplesmente pelo sabor do sotaque local.

O governo prepara um pacote de ajuda a empresas de comunicação, incluindo as emissoras de TV. Há quem considere o momento ideal para a revisão dos acordos de concessão de canais, contratos feitos há muitas décadas, gratuitamente, baseados em critérios pessoais e políticos.

Regionalização, descentralização da produção, revisão de contratos de concessão significariam o rompimento de diversos tabus na indústria de TV brasileira. Decisões sobre o padrão e o modelo de TV digital a ser adotado para substituir a TV analógica envolvem opções tecnológicas, políticas e econômicas de impacto sociocultural.

A passagem da TV analógica para a digital envolve temas polêmicos. Há que decidir se o padrão de TV digital adotado pelo país será um dos modelos existentes no panorama internacional, ou se o Brasil se aventurará na definição de um padrão próprio, o que poderia significar economia de royalties. Definido o padrão, há que decidir se os aparelhos necessários serão de produção nacional ou se a compra no exterior será liberada. Aqui a relação pode se inverter, ficando a produção nacional mais custosa que a importada.

A TV digital pode ser implantada juntamente com a HDTV -TV de alta definição- ou não. A opção pela alta definição reduz o número de faixas no dial disponíveis a emissoras pequenas e afiliadas das grandes redes.

Segundo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, a implantação conjunta de TV digital e HDTV favoreceria as atuais emissoras de TV aberta que reivindicam a concessão de canais extra. Para Boni a diversificação dos concessionários é prioritária.

O ex-vice-presidente da rede Globo sugere que se realizem as licitações previstas em lei para distribuir concessões. Aproveitar-se-ia assim a ocasião de realizar uma “limpa” –ou seja, canais que não cumpram a sua função pública seriam substituídos. O mecanismo garantiria profissionalismo inédito na distribuição e renovação de contratos de difusão.

A TV digital permite assistência assíncrona. O telespectador, ou melhor, o “interador”, para citar o termo mencionado por Giselle Beiguelman, poderá selecionar o que quer assistir e em que horário, sendo este definido por quem consome, e não por quem transmite.

A relação entre esse bicho novo, a TV digital, e a internet é outro ponto controverso do debate. Muitos defendem o desenvolvimento de aparelho especializado em permitir o acesso à internet a partir do monitor de TV. A China já teria um aparelho assim.

No Brasil há pesquisas adiantadas na Escola Politécnica da USP sobre a fabricação dessas “caixas” que libertarão o telespectador de seu refúgio seguro no anonimato passivo, “couch potatoe”.

No Brasil, enquanto uma porcentagem bastante alta de domicílios possuem aparelho de televisor, pouquíssimos possuem computadores e um número menor de lares está conectado à rede.

A adoção do modelo de TV digital acoplada à internet ofereceria uma chance única e inédita de inclusão digital. O assunto é controverso. Profissionais de TV relutam. Há quem defenda que “TV é TV, e cinema é cinema”.

A conexão à internet através do aparelho televisor colocará em cheque a programação televisiva. Além de questões tecnológicas, há problemas de conteúdo a serem pesquisados.

O debate sobre TV digital se concentra em geral nas vantagens e desvantagens de cada uma das tecnologias disponíveis. Mas há relativamente pouco espaço reservado à problematização de conteúdos.

Em que medida conteúdos de uma TV não só digital, como interativa, diferem dos conteúdos da TV convencional? Como serão as narrativas interativas? Qual o papel do autor nessas histórias? Quanto tempo dura essas narrativas? São seriadas?

Perguntas sobre a dramaturgia e a linguagem ainda vão render nos debates. Será necessário inventar gêneros e formatos que ajudem a potencializar as atividades de seres nômades, sedentos de comunicação, dispostos a encontros assíncrônicos, prontos para interagir.

Para não falar de questões político-estruturais. Se a TV se conecta com a internet, como fica o estatuto das emissoras de canal aberto? Este parece ser o momento para que o Brasil dê um salto avantajado rumo à criação de redes que realizem o projeto de inclusão digital.

Esther Hamburger
Esther Hamburger é antropóloga, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP) e editora de "Trópico".

 
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